sábado, 20 de abril de 2013

Fausto Cunha - A Ficção Científica no Brasil (Artigo)


A FICÇÃO CIENTÍFICA NO BRASIL

Um planeta quase desabitado

Por Fausto Cunha

REVISTAS E EDITORAS

Em 1965, quando estive nos Estados Unidos, assinei contrato com Frederik Pohl para lançar no Brasil uma revista de ficção científica, aproveitando o material de Galaxy, de If e do Magazine of Fantasy and Science Fiction. Não encontrei editora interessada na joint venture. Mais tarde, a Cruzeiro partiria para a edição nacional do Magazine, adotando o título de Galáxia 2000. A revista durou poucos números, não sei se mais de três.

Quando a Globo assumiu o mesmo encargo, preferiu manter o título original, só eliminando o Fantasy. Saíram mais de 20 números do Magazine de Ficção Científica, com uma venda média de 6.000 exemplares, que a editora considerou insatisfatória, razão por que extinguiu a publicação. Em seu lugar, tem saído, sob a égide da Revista do Globo, uma Antologia de Ficção Científica, no mesmo formato, mesma composição em duas colunas, mas com maior número de páginas. Basicamente, é a revista com outra roupagem. E, como aquela, inclui autores nacionais.

Antologias tem havido várias, além das de GRD e da Edart. Em 1964, a Editora Mitos lançou Labirintos do Amanhã e anunciava outras, na sua Coleção Infinitos. Pena que não tivesse ido avante, pois Nelson Nicolai era um organizador inteligente e de bom gosto. No ano seguinte, pela Quatro Artes, saía Imaginação ILtda, igualmente bem escolhida. Mas a primeira, que eu saiba, foi Maravilhas da Ficção Científica, da Cultrix, em 1958, organizada por Wilma Pupo Nogueira, com prefácio de Mário da Silva Brito.

Entre as editoras, quatro ou cinco merecem uma referência especial. Em primeiro lugar GRD, que foi um editor empolgado e só lançava obras que considerava do melhor nível. Fora os brasileiros, deu-nos o C.S. Lewis de Além do Planeta Silencioso, o inesquecível Cidade de Clifford D. Simak, A Cidade e as Estrelas, de Clarke, O País de Outubro, de Ray Bradbury, O Que Sussurrava nas Trevas, de Lovecraft, Guerra de Estrelas, de Francis Carsac, Um Cântico para Leibo-witz, de Walter Miller Jr. e ainda O Manuscrito de Saragoça, de Jan Potocki.

A Bruguera, hoje Cedibra, possuía dois selos, Urânia e Ficção Científica, sob os quais saíram perto de 100 títulos, de valor desigual. Por qualquer motivo, e apesar da freqüência editorial, foram duas coleções que não pegaram. Hoje, a Cedibra lança apenas uma coleção popular, de miniformato, para bancas.

O problema com as editoras de grande porte é que elas adquirem direitos autorais em grosso, isto é, por bateladas de livros, de forma que a média é quase sempre de medíocre para baixo. As traduções, por sua vez, nem sempre ajudam. Evidentemente, ninguém vai comprar os direitos de um Clarke ou Bradbury misturados com os Bruss e os Limat de produção em série.

Esse erro de misturar o bom com o péssimo foi cometido pela editora O Cruzeiro, na sua coleção de ficção científica, onde figuram pelo menos dois excelentes livros: O Homem Demolido, a obra-prima de Alfred Bester, e Simulacron 3, a melhor criação de Galouye. O resto nem vale a pena mencionar, à exceção de Cama de Gato, de Kurt Vonnegut Jr., enterrado nessa vala comum.

Medíocre é toda a coleção Fleuve Noir, com duas ou três exceções. E foi justamente essa coleção a escolhida pelas Edições de Ouro para ser traduzida e lançada no Brasil. Lançada e relançada. Depois de uma primeira experiência editorial não muito bem sucedida, os antigos volumes reapareceram sob uma nova roupagem, de aspecto funéreo. São histórias pueris e obsoletas de marcianos, discos-voadores, espiões atômicos, que não imagino a que faixa de leitores podem ainda interessar. Mas deve haver.

Antes de comprada pelo José Olympio, a editora Sabiá criara a coleção Asteróide, que ia ser dirigida por mim (o nome da coleção nasceu numa conversa minha com Rubem Braga a bordo de um avião para Curitiba, em 1968) e depois ficou entregue às boas mãos de José Sanz, um connaisseur com relações internacionais e escrupuloso tradutor.  Apresentou ele títulos expressivos como Solaris, de Stanislas Lem (redescoberto pelo público quando do lançamento do belíssimo filme que inspirou), Carne, de Philip J. Farmer, O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, As Casas de Armas, de A. E. van Vogt e, já sob a José Olympio, Não Temerei o Mal, de Heinlein.

Sem o rótulo ostensivo de ficção científica, a Expressão e Cultura editou vários livros de Isaac Asimov, entre os quais Eu, Robô, já na 8.a edição, de Arthur C. Clarke, Chad Oliver, Robert Silverberg e Fritz Leiber. O nível, como se vê, é em geral o mais alto, as traduções bem cuidadas e a apresentação gráfica na mesma boa linha de suas outras edições.

Pela Rio Gráfica saiu, até há algum tempo, a coleção Galáxia, formato de bolso. Houve lançamentos esparsos da Bestseller, Nosso Tempo, Edameris. Pela nova Simões, fechada em 1970, ainda chegaram a sair Encontro no Espaço, de Murray Leinster-Ivan Efremov, e a segunda edição de As Noites Marcianas, que praticamente não foram para as livrarias. Seria a coleção Gagárin. A Brasiliense parece que ficou no primeiro título, o esplêndido Inalterado por Mãos Humanas, de Robert Sheckley (só não entendi por que o inalterado em vez de intocado ou virgem para o untouched do original).

A Cultrix lançou dois livros de Brian Aldiss e um de Robert Silverberg, todos bons mas para um público restrito. Pela Artenova têm saído com regularidade os vários volumes da obra, difícil de classificar, de Kurt Vonnegut Jr., até bem recentemente um dos gurus da juventude universitária norte-americana. Antes, pela GRD, fora dado à estampa entre nós As Sereias de Titã, que forma, com Matadouro n.° 5 e Cama de Gato, o núcleo literário mais importante de Vonnegut.

Tem havido lançamentos avulsos, quase sempre sem indicação de tratar-se de ficção científica (o que não chega a ser importante; afinal, já disse Ray Bradbury que a science fiction não é um dos afluentes do mainstream literário: é o próprio mainstream!) por editoras tão distintas quanto a Globo, José Olympio, Civilização Brasileira, Mundo Musical, Record, Americana (selo Pallas), Nova Fronteira. Nota-se, por parte das principais editoras, o simples interesse de capitalizar o sucesso momentâneo de filmes ou de nomes, como é o caso de Arthur C. Clarke depois de 2001, ou do prolífico Asimov.

É inegável que esses nomes constituem um forte chamariz para o leitor brasileiro, que ainda está preso à ficção científica dos anos 40 e 50. Eu próprio, quando organizei para a Cátedra a Antologia do Espaço (1976), preferi não correr riscos desnecessários: incluí Asimov, Clarke, Bradbury, Van Vogt. O segundo volume da série Tempo e Espaço é do velho mas sempre eficiente Murray Leinster, Planetas Perdidos.

Muito ativa se vem mostrando a Hemus, cuja escolha de títulos é bastante desigual. Na área existem ainda a Nova Época e uma editora nova, a Global, que inaugurou sua coleção com um livro difícil, O Outro Diário de Phileas Fogg, de Philip José Farmer.

Embora não seja propriamente brasileira, cabe uma palavra final à coleção Argonauta, da editora Livros do Brasil, de Lisboa. Essa coleção, que já ultrapassou de muito a casa dos 200 títulos, foi durante muito tempo a única fonte de abastecimento do leitor de língua portuguesa, publicando a maioria dos grandes autores americanos, ingleses e alguns franceses.

O problema crucial, tanto aqui como lá, são as traduções, nem sempre satisfatórias e muitas vezes ilegíveis. Não se pode, como razão, acusar sistematicamente as editoras de pagarem mal aos tradutores. Aliás, o problema é geral e atinge todas as áreas editoriais, inclusive as traduções para órgãos oficiais, onde se leem as maiores barbaridades. Grande parte dos termos "técnicos" adotados no Brasil é produto de erros de tradução.


Tirado de: L. David Allen, No Mundo da Ficção Científica, Summus Editorial, 1974.

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