terça-feira, 25 de março de 2014

Carl Sagan - Televisão e a Ciência.

Carl Sagan - Televisão e a Ciência.


Em muitos programas e filmes de TV, até a ciência casual — as variantes descartáveis, que não são essenciais para uma trama já desprovida de ciência — é feita incompetentemente. Custa muito pouco contratar um estudante de pós-graduação para ler o roteiro e garantir a precisão científica. Mas, que eu saiba, isso jamais é feito. O resultado é que temos disparates como o parsec ser mencionado como uma unidade de velocidade, e não de distância, no filme Guerra nas Estrelas — sob muitos outros aspectos, exemplar. Se essas coisas fossem feitas com um pouco de cuidado, poderiam até melhorar a trama; sem dúvida, ajudariam a transmitir um pouco de ciência para o grande público.

Há muita pseudociência para os crédulos na TV, uma quantidade razoável de medicina e tecnologia, mas quase nada de ciência — especialmente nas grandes redes comerciais, cujos executivos tendem a pensar que a programação da ciência significa declínio de audiência e perda de lucros, e nada mais importa. Há funcionários das redes que se apresentam como "correspondentes de ciência", e todas mostram um ocasional programa de notícias que se diz dedicado à ciência. Mas quase nunca ouvimos nenhuma informação científica de sua parte, apenas medicina e tecnologia. Duvido que haja em qualquer das redes de TV um único funcionário cuja tarefa seja ler o número semanal de Nature ou Science para ver se alguma coisa digna de ser noticiada foi descoberta. Quando os vencedores do prêmio Nobel em ciência são anunciados a cada outono, há um excelente "gancho" para noticiar a ciência: uma chance de explicar o motivo dos prêmios. Mas, quase sempre, só o que escutamos é algo semelhante a …pode um dia levar à cura do câncer. Hoje em Belgrado…

Quantas informações científicas são transmitidas nos programas de entrevistas do rádio ou da televisão, ou naqueles monótonos programas matinais de domingo em que pessoas brancas de meia-idade se reúnem para concordar uns com os outros? Qual foi a última vez em que se ouviu um comentário inteligente sobre ciência de um presidente norte-americano? Por que em todos os Estados Unidos, não existe nenhuma série de TV que tenha por herói alguém interessado em descobrir como o Universo funciona? Quando se dá grande publicidade ao julgamento de um homicídio, fazendo com que todo mundo passe a mencionar casualmente os testes de DNA, onde estão os especiais no horário nobre para explicar os ácidos nucleicos e a hereditariedade? Nem me lembro de ver na televisão uma descrição precisa e compreensível de como a televisão funciona.

O meio mais eficaz de despertar o interesse pela ciência é de longe a televisão. Mas esse meio de comunicação extremamente poderoso não está fazendo quase nada para transmitir as alegrias e os métodos da ciência, enquanto a máquina do "cientista maluco" continua a soprar e bufar pela estrada.

Em pesquisas de opinião feitas nos Estados Unidos no início dos anos 90, dois terços de todos os adultos não tinham ideia do que fosse a"superinfovia"; 42% não sabiam onde se encontra o Japão; e 38% ignoravam o termo "holocausto". Mas a porcentagem subia a 90 e tantos para quem tinha ouvido falar dos casos criminais de Menendez, Bobbitt e O. J. Simpson; 99% sabiam que o cantor Michael Jackson teria molestado sexualmente um menino. Os Estados Unidos podem ser a nação com a melhor indústria de entretenimento na Terra, mas o preço pago é muito alto.

in SAGAN, C. O Mundo Assombrado pelos Demônios. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.363.

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