quinta-feira, 2 de abril de 2015

Descrições de catástrofe em 'A Ameaça do Fundo do Mar' de John Wyndham





Wyndham foi sem dúvida inspirado por Wells no seu segundo romance, A Ameaça do Fundo do Mar (Kraken Wakes no original e Vivos: 20% em Portugal), outra obra pós-apocalíptica em que a Terra é invadida por extraterrestres, tal como em A Guerra dos Mundos. Neste caso, trata-se de uma invasão à escala mundial que começa a partir do mar, com os invasores a usarem os oceanos, mudanças climáticas e subida do nível do mar como armas. Seguimos a história pelos relatos de um casal de jornalistas britânicos que seguem os acontecimentos desde o início e são testemunhas de como os governos a nível mundial são incapazes de lidar com os acontecimentos com os quais são confrontados.


(...)

Muita gente notou o verão frio e enevoado da Inglaterra naquele ano, porém era mais com um sentimento de resignação do que de surpresa.

Na verdade, a consciência mundial pouca importância deu ao aumento do nevoeiro em diversas partes do mundo até os russos mencionarem o fenômeno. Uma nota de Moscou informava a existência de uma área de denso nevoeiro, tendo o seu centro no meridiano de 130’ leste de Greenwich, em torno do paralelo 85.

Os cientistas soviéticos, depois de amplas pesquisas, declaravam que jamais aquele fenômeno ocorrera antes. Não era possível também compreender como as condições climáticas reinantes naquela área podiam gerar o fenômeno e muito menos fazer com que se mantivesse praticamente inalterado durante três meses, desde que fora observado pela primeira vez. O Governo soviético, acrescentava a nota, por diversas vezes ressaltara que as atividades dos mercenários capitalistas provocadores de guerras no Ártico podiam constituir uma ameaça à paz mundial.

Os direitos territoriais da União Soviética sobre a região ártica, que se estendiam entre os meridianos 32° leste e 168° oeste de Greenwich, eram reconhecidos pelas leis internacionais. Qualquer incursão não autorizada nesta área constituiria uma agressão. O Governo soviético, portanto, considerava-se livre para tomar as medidas necessárias para preservar a paz, naquela região.

A nota, entregue simultaneamente em vários países, recebeu uma resposta rápida e direta de Washington.

Os povos do Ocidente, observou o Departamento de Estado, mostraram-se bastante interessados na nota soviética. No entanto, como já possuíam muita experiência na técnica de propaganda conhecida como “tu quoque pré-natal”, podiam reconhecer as implicações nela contidas. O Governo dos Estados Unidos tinha plena consciência das divisões territoriais do Ártico. E gostaria até de lembrar ao Governo soviético, no interesse da precisão, que o segmento mencionado na nota de Moscou era apenas aproximado, sendo o verdadeiro um pouco menor, compreendido exatamente entre os meridianos 32° 04’ 35” leste e 168° 49’ 30” oeste de Greenwich. Mas, como o fenômeno mencionado fora verificado num local dentro desta área, o Governo dos Estados Unidos dele só tomara conhecimento através da nota oficial.

Recentes observações, contudo, haviam registrado a existência de um fenômeno semelhante ao descrito pela nota russa também no paralelo 85, mas só que no meridiano 79° oeste de Greenwich. Por coincidência, este era precisamente o alvo que os governos norte-americano e canadense haviam conjuntamente escolhido para testar seus mais novos mísseis teleguiados de longo alcance. Os preparativos para esses testes já haviam terminado e os primeiros lançamentos seriam efetuados dentro de poucos dias.

Os russos comentaram a singularidade de se escolher um alvo numa região onde não se podiam fazer observações acuradas; os americanos comentaram o zelo russo pela pacificação de regiões desabitadas. Os jornais não noticiaram se as duas potências adversárias passaram então a atacar os seus respectivos nevoeiros, mas o fato é que a troca de notas teve o efeito de fazer com que todos percebessem subitamente a existência inesperada de densos nevoeiros em uma porção de lugares.

Se os navios meteorológicos ainda estivessem em funcionamento no Atlântico, é provável que muito antes já se teriam as informações a respeito. Mas eles haviam sido retirados “temporariamente” do serviço, em seguida ao afundamento de diversos pouco tempo antes. Consequentemente, a primeira informação séria e meticulosa, destinada a começar a pôr os fatos em ordem e acabar com a especulação desenfreada, veio de Godthaab, na Groenlândia. Falava num fluxo crescente de água no Estreito de Davis, na Baía de Baffin, com uma proporção inesperada de gelo para aquela época do ano. Poucos dias depois foi a vez de Nome, no Alasca, informando que se observava uma situação semelhante no Estreito de Bering. Depois veio Siptzbergen, falando também no aumento do fluxo de água e na queda da temperatura.

Isso explicava os nevoeiros em Newfoundland e outras regiões centrais. Por toda parte os nevoeiros súbitos podiam ser atribuídos a correntes submarinas geladas que eram forçadas para o alto, ao encontro de águas mais quentes, por cordilheiras submarinas. Todas as coisas, é claro, podiam ser explicadas de maneira convincente, restando apenas o fato do inexplicável aumento das correntes frias.



E então, de Godhavn, ao norte de Godthaab, na costa ocidental da Groenlândia, veio uma mensagem informando a existência de uma quantidade sem precedentes de icebergs, de proporções descomunais. Imediatamente vários aviões decolaram das bases árticas americanas e foram investigar, confirmando o fenômeno. O mar ao norte da Baía de Baffin estava coalhado de icebergs.

— Por volta da latitude 77,60° oeste de Greenwich — relatou um dos pilotos — deparamos com uma das cenas mais aterradoras do mundo. As geleiras que formam a alta superfície do norte da Groenlândia se estão desfazendo. Já vi icebergs formando-se antes, mas nunca em tais proporções e naquela região. Nos grandes penhascos de gelo, com centenas de metros de altura, aparecem fendas subitamente. Um pedaço enorme então se separa e lentamente vai caindo. Ao bater no mar, levanta uma cortina de água que se espalha por dezenas de metros ao redor. A água deslocada provoca imensas ondas que vão entrechocar-se, num turbilhão de espumas, com a maior violência. O iceberg que se forma, do tamanho de uma pequena ilha, oscila e deriva um pouco, até finalmente encontrar seu equilíbrio. Por quase duzentos quilômetros de costa vimos a mesma coisa acontecendo, geleiras desprendendo-se e caindo ao mar. Muitas vezes o iceberg nem tem tempo de afastar-se da costa quando outro lhe cai em cima. A escala do fenômeno é tão gigantesca que se torna difícil aceitá-lo. Somente pela aparente lentidão da queda das geleiras e pelo fato de o jato de água parecer ficar pairando no ar, pela imponência e grandiosidade de tudo, é que podemos assegurar as imensas proporções do que presenciamos.

Outras expedições aéreas descreveram cenas semelhantes na costa leste da Ilha de Devon e na extremidade meridional da Ilha Ellesmere. Na Baía de Baffin, os grandes icebergs se acotovelavam, esbarrando um no outro, ao flutuarem como um rebanho de ovelhas em direção ao sul, saindo pelo Estreito de Davis e entrando no Atlântico.

Do outro lado do continente americano, em Nome, no Alasca, o fluxo de icebergs observado a caminho do sul registrou também um aumento considerável.

O público recebeu a informação sem maiores preocupações.

As pessoas se impressionaram com as primeiras fotografias dos gigantescos icebergs no processo de criação. Mas, como todo iceberg é igual ao outro, o interesse logo decresceu. Além disso, o público achava que era muito bonito os cientistas saberem tudo a respeito dos icebergs, mas não entendiam os motivos se não podiam tomar nenhuma providência a respeito, se não conseguiam tirar proveito dos seus conhecimentos .

A um verão sombrio seguiu-se um outono mais sombrio ainda. Parecia que ninguém podia fazer nada, a não ser aceitá-lo com uma resignação e resmungos filosóficos.

No outro lado do mundo chegou a primavera. Depois veio o verão e começou a estação da pesca de baleias — se é que assim se podia chamá-la, pois poucos eram os proprietários que queriam arriscar seus navios e quase inexistentes as tripulações que se dispunham a arriscar a vida. Mesmo assim, sempre havia aventureiros com coragem de desafiar as criaturas do fundo do mar e os outros perigos do oceano. E, quando o verão antártico foi chegando ao fim, o mundo foi surpreendido por notícias, enviadas através da Nova Zelândia, de que as geleiras de Victoria Land estavam despejando quantidades incríveis de icebergs no Mar de Ross, sugerindo-se inclusive que a Grande Barreira Gelada de Ross estava começando a se desfazer. Uma semana depois chegaram notícias de fenômeno semelhante no Mar de Weddell. A Barreira de Filchner que ali existia, juntamente com a Geleira de Larsen, estavam gerando icebergs em quantidades fantásticas. Uma série de vôos de reconhecimento trouxe relatórios quase iguais aos que haviam sido feitos sobre a Baía de Baffin, com fotos que poderiam ser cópias das primeiras.

(...)

Na próxima arremetida da maré alta a consciência do perigo aumentou ainda mais. Todas as defesas contra a invasão do mar haviam sido fortalecidas. Em Londres, haviam reforçado as amuradas junto às margens do rio e haviam-nas coberto de sacos de areia em toda a sua extensão. Como precaução, o tráfego fora desviado, mas o povo continuava a andar pelas margens e a cruzar as pontes. A polícia fazia o que era possível para que se mantivesse sempre em movimento, mas muitas pessoas se detinham aqui e ali, observando a lenta subida da água e acenando para as tripulações dos rebocadores e barcaças que navegavam agora no mesmo nível que a rua. Pareciam estar igualmente preparados para se indignarem se a água rompesse a defesa ou ficarem desapontados se ocorresse um anticlímax.

Não ficaram desapontados. A água alcançou o parapeito e depois os sacos de areia. Aqui e ali começou a pingar na calçada.

Bombeiros, pessoal da defesa civil, guardas, todos se concentravam ansiosos em seus setores, buscando sacos de areia para reforçar um ponto qualquer em que a goteira aumentava, escorando os pontos mais fracos com toras de madeira. Mas as coisas foram piorando. Os espectadores começaram a ajudar, correndo de um lado para o outro quando novos esguichos surgiam. E logo não se podia ter a menor dúvida do que ia acontecer. Uma parte da multidão retirou-se, mas muitos espectadores ali permaneceram, numa fascinação hesitante. Quando o rompimento finalmente ocorreu, foi simultaneamente em doze pontos da margem norte. Por entre os jatos, um ou dois sacos de areia começavam a oscilar e então, subitamente, eram arrancados do lugar, seguidos por outros, criando-se assim um buraco de vários metros por onde a água jorrava como numa represa rompida.

De onde estávamos, no alto de um caminhão de transmissões da E.B.C, estacionado na Ponte Vauxhall, pudemos ver três rios lamacentos escorrendo pelas ruas de Westminster, inundando os po-rões em sua passagem, até se fundirem num único rio. Nosso locutor passou a palavra a outro, empoleirado num telhado em Pimlico.

Por um ou dois minutos ficamos ouvindo a B.B.C., para sabermos como se estavam saindo os seus repórteres na Ponte de Westminster. Ouvimos Bob Humbleby descrevendo como a água rompera as defesas junto ao rio e agora se encaminhava celeremente para a segunda linha de defesa, erguida diante da New Scotland Yard. O pessoal da televisão não se estava saindo muito bem. Não haviam adivinhado certo onde ocorreria o primeiro rompimento e agora, com câmaras portáteis e lentes de longo alcance, procuravam recuperar o tempo perdido.

Daquele momento em diante a inundação foi cada vez mais rápida. No sul as águas corriam livremente pelas ruas de Lambeth, Southwark e Bermondsey. Rio acima haviam invadido Chiswick, rio abaixo Limehouse está sofrendo seus efeitos. Cada vez eram em maior número as rupturas, até que já não sabíamos mais contá-las. Havia pouca coisa a fazer, a não ser aguardar que a maré baixasse, reparar os estragos e se preparar para a nova investida.

A Câmara dos Deputados teve uma sessão tumultuada. As respostas apresentadas pelo Governo eram confiantes mas não transmitiam confiança.

Todos os Ministérios e Departamentos estavam ativamente tomando as medidas necessárias, todos os pedidos deviam ser encaminhados através dos Conselhos Municipais, as prioridades no que dizia respeito a mão-de-obra e máquinas já estavam sendo determinadas. Era certo que o Governo fora advertido com antecedência, mas fatores imprevistos haviam prejudicado os cálculos originais dos hidrógrafos. Todas as escavadeiras e tratores poderiam ser requisitados pelo Governo a qualquer momento. O público podia ter certeza de que á calamidade não se repetiria, pois as providências já em andamento evitariam que a catástrofe se ampliasse. No momento, nos condados da costa leste, pouco se poderia fazer além de resgatar seus habitantes. É claro que isso continuaria a ser feito, mas o Governo encarava como tarefa prioritária assegurar que a água não mais poderia invadir o solo da Inglaterra.

A requisição de materiais, máquinas e mão-de-obra era uma coisa, a sua distribuição era outra bem diferente, pois todas as comunidades à beira-mar reclamavam simultaneamente ajuda imediata. Funcionários públicos ficaram pálidos e insones, nervosos, enredados numa teia de pedidos, divisões, ajustamentos, destinação, redestinação, subornos e roubos puros e simples. Mas, de alguma forma, em alguns lugares, as coisas começaram a ser feitas.

E os habitantes das localidades que não haviam sido escolhidos na primeira fornada dos auxiliados mostraram-se ressentidos, amargurados, achando que haviam sido abandonados aos lobos.

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Estávamos sofrendo tanto os efeitos do aumento do nível do mar que as consequências nos Estados Unidos praticamente não encontravam espaço em nossos jornais, já minguados por um racionamento de papel. Mas as emissoras de rádio informavam que eles também estavam enfrentando sérias dificuldades. O clima da Califórnia já não era mais o Problema Número Um. Além das dificuldades que estavam enfrentando todos os portos e cidades costeiras do mundo, toda a região ao sul dos Estados Unidos, em torno do Golfo do México, de Key West à fronteira mexicana, estava sendo paulatinamente inundada. Na Flórida, os donos de terras ficaram preocupados quando os pântanos começaram a ganhar terreno, avançando por toda parte. No Texas, uma grande extensão de terra ao norte de Brownsville estava gradativamente desaparecendo sob as águas. A situação era ainda pior na Louisiana e em todo o delta do Mississipi. Uma emissora de rádio julgou apropriado reviver a velha súplica: “Rio, Fique Longe da Minha Porta”. Mas o rio não atendeu e o mesmo fizeram outros rios ao longo da costa do Atlântico, na Geórgia e nas Carolinas.

Mas acho que é ocioso entrar em detalhes. Em todas as partes do mundo a situação era a mesma. Quanto mais subia o nível do mar, mais as defesas se estendiam, para evitar serem flanqueadas. A única diferença era que nos países desenvolvidos todas as escavadeiras disponíveis trabalhavam noite e dia, enquanto nos países mais atrasados eram milhares de homens e mulheres suarentos que se esforçavam para erguer os diques e muralhas de proteção.

Mas a tarefa estava além da capacidade dos dois, das máquinas e dos homens. Quando os rios eram empurrados para trás pela maré crescente, tinham que se despejar pelas suas margens. E era também cada vez mais difícil impedir a inundação pela retaguarda, pela água empurrada através dos canos de esgoto. Mesmo antes da primeira inundação séria que se seguiu ao rompimento da defesa no Tâmisa em outubro, o homem das ruas já suspeitara que a batalha não podia ser ganha, havendo o conseqüente êxodo dos que tinham inteligência e meios suficientes para fugirem. Mas os refugiados das cidades mais vulneráveis da costa leste já se haviam antecipado ao movimento e a confusão nas estradas era indescritível.

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O primeiro dia se passou em segurança. À noite, próximo da maré alta, uma boa parte de Londres se acomodou para que chegasse a meia-noite e a crise passasse, com muito mau humor. Os ônibus pararam de trafegar e os trens do metrô silenciaram às oito horas. Muitas pessoas saíram de casa a pé e foram ver o rio do alto das pontes. E assistiram ao espetáculo que esperavam.

As águas lamacentas do rio lambiam preguiçosamente a parte inferior das pontes e as paredes das muralhas de contenção. O rio corria para cima, afastando-se do mar, em silêncio absoluto, assim como a multidão que o observava apreensiva. Ninguém receava que passasse por cima das muralhas, pois a elevação prevista era de sete metros, deixando assim uma margem de segurança superior a um metro, até o alto do novo parapeito. O que preocupava a todos era a pressão.

Da extremidade norte da Ponte de Waterloo onde estávamos situados daquela vez, éramos capazes de ver o alto de um dos lados da muralha, as águas correndo por ali. Do outro lado víamos a rua que corria ao longo do rio, os lampiões ainda acesos, mas nenhum carro ou pessoa movendo-se por ali. Mais ao longe, a oeste, os ponteiros do relógio da torre do Parlamento se arrastavam pelo mostrador iluminado. As águas continuavam a subir, os ponteiros se arrastando com exasperante lentidão para assinalarem onze horas da noite. E sobre a multidão que contemplava o rio em silêncio as badaladas do Big Ben soaram como um mau augúrio.

O som levou a multidão a murmurar, mas logo depois ela recaiu no silêncio. O ponteiro dos minutos continuou a se arrastar, até marcar trinta minutos para meia-noite. E foi então que se ouviu um rumor estranho rio acima, trazendo junto com ele as vozes da multidão. O povo aglomerado junto à Ponte de Waterloo esticou o pescoço para ver o que acontecia, murmurando outra vez, preocupado. Um segundo depois vimos as águas chegando. Vinha-se derramando pela margem em nossa direção uma corrente larga, lamacenta, arrastando os detritos e os arbustos em sua passagem, aumentando a velocidade à medida que se aproximava. Alguém gritou no meio da multidão. Houve um estrondo e todo um trecho da muralha perto de nós desabou. A água se despejou pelo buraco, arrancando os blocos de concreto, transformando-se numa cascata lamacenta a cair sobre a rua.

Antes da maré alta seguinte, o Governo entregou os pontos.

Decretou o estado de emergência e baixou uma proclamação para uma evacuação ordenada da cidade. Não pretendo descrever aqui as protelações e confusões que fizeram fracassar o esquema de evacuação. É difícil acreditar que alguém pensasse que seria possível executá-lo plenamente, mesmo aqueles que o haviam imaginado. Desde o início que parecia meio fantasioso. A tarefa, evidentemente, era impossível. Talvez se conseguisse, caso se tratasse da população de uma única cidade, porém mais de dois terços da população do país estavam procurando terras mais altas, desesperadamente. Assim, somente os métodos mais rígidos podiam dar algum resultado para ordenar a evacuação — e mesmo assim só por pouco tempo.

Mas, se as coisas foram ruins na Inglaterra, em outras partes do mundo foram ainda piores. Os holandeses se haviam retirado a tempo das áreas perigosas, compreendendo que haviam perdido a sua batalha secular contra o mar. O Reno e o Maas haviam recuado e inundado uma área de milhares de quilômetros quadrados. A população inteira da região estava emigrando para o sul, na Bélgica, ou para sudeste, na Alemanha. Na planície do norte da Alemanha a situação não era muito diferente. O Ems e o Weser haviam transbordado, expulsando as pessoas de suas cidades e fazendas em direção ao sul, em hordas cada vez maiores. Na Dinamarca, todos os barcos disponíveis estavam em atividade, transportando a população para as terras mais altas da Suécia.



Durante algum tempo ainda pudemos acompanhar, em linhas gerais, o que estava acontecendo no Continente. Entretanto, quando os habitantes das Ardennes e de Westfália viraram-se para enfrentar, a fim de se salvarem, os invasores famintos e desesperados que vinham do norte, travando lutas cruentas, as informações se perderam em rumores e no caos. Em todas as partes do mundo devia estar acontecendo a mesma coisa, diferindo apenas nas proporções. Na Inglaterra, a inundação dos condados orientais já fizera com que seus habitantes recuassem para o interior do país.

As perdas de vida foram bem poucas, pois se fizeram muitas advertências a respeito. O problema começou nas colinas de Chiltern, quando aqueles que já ali se haviam abrigado organizaram-se para impedir a invasão dos refugiados que convergiam de Londres e do leste. Nas partes não afetadas da região central de Londres, durante alguns dias reinou uma indecisão típica de domingo. Muitas pessoas, sem saberem o que fazer, procuraram prosseguir em suas rotinas anteriores à catástrofe. A polícia continuava a patrulhar as ruas. Embora as partes mais baixas da cidade estivessem inundadas, as pessoas continuavam a ir trabalhar e algumas coisas continuavam a funcionar, aparentemente por hábito ou por inércia. Mas, gradativamente, a ilegalidade começou a chegar dos subúrbios e a sensação de desmoronamento tornou-se iniludível. O sistema elétrico de emergência falhou uma tarde, seguindo-se uma noite de escuridão que foi o golpe de misericórdia na lei e na ordem.

O saque às lojas, especialmente as de alimentos, começou e atingiu tais proporções que a polícia e os soldados nada conseguiam fazer para impedi-lo.









John Wyndham foi um dos autores de FC mais importantes na década de 50, redefinindo o gênero pós-apocalíptico e mesclando Terror com FC. Trouxe uma maior contenção e subtileza ao genero que até aí era difícil de encontrar em escritores acantonados no nicho Sci-Fi. Por isso, Wyndham é um dos escritores de culto da FC.

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