quinta-feira, 27 de março de 2014

Luiz Bras - Estou vendo o futuro. Consegue ver também?


Estou vendo o futuro. Consegue ver também?

Vejo, com os olhos de Aldous Huxley, uma sociedade em que os valores morais e religiosos são bem diferentes dos nossos. Nesse mundo organizado em castas, o conceito de família não existe. Engravidar é algo obsceno e impensável. Ter uma crença religiosa é um ato de ignorância e desrespeito aos outros. Vejo cidadãos condicionados biológica e psicologicamente a viver em harmonia, respeitando todas as leis sociais.

Vejo, com os olhos de George Orwell, uma sociedade em que o Estado é onipotente, onisciente e onipresente. Vejo uma força opressora capaz de alterar a História e o idioma, controlar a mente das pessoas e travar uma guerra sem fim, com o objetivo de manter sua estrutura inalterada. Vejo nas residências, nas repartições públicas e nos restaurantes uma tela através da qual o Estado vigia cada cidadão.


Vejo, com os olhos de William Gibson, uma sociedade altamente tecnológica e multifacetada, em que o mundo real e o virtual se misturam. Vejo as grandes corporações dominando continentes inteiros e se devorando mutuamente. Vejo anti-heróis com próteses neurológicas, mergulhando, amando e morrendo no caos fosforescente do ciberespaço. Tudo é dinamismo e sinestesia, tudo é troca de informação e impulsos elétricos.


Vejo, com os olhos de Orson Scott Card, uma sociedade em que as crianças intelectualmente mais bem dotadas são monitoradas dia e noite pelas autoridades. Vejo as melhores dentre elas vivendo anos longe de casa, numa estação orbital, sofrendo um brutal treinamento de combate. Sua inocência não existe mais. Melhor dizendo: quase não existe mais. Pois esses cadetes-mirins superdotados sempre encontram meios de protegê-la do darwinismo militar.


Sentado no ombro desses gigantes, dá até para ver alguma coisa com meus próprios olhos. Agora eu vejo. Nem distopias nem utopias, apenas sociedades possíveis. Falíveis, espantosas, sublimes e injustas como todas as sociedades humanas.


Você também vê? Veja com seus próprios olhos. Pense no futuro. Mas, se achar tudo isso muito perigoso, você pode fazer como o cientista mais pop da História, Einstein, que certa vez resmungou: "Nunca penso no futuro, ele chega rápido demais".


LUIZ BRAS
Final da crônica "Escolha um Futuro", do livro "Muitas Peles" 2011 - Terracota Editora, SP.

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