quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Rubens Teixeira Scavone - Especialmente, quando sopra outubro (conto)


Os próprios pais não sabiam quando os sintomas iniciais apareceram. E o nome sempre fora, desde o começo, "perturbação". Nem o primeiro médico, amigo da família, pela mão de quem Ângela viera ao mundo, nem os especialistas posteriormente chamados, jamais falaram em moléstia ou qualquer outro termo científico. Apenas e tão somente "perturbação", como se o eufemismo pudesse confortar os pais e proteger a menina da contundência de uma designação mais explícita.

Cinco ou seis anos após o nascimento de Ângela, o velho médico revolveu as fichas do seu arquivo, teve de contentar-se, nada achando de especial, apenas com as recordações. Como as lembranças eram comuns, não havia outra saída senão aceitar a completa naturalidade do parto de que nascera um bebê rosado e chorão como os outros, recebendo palmadas nas costas e irrompendo para a vida num alarido festivo que reboara pelos corredores como nota álacre ansiosamente esperada.

Mas, ordenando-se os fatos e as recentes etapas da existência de Ângela, certo acontecimento havia que poderia ser fixado como o início das "atribulações". Só os especialistas anotaram essa ocorrência, tênue fio capaz de deslindar a meada. Fora num mês de outubro, no dia em que a menina completara cinco anos. E o que se anotara nas fichas? A festa, os amigos, os parentes, a casa de campo cheia de visitas, o bolo, as luzes, as cores, o vestido rendado da aniversariante e, por fim, a sua inesperada crise de choro, fechada no quarto, estirada na cama. 

Convulsão violenta, reação histérica, recusa em descer, atitude anormal e injustificada que provocara a assistência médica e a primeira poção de sedativo que transportara Ângela ao profundo sono. A mãe, ainda viva, impressionara-se com a transformação da filha, e contava, desfeita em pranto:

- Lembro-me muito bem. Foi em outubro, numa tarde fria e ventosa, no dia do aniversário dela. Não foi o seu choro que me impressionou, mas o seu olhar de ódio. Em lágrimas largada no leito, não queria que eu me aproximasse sequer. Tinha a expressão distante, longínqua, e quando fixava os olhos em nós era como se fôssemos desconhecidos.

Com o decorrer dos dias e dos meses, porém, o episódio do aniversário foi sendo esquecido e ninguém lhe deu mais importância.

Na verdade, talvez apenas se tratasse de um capricho de infante que defende seu universo da invasão de estranhos, uma crise de solipsismo num sombrio crepúsculo de outubro. Com certeza apenas isso, nada mais.

Já pelos seis ou sete anos as coisas foram se complicando. Introspectiva, como fechada numa redoma, Ângela convivia consigo mesma. Mal tolerava os familiares e os domésticos. Em relação aos outros parentes e estranhos manifestava incontrolável repulsa.

Quando morrera a mãe, ao tempo em que a menina completara oito anos, ela já organizara definitivamente o seu universo. Ilha remota no âmago do casarão cujos prolongamentos geográficos alcançavam a estrada e a alameda de cedros, não raro se espraiando pelas colinas das quais se divisava a cidade ao longe e a chaminé sempre coroada de fumo que assinalava a atividade da fábrica do pai.

Havia a governante. A velha alemã, de compostura solene e andar rígido, impassível na aparência mas dedicada, aquela que lhe sugerira os primeiros devaneios com histórias de elfos e de fadas, de gênios e duendes que habitavam o lago escuro, que se escondiam pelas ravinas e que pelas madrugadas quentes saiam aos bandos em busca de vaga-lumes. Cenários estimulantes, eram nada e tudo ao mesmo tempo. Solidões geladas onde lobos uivavam ou feudos tranquilos onde princesas sonhavam com seus eleitos; nuvens rosadas que sustentavam castelos ou desertos onde ondulavam miragens. Os domínios da menina eram imensos, magicamente povoados. O que menos importava eram as bonecas, os coelhos de pelúcia, os cachorros e gatos de feltro, ou o elefante enorme, cinzento, de cela encarnada, que respondia com um ronco todas as vezes que Ângela lhe puxava a argola implantada no dorso. Tais brinquedos não passavam de simulacros banais, réplicas fraudulentas de certa realidade desinteressante. Por isso ela os desprezava. Dispunha de algo superior que tornava inúteis as fábricas de brinquedos, a fortuna do pai ou mesmo as sugestões da governante. E esse algo era - a imaginação.

Não precisava fechar os olhos, mas apenas recorrer ao tenaz impulso da sua vontade: e lá surgia o seu mundo. Quando as coisas começavam a delinear-se, a concentração aumentava, tornava-se imperioso continuar. Os olhinhos da menina se contraíam, fixavam-se com angústia no ponto visado: a clareira banhada por uma réstia de luz, o espaço vazio no lago em meio aos nenúfares, o caminho da encosta ladeado pelos abetos. 


Então as aparições iam se configurando. Primeiro, os contornos do urso, apenas o perfil; uma linha indecisa que não chegava a interromper a paisagem. Concentrando-se mais, o monstro aos poucos ia ganhando forma. O dorso acentuava-se, nascia a possante cabeça, delineava-se a boca hiante, brotavam os dentes pontiagudos. Ângela sentia-se tomada por um calor intenso e estimulante que fazia brotarem miúdas pérolas de suor em sua testa delicada, nas palmas de suas mãos franzinas. 

Ria, ria alto, pois estava bem longe da governante e podia divertir-se à vontade, esforçando-se para completar a figura daquele amigo ameaçador. Da goela escancarada do urso extravasava a saliva, as patas se elevaram, as garras exibiam-se ferozes, as pupilas destilavam sangue. Num esforço supremo a menina fazia com que a fera soltasse um urro bárbaro que, acentuando ainda mais o peso do animal, produzia estalos na vegetação debaixo de suas patas. No momento em que o monstro se aprestava para o golpe, ela cortava o fluxo da imaginação. A fera se diluía no espaço, deixando o solo intacto e a paisagem perfeita.

Nem mesmo ela sabia como chegara aquilo. Talvez a princípio só imaginasse flores. Acompanhada ou solitária, sempre lhe aprazia colher pelos campos tudo o que de belo encontrasse. 

Um dia, violetas. Sonhara com violetas, saíra a procurá-las. 

Jamais poderia encontrá-las naquela estação. Parara então junto ao lago, rente ao tufo de hortênsias, e se fixara no canteiro. Eis que nasceram violetas. Colheu-as, armou-as num pequeno buquê, arrumou-as no vaso e mostrou-as a todos. Mas como, violetas nesta quadra do ano? O jardineiro surpreendeu-se. Em que alfombra as achara? Ajustando os óculos o ancião abaixou-se junto às hortênsias sem nada encontrar. Depois, as rosas amarelas, as peônias azuis, os ciclames dourados. Ângela em breve descobriu que podia aperfeiçoar os seus poderes. Era muito interessante esse novo brinquedo, mas sob a condição de que permanecesse absolutamente secreto. Até então ela criara coisas de que gostava e que conhecia, o que equivalia a dizer - coisas que existiam, pois é razoável admitir-se que só existe o que se conhece. Ursos, gatos, cães, violetas e ciclames, às vezes mesmo abusando do privilégio de que dispunha e se proporcionando o capricho de divertir-se ante um coelho encarnado ou um leão azul. Mas a partir de certa época descobriu que também podia criar coisas que jamais vira e que, portanto, não existiam.

Como experiência, o que produziria em primeiro lugar?
Saiu de casa às escondidas, procurou o recanto mais remoto do parque, onde nem mesmo o jardineiro costumava penetrar. Fixou todo o seu pensamento na rocha, começou a polarizar a própria vontade. Como sempre, os olhos se contraíram, o suor começou a escorrer, fortes vincos marcaram-lhe a face, tornou-se rubra. Os contornos imprecisos foram aos poucos eclipsando o rochedo. Concentrando-se ao máximo, Ângela se tornava agora lívida. Pronto. Ali estava o anão. 

Necessariamente grotesco, primeiro a giba, depois as mãos longas, aduncas, a cabeça enorme, todo vestido de prateado, com um barrete verde que lhe emprestava certa histrionidade medieval. Nisso, Ângela ouviu a voz do jardineiro chamando-a em altos brados. Apavorou-se, descontrolando-se. Sentiu o perigo que corria. O anão não era a violeta ou a rosa amarela. Era uma coisa que não existia, que atendera ao apelo de sua força interior. Tinha que proteger o filho de sua mente. Não desligou a imaginação aos poucos, mas abruptamente; e o resultado imprevisto foi impressionante: uma cabeça restou a gemer lastimavelmente, um pé se pôs a estertorar como um réptil, dois dedos gesticulavam no corpo morto como se pertencessem a um enforcado. O velho jardineiro pálido ao seu lado, depois a governante, teriam visto o anão? A cabeça solta no espaço, os pés lagarteando na lama, os dedos bailando no ar?

Não, ambos nada viram. O que viram, com estupor, foi o esgar que deformava a expressão da menina, o olhar repulsivo de quem teve um momento de gozo interrompido.

Depois, meses, estações, primaveras e invernos, outubros ventantes. O brinquedo e as experiências se aperfeiçoando sempre. Coisas estranhas nasciam agora da imaginação de Ângela adolescente. Criaturas débeis, delgadas, de olhos de um verde profundo; flores complicadíssimas cujos perfumes despertavam sensações inebriantes; anões e mais anões, sempre com as mesmas vestes prateadas e o mesmo ar atoleimado. E, às vezes, sêres que nem mesmo imaginara: olhos imensos, destituídos de cílios e de pálpebras, que apenas lhe estendiam os braços e lhe sorriam, e cujos umbigos se assemelhavam a incríveis corolas.

Mas se dos bichos obtinha urros e ganidos; se com as flores conseguia perfumes, com as criações antropomórficas nada mais conseguia além das imagens. Apenas a presença, os gestos vagos e harmônicos, as expressões acentuadas de prazer, de surpresa, a adesão irrestrita aos seus convites ou insinuações, a absurda concordância aos seus mais ligeiros pensamentos. E era então um diálogo de silêncios, uma cabra-cega de surdos-mudos, um esconde-esconde inusitado onde risos e vocativos cediam lugar ao crispar de músculos, ao distender de lábios, ao cerrar de olhos, adesão completa mas silenciosa ao seu comando.

Ora, conforme receava, um dia o brinquedo terminou. Por certo, espionagem do jardineiro, delação da governante; talvez um momento de descuido e fora pilhada pela fresta da porta, de uma janela entreaberta, uma falha da vegetação.

Ângela se lembrava. Primeiro um estranho, dias depois outro. Mais tarde, dois. Depois ainda outros e outros. E não só em sua casa, na cidade, na outra cidade, na cidade maior ainda. Dois, três, perguntas e respostas. "Como? Não sei, não entendi, o quê?" "Minha filha, responda, eles não vão fazer-lhe mal algum, querem apenas ajudá-la. Vamos, acalme-se, responda".
Muitos olhos, muitas mãos, janelas sobre parques sombrios, cheios de pessoas que caminhavam de cá para lá, como num jogo sem sentido. Sentadas, em pé, em cadeiras que rodavam, deitadas em camas que se moviam. O branco, tudo branco, o cheiro desagradável de paredes recém-pintadas.

Por algum tempo tudo ficou longe. Mas Ângela sabia que não estava só, que alguma coisa havia dentro dela que lhe era superior, impedindo-lhe os delírios da imaginação. E mesmo quando pensava em seus amigos eles agora não apareciam, conquanto lhes sentisse a presença. Magicamente, num processo oposto tudo se inverteu. Se antes imaginava e via, nada entretanto ouvia. Agora, fiscalizada no palácio álgido, dava-se o contrário: imaginava mas não via, escutava e sentia. 

Não precisava das palavras do pai, das insinuações lentas e hesitantes dos estranhos. Falava sem dificuldade alguma. E, respondendo, via o assombro que se imprimia nos rostos que a cercavam. Tais respostas seriam suas? Tudo se tornava mais fácil, libertando-a de qualquer sensação de pavor. Sabia. Sabia firmemente: seus amigos agora falavam por seus lábios. Porque não? E era divertido observar o espanto que aquilo despertava em quantos pretendiam dialogar com ela.

Foi por essa época que um fato derradeiro se juntou às suas experiências.

Certa madrugada, encontrava-se sozinha, semi-adormecida no leito. A janela escancarada deixava entrar uma claridade tímida e o vento morno de outubro ondulava as cortinas que projetavam no quarto sombras fantásticas.

Fora um apelo? Um convite sussurrante? A brisa cálida da aurora? Um toque imperceptível de mão sobre seu seio nascente? Um comando descido do futuro ou uma súplica subida do passado?

Ângela levantou-se. O personagem estava debruçado no peitoril da janela. Os olhos do visitante faiscaram, salpicando as paredes de gotas de luz espectral. A criatura supra-terrestre flutuava. Seus membros eram compridos e leves e não se lhe distinguia o rosto cujas feições eram vedadas por um elmo translúcido.

Ângela acompanhou-o, fascinada. Sobre o parque adormecido viu os círculos brilhantes e concêntricos. Discos ordenados entre si como se fosse gemas de uma joia rara. A neblina rosada, o rodopio estonteante, a ciranda endoidecida crestando as tolhas verdes, vencendo a brisa de outubro, gerando uma pequena aurora dentro da aurora maior.

A derradeira estrela recolheu o seu brilho, a última e a mais próxima, como pupila que se fecha, como lampadário que se exaure, como farol que ante a fuga da treva desliga seu facho, certa de que a mensagem fora captada; esperando tranquila, agora, que a exilada socorrida viesse ter segura ao porto de origem, cessado o pesadelo de seu desterro.

Tirado de Passagem para Júpiter e Outras Histórias, 1971

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