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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A Cidade no Mar — Edgar Allan Poe (Poema)


A cidade no mar
Edgar Allan Poe



Olhai! a Morte edificou seu trono
numa estranha cidade solitária
por entre as sombras do longínquo oeste.
Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores,
foram todos buscar repouso eterno.
Seus monumentos, catedrais e torres (torres
que o tempo rói e não vacilam!)
em nada se parecem com os humanos.
E em volta, pelos ventos olvidadas,
olhando o firmamento, silenciosas
e calmas, dormem águas melancólicas.

Ah! luz nenhuma cai do céu sagrado
sobre a cidade, em sua imensa noite.
Mas um clarão que vem do oceano lívido
invade os torreões, silentemente,
e sobe, iluminando capitéis,
pórticos régios, cúpulas e cimos,
templos e babilônicas muralhas;
sobe aos arcos escuros e esquecidos
onde o granito se fecunda em flores;
sobe aos templos magníficos, sem conta,
onde os frios se enroscam e entretecem
de vinhedos, violetas, sempre-vivas.
Olhando o firmamento, silenciosas,
calmas, dormem as águias melancólicas.
Torreões e sombras tanto se confundem
que é tudo como solto nos espaços.
E a Morte, do alto de soberba torre,
contempla, gigantesca, o panorama.
Lá, os sepulcros e os templos se escancaram
mesmo ao nível das águas luminosas;
mas não pode a riqueza portentosa
dos ídolos com olhos de diamante,
nem das joias que riem sobre os mortos,
tirar as vagas de seu leito imóvel;
pois, ai! nem leve movimento ondula
esse imenso deserto cristalino!
Nem ondas falam de possíveis ventos
sobre mares distantes, mais felizes;
ondas não contam que existiram ventos
em mar de menos espantosa calma.



Mas, vede! Um frêmito percorre os ares.
Uma onda... Fez-se ali um movimento!
E dir-se-ia que as torres vacilaram
e afundaram de leve na água turva,
abrindo com seus cumes, debilmente,
um vazio nos céus enevoados.
As ondas têm, agora, luz mais rubra,
as horas fluem, lânguidas e fracas.
E quando, entre gemidos sobre-humanos,
a cidade submersa for fixar-se no fundo,
o Inferno, erguido de mil tronos,
curvar-se-á, reverente.

Pen and ink Dulac's illustration for ‘The City in the Sea’ from Edgar Allan Poe’s “The Bells and Other Poems” (1912).

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O Tocador de Atabaque — Eduardo Alves da Costa (poema)

O TOCADOR DE ATABAQUE de Eduardo Alves da Costa  


Querem o meu verso  
de nariz para o ar,  
equilibrando a esfera,  
enquanto alguém bate com a varinha  
para me por no compasso. 
Pedem-me que não seja violento  
e me mantenha equilibrado  
entre a forma e o fundo, 
porque a platéia não deve sofrer  
emoções fortes.  

Mas eu, nascido num tempo de sussurros,  
tenho a voz contundente  
e por mais que me esforce  
não sirvo para cantar no coro.  

Sei apenas tocar meu atabaque. 

Assim, que me perdoem  
os amantes dos saraus 
e os arquitetos de labirintos,  
que as senhoras se protejam com o xale  
e os corações delicados  
se encostem à parede  
para fugir às correntes de ar.  

Bato no atabaque
até estourar os tímpanos fracos  
e chamo num grito de gozo  
as almas bravias 
para dançarmos juntos  
mordidos pela mentira do mundo  
com os nervos envenenados  
e a jugular aos pinotes.
  
     Escutem, eu vou lhes contar a história  
     do leão que tinha um espinho na pata…  

Bato no atabaque e me consumo  
como se o sangue fugisse  
por um rio subterrâneo.  

     Vamos, o senhor não pode enganar todos  
     Durante todo o tempo.  

Bato no atabaque  
quem quiser cantar  
que me dê um tom.  

     Por que ao sair do trabalho 
     a gente não volta para casa  
     de montanha-russa?

Bato no atabaque…  

     Matou o patrão com cinco tiros  
     porque foi despedido
     sem aviso prévio.

Bato no atabaque… 

     Izabel, acho que meu pai,  
     quando souber,  
     vai me bater.  

Bato no atabaque… 

     Moço, compra uma flor
     pra namorada? 

Bato no atabaque…  

     Você acha que eles bombardeiam a China? 

Bato no atabaque
e o furacão me arranca pela raiz 
e eu sou um baobá atravessando os céus da Flórida 
para cair em Nova York,  
sacudindo a Bolsa de Valores 
como um enfarte.  

     Não sei… pra mim
     quem matou Kennedy
     foi a reação. 

Bato, bato, bato no atabaque  
Até consumir o terceiro estágio
de minha alma de astronauta
e ficar girando,
fora de órbita,
para sempre. 

Eduardo Alves da Costa. No caminho, com Maiakóvski. 1985.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Luiz Bras - Estou vendo o futuro. Consegue ver também?


Estou vendo o futuro. Consegue ver também?

Vejo, com os olhos de Aldous Huxley, uma sociedade em que os valores morais e religiosos são bem diferentes dos nossos. Nesse mundo organizado em castas, o conceito de família não existe. Engravidar é algo obsceno e impensável. Ter uma crença religiosa é um ato de ignorância e desrespeito aos outros. Vejo cidadãos condicionados biológica e psicologicamente a viver em harmonia, respeitando todas as leis sociais.

Vejo, com os olhos de George Orwell, uma sociedade em que o Estado é onipotente, onisciente e onipresente. Vejo uma força opressora capaz de alterar a História e o idioma, controlar a mente das pessoas e travar uma guerra sem fim, com o objetivo de manter sua estrutura inalterada. Vejo nas residências, nas repartições públicas e nos restaurantes uma tela através da qual o Estado vigia cada cidadão.


Vejo, com os olhos de William Gibson, uma sociedade altamente tecnológica e multifacetada, em que o mundo real e o virtual se misturam. Vejo as grandes corporações dominando continentes inteiros e se devorando mutuamente. Vejo anti-heróis com próteses neurológicas, mergulhando, amando e morrendo no caos fosforescente do ciberespaço. Tudo é dinamismo e sinestesia, tudo é troca de informação e impulsos elétricos.


Vejo, com os olhos de Orson Scott Card, uma sociedade em que as crianças intelectualmente mais bem dotadas são monitoradas dia e noite pelas autoridades. Vejo as melhores dentre elas vivendo anos longe de casa, numa estação orbital, sofrendo um brutal treinamento de combate. Sua inocência não existe mais. Melhor dizendo: quase não existe mais. Pois esses cadetes-mirins superdotados sempre encontram meios de protegê-la do darwinismo militar.


Sentado no ombro desses gigantes, dá até para ver alguma coisa com meus próprios olhos. Agora eu vejo. Nem distopias nem utopias, apenas sociedades possíveis. Falíveis, espantosas, sublimes e injustas como todas as sociedades humanas.


Você também vê? Veja com seus próprios olhos. Pense no futuro. Mas, se achar tudo isso muito perigoso, você pode fazer como o cientista mais pop da História, Einstein, que certa vez resmungou: "Nunca penso no futuro, ele chega rápido demais".


LUIZ BRAS
Final da crônica "Escolha um Futuro", do livro "Muitas Peles" 2011 - Terracota Editora, SP.

quinta-feira, 6 de março de 2014

David Sandner - NOS MISTUREM, NOS SACUDAM (poema)


NOS MISTUREM, NOS SACUDAM

Você e eu fomos feitos
(como artefatos de vidro ou cerâmica)
de duas células,
formados em tubos de ensaio com água
(acrescentar temperos e assar até dourar)
até nos tornarmos você e eu.

Quero que esses fabricantes nos tomem de novo,
e, querida; que eles
nos misturem e sacudam,
— que transplantem uma parte de mim
para o coração de você
(já está feito, já está feito) —
que nos fatiem, nos emendem,
nos rasguem, nos colem,
nos moldem de novo
em você e eu.

Para que em mim haja pedaços de você
e em você, pedaços de mim.
Assim, nada jamais poderá nos separar.

David Sandner
(Tradução de Ronaldo Sérgio de Biasi)

terça-feira, 9 de abril de 2013

Kurt Karl Doberer - O Planeta das Sete Cores (Poesia)


O Planeta das Sete Cores

Kurt Karl Doberer


Na tormenta de Júpiter
as cores do arco íris…
Gritos de ondas hertzianas
no turbilhão da vida.

Cores fascinantes da vida,
cores espantosas da morte
no caleidoscópio
das sínteses prebióticas:

vermelho pra os azobenzenos,
azuis para os azulenos,
amarelo para o enxofre,
o mais cristalino
dos precipícios de Júpiter.

Vida que não contém vida,
inteligência composta de eternas tempestades.
Bestas de metal de hidrogênio
num mar de amoníaco e metano,
pântano onde se revolve
a salamandra de Júpiter,
o planeta do arco íris.


In Ruf der Sterne "Chamado das Estrelas", 1968.