Disque F para Frankenstein - Arthur C. Clarke (Conto)

Disque F para Frankenstein
Arthur C. Clarke
1965

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Os computadores ligados por telefone estabelecem uma rede gigantesca para o processamento, acúmulo e fornecimento de informações. Desde o início das pesquisas e do aperfeiçoamento do computador, os engenheiros eletrônicos da companhia telefónica Bell logo perceberam o imenso potencial que representaria para o campo das comunicações. Em 1951, a Bell inventou o transistor, possibilitando o uso do circuito de estado sólido.

Antes da década de 80, as únicas organizações que dispunham de computadores ligados por telefone, devido ao alto custo do sistema, eram os departamentos governamentais e as grandes corporações. Mas com a chegada da era do microcomputador, muitas residências contam hoje com computadores particulares. E provável que até o fim dos anos 80 a maioria da população venha a ter computadores domésticos, tal como no fim dos anos 50 quase todo mundo já havia comprado aparelho de televisão. A ligação telefónica de um computador particular com qualquer outro de natureza doméstica, empresa ou centro de processamento de dados já é possível, em troca de um custo relativamente baixo. A rede de comunicações descrita em "Disque F para Frankenstein" se encontra ao alcance de todos.

Arthur C. Clarke é uma figura conhecidíssima para quem se interessa por ficção científica ou programas espaciais. Detentor de três prémios Hugo e três Nebulas, fez a cobertura jornalística do lançamento das Apollos 11, 12 e 15 para a CBS - e seu romance Childhood’s End (O fim da infância) tornou-se clássico. O que muita gente não sabe, porém, é que, em 1945, bem antes de se cogitar seriamente de satélites, Clarke publicou um artigo numa obscura revista de rádio chamada Wireless World descrevendo a possibilidade da comunicação mundial instantânea através de três estações espaciais colocadas em órbita geoestacionária a cerca de quarenta mil quilômetros de distância da Terra. As mensagens seriam transmitidas por cima dos oceanos e cordilheiras, não porfio, mas por microondas de superfície, de satélite em satélite. A INTELSAT, organização internacional de telecomunicações via satélite, lançou o primeiro projeto (o Early Bird) em 1965, apenas vinte anos depois, convertendo a visão de Clarke em realidade. A era da comunicação global instantânea tinha chegado. Não há, praticamente, melhor exemplo da rapidez vertiginosa dos progressos recentes no campo da informática.

Hoje não resta dúvida de que o nosso mundo está todo ligado entre si e a possibilidade de melhorar as relações internacionais com o progresso dos sistemas de comunicação se encontra ao nosso alcance. O uso de computadores pelos militares pode ser demoníaco e assustador, mas, antes de se condenar, convinha estudar a fundo o seu emprego nos sistemas de comunicação. Os satélites têm permitido tudo quanto é tipo de vantagens.

O leitor não deve levar muito a sério o desfecho sinistro deste conto. A atitude de Clarke em relação à tecnologia costuma mostrar-se cautelosamente otimista, e não negativa como aqui dá a impressão de ser. Ele deposita muita fé no futuro da humanidade com a tecnologia, desde que a corrida armamentista entre as superpotências consiga evitar a autodestruição.

Clarke se formou em Física e Matemática no King’s College de Londres, sempre demonstrando grande interesse pelas fronteiras da ciência, sobretudo no terreno da astronomia. Já presidiu duas vezes a Sociedade Interplanetária Britânica. Nascido em Somerset, na Inglaterra, em 1917, reside desde 1956 no Sri Lanka. Escreveu frequentemente histórias sobre a exploração submarina: um dos motivos que teve para radicar-se lá. Na ficção cibernética, Clarke é mais conhecido por 2001: uma odisseia no espaço (1968), que escreveu primeiro como roteiro para o cinema e depois como romance. Mas o seu maior triunfo no gênero é, provavelmente, a sua obra-prima, é The City and the Stars (A cidade e as estrelas, 1956).



À lh50, hora do meridiano de Greenwich, no dia 1 o de dezembro de 1975, todos os telefones do mundo começaram a tocar. Duzentos e cinquenta milhões de pessoas tiraram o fone do gancho para passar por alguns segundos de irritação ou perplexidade. Quem acordou no meio da noite julgou que se tratasse de algum amigo distante, ligando pela rede telefônica via satélite inaugurada, com verdadeiro alarde publicitário, na véspera. Mas não havia nenhuma voz na linha; apenas um som, para muitos semelhante à rebentação das ondas do mar; para outros, à vibração das cordas de uma harpa tocada pelo vento. A maioria, porém, lembrou-se no mesmo instante de um ruído que vinha da infância - o barulho do sangue palpitando nas veias, que se ouve com uma concha colada na orelha. Fosse lá o que fosse, não durou mais que vinte segundos, sendo logo substituído pelo sinal de linha desocupada.

Os assinantes do mundo inteiro soltaram um palavrão, resmungando: "deve ter sido engano" e desligaram. Houve quem discasse para reclamações, mas o número parecia ocupado.

Horas depois, o incidente já estava esquecido - menos por quem tinha o dever de se preocupar com essas coisas.

No Posto de Averiguações dos Correios, passou-se a manhã inteira discutindo o assunto sem chegar a nenhuma conclusão. E assim continuou durante a hora do almoço, quando os engenheiros se concentraram no pequeno restaurante do outro lado da rua.

- Eu ainda acho - disse Willy Smith, o encarregado da eletrônica de estado sólido - que foi um surto temporário da corrente, causado pela ligação da rede de satélites.

- Que teve algo a ver com os satélites não resta a menor dúvida - concordou Jules Reyner, projetista de circuitos. Mas por que tanto tempo depois? Foram ligados à meia-noite; os telefones tocaram duas horas mais tarde - como todos sabem muito bem.

Bocejou com espalhafato.

-E você, Doe, o que acha? - perguntou Bob Andrews, programador de computadores. - Passou a manhã toda calado. Tenho certeza de que deve ter alguma opinião sobre o assunto.

O dr. John Williams, chefe do departamento de Matemática, mudou de posição, contrafeito.

- Tenho, sim respondeu. Mas vocês não vão levar a sério.

- Não faz mal. Mesmo que seja tão desvairada quanto essas histórias de ficção científica que você escreve com pseudônimo, pode ser que dê uma dica pra gente.

Williams avermelhou, mas não muito. Todo mundo sabia das histórias que escrevia, mas não se envergonhava por causa disso. Afinal de contas, tinham sido reunidas em livro. (Verdade que os últimos exemplares, a preço de liquidação; ainda guardava algumas centenas.)

- Muito bem - disse rabiscando na toalha da mesa. Há anos que venho pensando sobre o assunto. Já repararam na semelhança que existe entre um centro de telefones automático e o cérebro humano?

- E quem não reparou? - escarneceu um dos ouvintes. - Uma ideia que data do tempo do próprio Graham Bell.

- Possivelmente; nunca disse que ela era original. Apenas afirmo que já é hora de se começar a levar o assunto a sério. - Franziu os olhos com estranheza para as lâmpadas fluorescentes no teto; eram indispensáveis nesse dia de nevoeiro de inverno. - Pô, o que é que há com essas lâmpadas? Faz cinco minutos que não param de piscar.

- Não se preocupe com isso. No mínimo a Maisie esqueceu de pagar a conta da luz. Fale mais sobre a sua teoria.

- De modo geral, não é teoria, mas puro fato. Todo mundo sabe que o cérebro humano se compõe de um sistema de chaves - os neurônios - interligadas, de modo muito complicado, por nervos. Um centro telefônico automático também se compõe de um sistema de chaves - seletores, etc. ligadas por fios.

- Perfeitamente - disse Smith. - Mas essa semelhança não adianta nada. Não existem cerca de quinze bilhões de neurônios no cérebro? Isso é muito mais que o número de chaves de um centro automático.

A resposta de Williams foi interrompida pelo estrondo de um jato em vôo rasante; para poder continuar, teve que esperar que o restaurante parasse de vibrar.

- Nunca ouvi esses aviões voando tão baixo - resmungou Andrews. - Pensei que fosse proibido.

-E é, mas deixa pra lá, o controle do aeroporto de Londres há de pegá-lo.

- Duvido – retrucou Reyner. - Foi o próprio aeroporto , de Londres orientando o pouso de um Concorde. Mas também nunca ouvi nenhum tão baixo assim. Ainda bem que eu não estava dentro dele.

- A gente vai ou não vai continuar com esta maldita discussão? reclamou Smith.

- Quanto aos quinze bilhões de neurônios, tem razão prosseguiu Williams, imperturbável. E aí é que está o problema. Parece um número enorme, mas não é. Lá pelos anos 60, havia muito mais do que isso em matéria de chaves individuais nos centros automáticos mundiais. Hoje existe aproximadamente cinco vezes mais.

- Entendo – disse Reyner, pensativo. E, a partir de ontem, todas ficaram capazes de interligação completa, agora que a comunicação por satélite começou a funcionar.

- Exatamente.

Fez-se um pouco de silêncio, só cortado pelo alarido distante da sirene de um carro de bombeiros.

- Deixa ver se entendi direito – disse Smith. Você está querendo dizer que o sistema telefônico mundial agora é um cérebro gigante?

- A grosso modo, antropomorficamente, sim. Prefiro raciocinar em termos de tamanho analisado sob o aspecto crítico.

Williams estendeu as mãos, com os dedos meio arqueados.

- Aqui estão dois pedaços de U-235; enquanto estiverem separados, não acontece nada. Mas é só juntar completou as palavras com gestos e a gente fica com algo bem diferente de um pedaço maior de urânio: uma cratera de cerca de um quilômetro de diâmetro.

"Acontece o mesmo com as nossas redes telefônicas; até hoje, foram em grande parte independentes, autônomas. Mas agora, de repente, multiplicamos os elos, todas as redes se fundiram - e atingimos o ponto crítico."

- E o que é que significa o ponto crítico, nesse caso? perguntou Smith.

- Na falta de um termo melhor: consciência.

- Um tipo de consciência muito estranho - disse Reyner.

- O que é que ela iria usar no lugar dos órgãos dos sentidos?

- Bem, todas as estações de rádio e tevê do mundo inteiro estariam lhe prestando informações, através das linhas terrestres. Isso já lhe daria alguma coisa para pensar Depois, disporia de todos os dados armazenados pelos computadores; teria acesso a tudo isso - e a bibliotecas eletrônicas, a sistemas de localização por radar, a telemetragem nas fábricas automatizadas. Ah, contaria com órgãos dos sentidos de sobra! Nem dá para sequer imaginar a visão que teria do mundo, mas decerto seria infinitamente mais ampla e complexa que a nossa.

- Suponhamos que sim, pois a ideia é bem divertida disse Reyner -, mas o que é que ela poderia fazer, além de pensar? Não teria como sair de onde está; não dispõe de membros.

- E a troco de quê haveria de querer viajar? Já estaria em toda parte! E cada aparelho de controle remoto do planeta funcionaria como membro.

- Agora estou entendendo aquela demora toda - interrompeu Andrews. - Ela foi concebida à meia-noite, mas só nasceu à uma e quinze da madrugada. O barulho que acordou todos nós era o grito de hora do parto.

A tentativa de gozação não saiu bem sucedida, e ninguém achou graça. No teto, as luzes continuavam piscando de maneira irritante, cada vez mais. Depois houve outra interrupção, provocada na parte da frente do restaurante, pela entrada, como sempre barulhenta, de Jim Small, funcionário do departamento de peças elétricas.

- Olha só, pessoal - disse sorrindo, sacudindo uma toalha de papel diante da cara dos colegas. - Estou rico. Já viram saldo bancário igual a este?

O dr. Williams pegou o extrato, correu os olhos pelas colunas e leu o saldo em voz alta:

- Crédito: £ 999.999.897.87. Não vejo nada de mais nisto - continuou, levantando a voz no meio da algazarra geral.

- Diria que o computador, pelo visto, cometeu algum erro. O tipo da coisa que acontecia a toda hora quando os bancos resolveram adotar o sistema decimal.

- Já sei, já sei - disse Jim -, mas não banca o desmancha-prazeres. Vou mandar emoldurar este extrato - e o que será que aconteceria se eu apresentasse um cheque de alguns milhões baseado nisto aqui? Não podia processar o banco, se fosse devolvido por falta de fundos?

- De jeito nenhum - respondeu Reyner. - Sou capaz de apostar como os bancos já previram isso anos atrás, tratando logo de se defender num daqueles contratos de letra miúda. Mas, espera aí - quando foi que você recebeu esse extrato?

- Pelo carteiro do meio-dia; pedi que mandassem para o escritório para que a minha mulher não tivesse chance de ver.

- Hum... quer dizer então que foi computado hoje de manhã bem cedo. Na certa depois da meia-noite...

- O que é que você está querendo insinuar? E por que que todo mundo está fazendo essa cara?

Ninguém respondeu: uma vez levantada a lebre, os perdigueiros saíram atrás feito doidos.

- Alguém aqui entende de sistema bancário automático? - perguntou Willy Smith. - Como é que funciona a compensação?

- Como tudo hoje em dia - respondeu Bob Andrews. Todos os bancos pertencem à mesma rede, os computadores se comunicam entre si pelo mundo afora. Eis aí um ponto a seu favor, John. Se houvesse encrenca para valer, esse seria um dos primeiros lugares que me ocorreriam. Além do próprio sistema telefônico, lógico.

- Ninguém respondeu a pergunta que fiz antes do Jim chegar - reclamou Reyner. - O que é que esse supercérebro realmente faria? Se mostraria amigo, hostil, indiferente? Saberia, inclusive, que a gente existe ou consideraria os sinais eletrônicos que o controlam como sendo a única realidade do mundo?

-Pelo que vejo, você começa a acreditarem mim - disse Williams, com certa satisfação implacável. - Só posso responder com outra pergunta. O que é que faz uma criança recém-nascida? Começa logo a procurar alimento. - Levantou os olhos para as luzes trêmulas. - Meu Deus - exclamou hesitante, como que fulminado por uma ideia súbita. - Está aí a única espécie de alimento de que precisaria -a eletricidade.

- Chega de bobagem - atalhou Smith. - Que fim levou o nosso almoço? Já faz vinte minutos que estamos esperando.

Ninguém prestou atenção.

- E aí então - continuou Reyner, retomando o fio da meada de Williams - se poria a olhar em volta e a esticar os membros. A brincar, em suma, como qualquer criança em fase de crescimento.

- E as crianças costumam quebrar coisas - comentou alguém em voz baixa.

- Brinquedos é o que não lhe faltaria, por Deus. Como esse Concorde que acaba de passar por aqui. As linhas de montagem automática. Os sinais de trânsito nas ruas.

- Engraçado você falar nisso - interveio Small. - Aconteceu alguma coisa com o trânsito lá fora... há dez minutos que está interrompido. Parece um grande engarrafamento.

- Acho que houve um incêndio... escutei a sirene dos bombeiros.

- Eu escutei duas... e o que dava impressão de ser uma explosão lá para os lados do bairro industrial. Tomara que não seja grave.

-Maisie!!! Quer trazer uma vela? Agente não consegue enxergar mais nada! Agora me lembrei... a cozinha daqui c à base de eletricidade. O nosso almoço vai vir frio; se vier.

- Mas ao menos dá para se ler o jornal enquanto se espera. Esse que você tem aí é a última edição, Jim?

- E... ainda não tive tempo de dar uma olhada. Hum... tudo indica que houve uma porção de acidentes estranhos hoje de manhã... sinaleiras ferroviárias estragadas... fornecimento de água suspenso por defeito na válvula de segurança... dezenas de reclamações sobre o "engano" telefônico de ontem à noite...

Virou a página e de repente se calou.

- O que foi?

Sem dizer nada, Small entregou o jornal. Só a primeira página tinha nexo. Nas internas, as colunas estavam todas empasteladas - os erros tipográficos interrompidos, aqui e ali, por anúncios congruentes, verdadeiras ilhas de sensatez no meio de um mar de palavras ocas. Tinham sido evidentemente impressos como blocos independentes e escapado da mixórdia em que se transformara o texto dos artigos ao redor.

- Quer dizer então que foi a isto que nos reduziu a composição feita a longa distancia e a distribuição automática - murmurou Andrews. - Estou vendo que Fleet Street caiu na asneira de colocar todos os seus ovos no mesmo balaio eletrônico.

- Como todos nós, por sinal - disse Williams, bem solene. - Como todos nós.

- Se me permitem um aparte, a tempo de sufocar o pânico que parece que tomou conta desta mesa - declarou Smith, em voz alta e enérgica -, gostaria de salientar que não há motivo para preocupações... mesmo que a hipótese engenhosa de John esteja certa. Basta desligar os satélites... e tudo volta à situação normal que reinava ainda ontem.

- Lobotomia pré-frontal - murmurou Williams. - Já tinha me ocorrido. Como? Ah, desculpem... extraindo partes do cérebro. Isso sem dúvida resolveria o problema. Lógico que ia custar caro e teríamos de nos resignar a mandar telegramas de novo, uns aos outros. Mas a civilização sobreviveria.

Vinda de curta distância, ouviu-se uma explosão, rápida e intensa.

- Não estou gostando - comentou Andrews, nervoso. - Vamos ouvir o que a velha BBC tem para nos dizer -o noticioso da uma hora acaba de começar.

Pôs a mão dentro da pasta e tirou um rádio transistor.

- ... quantidade sem precedentes de acidentes industriais, além do lançamento inexplicável de três salvas de mísseis teleguiados das instalações militares dos Estados Unidos. Diversos aeroportos viram-se obrigados a suspender as operações por causa do comportamento extravagante do sistema de radar e os bancos e as bolsas de câmbio encerraram o expediente porque o processamento de dados tornou-se completamente descontrolado. ("Como se eu não soubesse", murmurou Small, enquanto os outros mandavam que calasse a boca.) Um momento, por favor - acabamos de receber novas notícias... Cá estão. Estamos sendo informados de que todo o controle sobre os satélites de comunicação recentemente instalados está perdido. Não reagem mais aos comandos que partem daqui da terra. Segundo...

A BBC saiu do ar; até a onda transmissora foi interrompida. Andrews pegou o botão de sintonia e girou em torno do dial. Não havia nenhuma outra emissora funcionando.

- Aquela lobotomia pré-frontal - disse Reyner afinal, numa voz próxima da histeria - foi uma ideia ótima, John. Pena que a criança já tivesse pensado nela.

Williams se levantou devagar.

- Vamos voltar para o laboratório - sugeriu. - Deve haver alguma resposta por aí.

Sabia, porém, que era tarde, tarde demais. Para o Homo Sapiens, a campainha do telefone tinha dado o derradeiro sinal.