terça-feira, 24 de maio de 2016

Arthur C. Clarke - Todo o Tempo do Mundo (Conto Longo)

TODO O TEMPO DO MUNDO
Arthur C. Clarke (c) 1952



Quando a tranquila batida ressoou na porta, Robert Ashton inspecionou a sala num movimento rápido e automático. Sua austera respeitabilidade deixou-o satisfeito e devia inspirar confiança a qualquer visitante. Não que tivesse alguma razão para esperar a polícia, mas não havia sentido em arriscar-se.
- Entre - disse ele, esperando para pegar os Diálogos de Platão numa prateleira ao lado. Talvez o gesto fosse um tanto aparatoso, mas sempre impressionava os clientes.
A porta abriu-se lentamente. A princípio, Ashton empenhou-se numa leitura atenta, não se preocupando em erguer os olhos. Sentiu o coração acelerar-se ligeiramente e um suave e até certo ponto estimulante aperto no peito. Naturalmente não era possível que fosse um tira, alguém lhe teria dado o aviso. Contudo, um visitante não anunciado era coisa incomum e, portanto, potencialmente perigoso.
Ashton pousou o livro, relanceou a porta com os olhos e disse com um tom de neutralidade na voz:
- Em que lhe posso ser útil?
Não se levantou. Tais cortesias pertenciam a um passado que há muito já tinha enterrado. Além disso, era uma mulher. E nos círculos que ele agora frequentava, as mulheres estavam acostumadas a receber jóias, roupas e dinheiro - mas nunca respeito.
Com aquela visitante, no entanto, havia alguma coisa que lentamente fez com que ele se erguesse na ponta dos pés. Não era apenas o fato de ser bonita. Ela possuía uma autoridade que se revelava naturalmente no porte e na atitude, que a situava num mundo diferente do mundo das amásias floridas encontradas no curso, normal dos negócios. Havia um cérebro e uma vontade atrás daqueles olhos calmos e indagadores. Um cérebro, Ashton suspeitou, igual ao seu.
Mas ele não poderia imaginar quão grosseira mente a estava subestimando.
- Sr. Ashton - ela começou -, não percamos tempo. Sei quem é o senhor e queria um trabalho seu. Aqui estão minhas credenciais.
Abriu uma sacola grande e elegante, de onde tirou um grosso maço de notas.
- Pode encarar isso - disse ela - como amostra.
Ashton apanhou a quantia que negligentemente lhe foi atirada. Era a maior soma de dinheiro que já pegara em sua vida: uma centena, pelo menos, de notas de cinco libras, todas novas e numeradas em série. Procurou-as sentir entre os dedos. Se não fossem verdadeiras, eram de tão boa qualidade que a diferença praticamente não tinha importância.
Deixou o polegar correr para cá e para lá ao longo da bolada, como se procurasse sentir as cartas de um baralho marcado, e disse pensativa mente:
- Gostaria de saber como as conseguiu. Se não são falsificadas, devem ser
roubadas, e vai ser difícil passar todas elas.
- São verdadeiras. Mas há muito pouco tempo estavam no Banco da Inglaterra. Se não têm utilidade para você pode queimá-las. Só quis mostrar que tenciono negociar.
- Vá em frente.
Fez um gesto para que ela se sentasse na única poltrona da sala e se empoleirou na beira da escrivaninha.
A visitante tirou um pacote de papéis da ampla sacola e entregou-os a ele.
- Estou pronta a pagar o que quiser se conseguir me arranjar o que está nessas listas. Você me passaria o material em hora e lugar a combinar. E tem mais. Vou lhe dar garantias de que poderá executar os roubos sem qualquer risco pessoal.
Ashton deu uma olhada na lista e suspirou. A mulher era louca. Melhor, contudo, manter o bom humor. Podia sair mais dinheiro de onde saíram a lista e a primeira bolada.
- Estou reparando - disse amavelmente - que todos esses itens estão no Museu Britânico, e que a maioria deles, rigorosamente falando, são inestimáveis. Quero dizer que não podem ser comprados nem vendidos.
- Eu não pretendo vendê-los. Sou uma colecionadora.
- Assim parece! Quanto está pronta a pagar por essas aquisições? - Faça um preço.
Houve um breve silêncio. Ashton ponderou as possibilidades. Adquirira um certo orgulho profissional com o seu trabalho, mas havia certas coisas que nenhuma soma de dinheiro tornava realizável. Ainda assim, seria divertido ver até que ponto o lance podia chegar.
Examinou novamente a lista.
- Penso que um milhão redondo seria uma cifra muito razoável por este lote - disse ironicamente.
- Acho que não está me levando muito a sério. Só com os seus contatos, você poderia ter arranjado muito facilmente esta quantia.
Houve um brilho súbito e alguma coisa faiscou no ar. Ashton pegou o colar antes que ele caísse no chão. Apesar de seu autocontrole, foi incapaz de evitar uma exclamação de espanto. Uma fortuna lhe cintilava entre os dedos. Um diamante central era o maior que já vira, e devia ser uma das jóias mais famosas do mundo.
A visitante pareceu completamente indiferente quando ele deslizou o colar para dentro do bolso. Ashton estava extremamente impressionado; percebia que o desinteresse da mulher não era uma dissimulação. Para ela, aquela fabulosa gema não tinha mais valor que um torrão de açúcar. Isso era loucura numa escala inconcebível.
- Admitindo que você possa soltar uma bolada - disse ele -, acha que é fisicamente possível fazer o que pede? Podíamos conseguir roubar um dos itens da lista, mas dentro de umas poucas horas o museu estaria em peso com a polícia atrás de nós.
Já com uma fortuna no bolso, podia dar-se ao luxo de ser franco. Além disso, tinha curiosidade em saber mais alguma coisa sobre a fantástica visitante.
Ela sorriu um pouco tristemente, como quem estivesse se adaptando a uma criança retardada.
- Se lhe mostrar como fazer - disse brandamente - aceitará o serviço?
- Sim! Por um milhão!
- Notou alguma coisa estranha desde que entrei aqui? Não está tudo muito... quieto?
Ashton prestou atenção. Meu Deus, ela tinha razão! Nunca havia silêncio completo na sala, nem à noite. E havia sempre um vento soprando na cumeeira... Para onde ele fora agora? 0 barulho distante do tráfego cessara. E há cinco minutos estivera amaldiçoando as locomotivas, que trocavam de linha no pátio de manobras do terminal da estrada de ferro. Que acontecera com elas?
- Vá até a janela.
Obedeceu à ordem e afastou as cortinas de renda encardida, os dedos tremendo ligeiramente a despeito de todo o esforço para controlá-los. Mas então relaxou A rua estava completamente, vazia, como frequentemente acontecia naquela hora da manhã. Não havia tráfego e isso explicava a ausência de ruído. Em seguida, no entanto, seu olhar caiu sobre o alvoroço das casas enfumaçadas, voltadas para o pátio de manobras.
A visitante sorriu quando ele se enrijeceu com o choque.
- Diga-me o que está vendo, Sr. Ashton.
Ele virou-se lentamente, a face pálida, engolindo em seco.
- Quem é você? - disse arquejando. - Uma bruxa?
- Não seja tolo! Há uma explicação muito simples. Não foi o mundo que se transformou; foi você.
Ashton arregalou outra vez os olhos para a inacreditável locomotiva no desvio, a coluna de fumaça congelada, imóvel, como se fosse de fios de algodão. Percebeu ainda que as nuvens estavam também imóveis; deviam estar deslizando pelo céu afora. Tudo em volta dele tinha a imobilidade antinatural da fotografia, a nítida irrealidade de uma cena entrevista num faiscar de luz.
- Você é suficientemente inteligente para descobrir o que está acontecendo, mesmo se não pode entender como a coisa foi feita. Sua escala de tempo foi alterada: um minuto do mundo exterior seria um ano nesta sala.
De novo ela abriu a sacola. Tirou desta vez o que parecia ser um bracelete de algum metal prateado, com uma série, de mostradores e interruptores incrustados nele.
- Pode chamá-lo um dínamo pessoal - disse. - Com isso no pulso, você é invencível. Pode ir e vir livremente; pode roubar tudo o que está naquela lista e me trazer todo o material antes que qualquer um dos guardas do museu tenha piscado um olho. Quando tiver terminado o serviço, pode se distanciar quilômetros antes de desativar o campo magnético e reentrar no mundo normal. Mas ouça cuidadosamente e faça exatamente o que eu disser. O campo pessoal tem um raio de dois metros, por isso você tem de manter pelo menos essa distância de qualquer outra pessoa. Em segundo lugar, você não deve desligar o bracelete até que a tarefa esteja completa e eu lhe tenha dado o pagamento. Isto é muito importante! E agora, o plano que arquitetei é o seguinte...
Nenhum criminoso na história do mundo jamais possuira tamanho poder. Era inebriante, ainda que Ashton perguntasse a si mesmo se algum dia se acostumaria à ideia de que tudo isso de fato aconteceu. Mas já deixara de se preocupar com explicações - pelo menos até o serviço estar concluído e ele ter recebido a recompensa. Depois, talvez, fugiria da Inglaterra para desfrutar de uma aposentadoria bem merecida.
A visitante saíra alguns minutos na sua frente, mas quando Ashton desceu à rua o cenário mantinha-se inteiramente inalterado. Embora estivesse preparado para isso, a sensação ainda era enervante. Sentiu um impulso para apressar-se, como se fosse impossível que tal situação perdurasse, como se tivesse que fazer o serviço antes que a coisa saísse dos eixos. O que, no entanto, conforme lhe fora assegurado, não podia acontecer.
Na High Street diminuiu o passo para apreciar o tráfego imóvel, os pedestres paralisados. Seguindo o aviso que recebera, tomou cuidado para não chegar demasiado perto de ninguém que estivesse dentro do seu campo. Como as pessoas parecem ridículas quando são vistas desse jeito, despojadas do garbo que o movimento consegue proporcionar, bocas meio abertas em caretas idiotas!
Ter de procurar auxílio era contra a sua índole, mas algumas partes do serviço eram muito trabalhosas para ele executar sozinho. De mais a mais, podia pagar, generosamente sem nunca despertar suspeitas. A maior dificuldade, Ashton percebeu, seria encontrar alguém suficientemente inteligente para não ficar alarmado - ou tão estúpido para aceitar qualquer coisa como axioma, sem discutir. Decidiu tentar a primeira das possibilidades.
O estabelecimento de Tony Marchetti situava-se ao fundo de uma rua lateral, e tão perto do posto policial que qualquer um acharia que ele estava levando o despistamento longe demais. Atravessando a porta de entrada, Ashton pôde ver de relance o sargento de serviço na delegacia sentado imóvel em sua escrivaninha. Resistiu à tentação de ir até lá para combinar um pouco de prazer com os negócios. Mas esse tipo de coisa podia esperar até mais tarde.
A porta do gabinete de Tony escancarou-se na sua frente quando ele se aproximou. Era uma ocorrência tão normal, num mundo onde nada era normal, que Ashton se pôs a imaginar o que aconteceria se o dínamo deixasse de funcionar. Deu uma rápida olhada na rua, mas tranquilizou-se com a imobilidade do quadro atrás de si.
- Mas não é possível! Bob Ashton por aqui! - disse uma voz familiar. - É incrível encontrá-lo assim tão cedo, de manhã! Você está usando um estranho bracelete. Pensei que só existisse o meu.
- Alô, Aram - respondeu Ashton. - Parece que está havendo muita coisa de que nenhum de nós está informado. Você já destinou algum trabalho a Tony ou ele ainda está livre?
- Sinto muito. Há um servicinho que o manterá ocupado por algum tempo.
- Não me diga! É na National ou na Tate Gallery? Aram Albenkian alisou o elegante cavanhaque.
- Quem lhe disse isso? - perguntou.
- Ninguém. Mas afinal você é o mais fraudulento marchand do mercado e estou começando a adivinhar o que está se passando. Será que uma morena alta, de excelente aparência, não lhe deu esse bracelete e uma lista cheia de itens?
- Não vejo por que eu devia lhe contar, mas em todo caso a resposta é não. Foi um homem.
Ashton sentiu-se momentaneamente surpreso. Depois deu de ombros.
- Eu devia ter imaginado que havia mais de um deles. Gostaria de saber quem está por trás disso.
- Tem alguma ideia? - indagou cautelosamente Albenkian.
Ashton julgou que valeria a pena ariscar-se a desperdiçar alguma informação para testar as reações do outro.
- É evidente que não estão interessados em dinheiro. Eles têm todo o dinheiro que querem e podem dispor de ainda mais com este aparelho. A mulher que se encontrou comigo disse que era uma colecionadora. Levei a coisa como piada, mas vejo agora que ela estava falando sério.
- Por que eles nos meteram na brincadeira? O que os impediria de fazer todo o trabalho sozinhos? - perguntou Albenkian.
- Talvez tivessem medo. Ou talvez quisessem nosso... ahn... conhecimento especializado. Alguns dos itens da minha lista são muito estranhos. Minha teoria é que são agentes de algum milionário maluco.
O argumento não tinha solidez e Ashton sabia disso. Mas queria ver as brechas que Albenkian tentaria tapar.
- Meu caro Ashton - disse impacientemente o outro, mostrando o pulso. - Como você explica essa coisinha? Não entendo nada de ciência, e mesmo assim sou capaz de enxergar que isso está muito além dos sonhos mais delirantes de nossa tecnologia. De tudo isso, só se pode tirar uma conclusão.
- Diga!
- Que esse pessoal é de... algum outro lugar. Nosso mundo está sendo metódica-te despojado dos seus tesouros. Você conhece toda aquela droga que se lê sobre foguetes e espaçonaves. Bem, já existe quem tenha tornado a coisa realidade.
Ashton não riu. A teoria não era mais fantástica do que os fatos.
- Quem quer que sejam - disse ele -, estão muito bem informados acerca de tudo o que pretendem. Queria saber com quantas equipes estão trabalhando. Aposto que agora mesmo alguém está visitando o Louvre e o Prado. O mundo vai ter um choque antes que o dia de hoje termine.
Despediram-se de modo bem amigável, nem um nem outro confidenciando qualquer detalhe de real importância sobre os respectivos negócios. Por um breve momento, Ashton pensou em aproveitar-se de Tony fazendo-lhe uma contraproposta, mas não havia sentido em hostilizar Albenkian. Buscaria a ajuda de Steve Regan, embora isso significasse ter de caminhar mais de um quilômetro, já que, evidentemente, não era possível utilizar qualquer meio de transporte. Morrería de velhice antes que um ônibus completasse o trajeto. E não estava certo do que aconteceria se tentasse guiar um carro enquanto o campo estivesse acionado. Além disso, fora avisado para não tentar experiência alguma.
Ashton ficou assombrado de que nem mesmo um mentecapto tão particularmente experiente quanto Steve conseguisse aceitar o dínamo com naturalidade. Teria, afinal de contas, de dizer alguma coisa, ainda que provavelmente os quadrinhos fossem a única leitura do outro. Assim, após algumas palavras de explicação grosseiramente simplificada, Steve afivelou um bracelete sobressalente que, para surpresa de Ashton, sua visitante entregara sem comentários. Em seguida, os dois iniciaram a longa caminhada para o museu.
Ashton, ou sua cliente, pensara em tudo. Ele e Steve fizeram uma pausa no banco de um parque para descansar, saborear alguns sanduíches, tomar fôlego. Quando por fim chegaram ao museu, nenhum dos dois se sentia muito esgotado pelo exercício inabitual.
Atravessaram juntos os portões do museu - incapazes, embora não fosse lógico, de falar de outro modo que não em sussurros - e subiram os amplos degraus de pedra do vestíbulo. Ashton conhecia perfeitamente o caminho. Num humor galhofeiro apresentou seu cartão da Sala de Leitura quando, mantendo uma respeitável distância, passou pelos recepcionistas transformados em estátuas. Pareceu-lhe que a maioria dos frequentadores da grande câmara comportavam-se normalmente, como sempre o faziam, mesmo sem o benefício do dínamo.
Coletar os livros indicados na lista era um trabalho simples e mecânico, mas tedioso. Pareciam ter sido escolhidos por sua beleza como obras de arte, tanto quanto pelo conteúdo literário. A seleção fora realizada por alguém que estava por dentro do assunto. Seria um trabalho deles mesmos, Ashton se perguntava, ou teriam subornado alguns especialistas, do mesmo modo como subornaram a ele? Perguntava ainda se conseguiría discernir todas as ramificações da trama.
Na lista havia um número considerável de velhas edições, mas Ashton tomava cuidado para não danificar nenhum livro, mesmo os que não faziam parte do pedido. Sempre que recolhia uma carga razoável de volumes, passava-os a Steve, que os conduzia para o saguão e os amontoava nas lajes do pavimento. Finalmente, uma pequena pirâmide estava formada.
Não importa que eles tenham saído por curtos períodos do campo do dínamo. Ninguém daria importância a uma momentânea vibração de existência no mundo normal.
Ficaram duas horas na biblioteca, fazendo depois uma pausa para outro lanche antes de continuar o serviço. De passagem, Ashton se deteve para uma tarefa um tanto pessoal.
Houve um tilintar de vidro quando a pequenina redoma, posta em solitário esplendor, entregou prodigamente seu tesouro. E assim, o manuscrito de Alice foi depositado em segurança no bolso de Ashton.
Entre as antiguidades, ele não se sentiu inteiramente à vontade. Havia alguns exemplares a serem retirados de cada galeria e, às vezes, era difícil entender as razões da escolha. Parecia - e de novo ele se lembrava das palavras de Albenkian - que essas obras de arte tinham sido selecionadas por alguém que possuía padrões total mente exóticos. Pelo menos desta vez, com umas poucas exceções, obvia mente dei não haviam sido orientados por especialistas.
Pela segunda vez na história, a redoma do Vaso de Portland foi destruída. Em cinco segundos, pensou Ashton, os alarmes estariam ressoando por todo o museu, todo o edifício estaria em alvoroço. Mas em cinco segundos ele poderia estar a quilômetros de distância. Era um pensamento embriagador, e enquanto trabalhava diligentemente para completar o serviço, começou a lamentar o preço que pedira. Mesmo agora, no entanto, ainda não era tarde demais.
Experimentou a serena satisfação do bom trabalhador ao contemplar Steve carregando a grande salva de prata do tesouro Mildenhall para o saguão. A peça foi colocada ao lado da já agora impressionante pilha de objetos.
- Aí está todo o material - disse ele. - Esta noite vou pô-lo em ordem. Agora você tem que se desfazer deste seu bracelete.
Saíram do museu e caminharam até uma rua lateral, escondida, sem pedestres por perto. Ashton desatou a estranha fivela do dínamo de Steve e afastou-se. Deu uma olhada para trás e viu o comparsa enrijecido, congelado naquela imobilidade que o atingira logo que o aparelho fora retirado do seu pulso. Steve estava outra vez vulnerável, movendo-se novamente com todos os outros homens no fluxo do tempo. Mas antes que os alarmes disparassem, ele se teria perdido nas multidões de Londres.
Quando Ashton retornou ao pátio do museu, o tesouro já tinha ido embora. No lugar da pilha de objetos se achava a mulher que o visitara há... há quanto tempo? Mantinha o porte altivo e a elegância, mas, pensou Ashton, parecia um pouco cansada. Aproximou-se para que seu campo pessoal se fundisse com o dela e os dois deixassem de estar separados por um intransponível golfo de silêncio.
- Espero que esteja satisfeita - disse ele. - Como removeu tudo tão depressa?
Ela tocou o bracelete que trazia em seu próprio pulso e deu um pálido sorriso.
- Temos muitos outros poderes além deste.
- Então por que precisaram da minha ajuda?
- Foram razões técnicas. Era necessário separar os objetos que queríamos de qualquer outro material dispensável. Devíamos reunir apenas o que precisávamos para não afetar... como devo chamá-las?... nossas limitadas facilidades de transporte. Agora pode devolver-me o bracelete?
Ashton entregou lentamente o que estivera no pulso de Steve, mas não se deu ao trabalho de desatar o seu. O que estava fazendo podia ser perigoso, mas tencionava escapar ao primeiro indício de uma reação.
- Estou pronto a reduzir meus honorários - disse ele. - Acho até que abriria mão de qualquer pagamento... em troca disso - concluiu apalpando o pulso, onde a complexa peça de metal cintilava à luz do Sol.
Ela olhou-o com uma expressão tão insondável quanto o sorriso da Gioconda... Será que isso, Ashton se perguntou, também tinha ido juntar-se às preciosidades que ele recolhera? Quanta coisa tinham retirado do Louvre?
- Eu não diria que está reduzindo os honorários - afirmou a mulher. - Todo o dinheiro do mundo não poderia comprar um único desses braceletes.
- Ora, as coisas que dei a vocês...
- O senhor é ganancioso, Sr. Ashton. Sabe que com um desses dínamos o mundo inteiro lhe pertencería.
- E que tem isso? Vocês têm algum outro interesse em nosso planeta? Já não tomaram o que queriam?
Houve uma pausa. Depois, inesperada mente, ela sorriu.
- Então achou que eu não pertenço ao seu mundo?
- Sim. E sei que vocês têm outros agentes além de mim. Vieram de Marte ou não vai querer me contar?
- Estou totalmente pronta a esclarecer. Mas é possível que a história não lhe agrade nem um pouco.
Ashton olhou-a desconfiado. O que ela quis dizer com isso? Num movimento automático, escondeu o pulso atrás das costas, protegendo o bracelete.
- Não. Eu não vim de Marte ou de qualquer planeta de que já tenha ouvido falar. Você não entendería o que eu sou. Só lhe direi o seguinte: eu vim do futuro.
- Do futuro? Isso é ridículo!
- É mesmo? Gostaria de saber por quê...
- Se esse tipo de coisa fosse possível, nossa história passada estaria cheia de viajantes no tempo. Além disso, o fato implicaria a reductio ad absurdum. Viajar para o passado podia mudar o presente e provocar paradoxos de toda a espécie.
- São bons argumentos, embora, talvez, nem tão originais quanto você supõe. De qualquer modo, eles só refutam a possibilidade da viagem no tempo em geral, não no caso muito especial que nos interessa agora.
- E o que tem ele de específico? - perguntou Ashton.
- Em ocasiões muito raras, e com o dispêndio de uma quantidade enorme de energia, é possível produzir uma... singularidade no tempo. Durante a fração de segundo em que a singularidade ocorre, o passado torna-se acessível ao futuro, embora apenas de uma maneira limitada. Podemos mandar nossas mentes até vocês, mas não nossos corpos.
- Você quer dizer - revidou Ashton - que o corpo que estou vendo foi tomado de empréstimo?
- Ok, eu paguei por ele, como estou pagando a você. O proprietário concordou com as condições. Somos muito conscienciosos nesses assuntos.
Ashton estava pensando com rapidez. Se a história era verdadeira, ele possuía uma inegável vantagem.
- Quer dizer - continuou - que vocês não têm controle direto sobre a matéria e precisam atuar por intermédio de agentes humanos?
- Sim. Mesmo esses braceletes foram feitos aqui, sob nosso controle mental.
Ela estava esclarecendo muita coisa, com demasiada prontidão, revelando toda a sua fraqueza. Um sinal de alerta estava piscando no fundo da mente de Ashton, mas ele confiava muito profundamente em si mesmo para bater em retirada.
- Está me parecendo - disse pausadamente - que você não pode obrigar-me a entregar este bracelete.
- Isso é perfeitamente correto.
- E isso é tudo o que eu queria saber.
Estava sorrindo para ele naquele momento. Havia alguma coisa naquele sorriso que o fez gelar até a medula.
- Não somos vingativos nem cruéis, Sr. Ashton - disse ela serenamente. - O que vou fazer agora se apoia unicamente em meu senso de justiça. Pois bem: o senhor pediu o bracelete; pode ficar com ele. Mas vou mostrar-lhe exatamente que utilidade terá.
Por um momento, Ashton sentiu um violento impulso para entregar o dínamo. Ela deve ter-lhe adivinhado os pensamentos.
- Não! É tarde demais. Insisto em que fique com ele. E posso tranquilizá-lo num ponto: ele não se estragará; lhe será útil - novamente aquele sorriso enigmático - para o resto de sua vida...
- O senhor se importa se dermos um passeio, Sr. Ashton? Já concluí meu trabalho e gostaria de ter uma última visão de seu mundo antes de abandoná-lo para sempre.
Virou-se e sem esperar pela resposta iniciou, a caminhada para os portões de ferro. Instigado pela curiosidade, Ashton seguiu-a.
Andaram em silêncio até se encontrarem entre o tráfego congelado na Tottenham Court Road. Durante algum tempo, ela contemplou as multidões agitadas, ainda que imóveis. Depois suspirou.
- Não posso deixar de sentir pena deles, e do senhor. Eu me pergunto como teriam se arranjado.
- Que está querendo dizer com isso?
- Ainda agora, Sr. Ashton, o senhor sugeriu que o futuro não pode mergulhar no passado, porque a história seria alterada. Uma objeção inteligente, mas, temo, irrelevante. O senhor vê: o seu mundo não tem mais história para alterar.
Ela apontou para o outro lado da estrada de ferro e Ashton girou prontamente sobre os calcanhares. Não havia nada, exceto um jornaleiro curvando-se ante uma pilha de jornais. Uma manchete estampava a incrível mensagem por entre a brisa que soprava neste mundo sem movimento. Ashton leu com dificuldade as palavras rudemente impressas:
SUPERBOMBA: TESTE HOJE
A voz em seus ouvidos parecia vir de muito longe.
- Eu lhe disse que a viagem no tempo, mesmo nesta forma limitada, requer um enorme dispêndio de energia; muito mais do que uma simples bomba pode liberar, Sr. Ashton. Mas aquela bomba é somente um estopim...
Ela apontou para a solidez do chão sob os pés.
- O senhor sabe alguma coisa sobre o seu próprio planeta? Provavelmente não; sua espécie aprendeu muito pouco. Mas até os seus cientistas já descobriram que, duas mil milhas abaixo, a Terra tem um núcleo líquido, mas muito denso. Este núcleo é formado de matéria comprimida que pode existir em qualquer um dos dois estados estáveis. Dado um certo estímulo, pode passar de um desses estados para o outro, assim como uma gangorra pode tombar ao toque de um dedo. Mas essa mudança, Sr. Ashton, irá liberar tanta energia quanto todos os terremotos desde o começo do seu mundo. Os oceanos e continentes se partirão em pedaços e serão lançados no espaço; o sol terá um segundo cinturão de asteróides. Os ecos desse cataclismo repercutirão através das idades e vão nos abrir uma fração de segundo em sua época. Durante esse instante, então, estamos procurando salvar tudo o que podemos dentre os tesouros do seu mundo. Mais não podemos fazer; mesmo se as suas motivações foram puramente egoístas e completamente desonestas, o senhor prestou à sua espécie um serviço que nunca lhe passou pela cabeça.. . Agora, tenho de retornar à nave, pois quase há cem mil anos a contar daqui as ruínas da Terra são esperadas. Pode guardar o bracelete.
A partida foi instantânea. A mulher se enrijeceu de repente, tornando-se idêntica às outras estátuas na rua em silêncio. Ele estava sozinho.
Sozinho Ashton ficou segurando o bracelete reluzente diante dos olhos, hipnotizado por sua intrincada mão-de-obra e pelos poderes que ocultava. Fizera uma barganha, tinha de lhe ser fiel. Podia sobreviver a toda a extensão de sua vida - à custa de um isolamento que nenhum outro homem jamais conhecera. Se desligasse o campo magnético, os últimos segundos da história soariam implacavelmente pela última vez.
Segundos? Na verdade, era menos tempo que isso. Pois ele entendeu que a bomba já devia ter explodido.
Sentou-se no meio-fio e começou a pensar. Não era preciso entrar em pânico; tinha de encarar as coisas calmamente, sem histeria. Afinai, ele tinha muito tempo.
Todo o tempo do mundo. 

quarta-feira, 30 de março de 2016

Philip K. Dick - Biografia Esboçada

Introdução à tradução de Minority Report (Record - 2002)

Minority Report — A nova lei é a terceira superprodução de Hollywood baseada em uma obra de Philip K. Dick, junto com Blade Runner —O caçador de andróides (baseada no romance Do Androids Dream of Electric Sheeps?) e O vingador do futuro.

Houve, ainda, outras adaptações, como Screamers — Gritos mortais, com direção de Christian Dugway (baseada na novela A segunda variedade) e Impostor, de Gary Felder (baseada na história de mesmo nome). Sem mencionar a produção francesa Confissões de um doido, adaptada do romance sobre a vida nos EUA nos anos 50, Confessions of a Crap Artist. E nem se falou ainda nos projetos abortados. John Lennon interessou-se pelo romance The Three Stigmata of Palmer Eldrich (deu para perceber que Dick tinha um jeito muito particular com os títulos) e houve duas
tentativas de filmar A Scanner Darkly (primeiro com Terry Gillian na direção, agora com uma opção nas mãos de George Clooney e Steven Soderbergh).

Mas quando Dick morreu, há duas décadas, ainda muito novo, aos 54 anos de idade, seu trabalho era pouco conhecido fora de um pequeno círculo de admiradores apaixonados. Durante a maior parte de sua vida, ele foi relativamente pobre, às vezes quase miserável (em um artigo ele descreve, em seu estilo bem-humorado característico, como, durante uma época, ele e sua mulher sobreviviam comendo comida de cachorro), enquanto outros escritores americanos de ficção científica, como Isaac Asimov, Robert A. Heinlein e Frank Herbert, ficaram ricos, com grandes sucessos de vendas em todo o mundo. Apesar disso, esses três superastros só tiveram cada um uma grande produção baseada em seus trabalhos (respectivamente, O homem bicentenário, Tropas estelares e Duna — O mundo do futuro), um total que Dick sozinho conseguiu igualar.

Mas por que aconteceu isso? Por que o trabalho desse escritor praticamente sem dinheiro algum, cuja maioria dos livros eram edições de bolso baratas escritas em maratonas de algumas semanas movidas a anfetamina (no auge, escreveu seis por ano), atraiu tanta atenção?

Bem, a, primeira coisa a dizer é que, na opinião de muitos, se há um escritor de ficção científica que merece a definição de gênio, esse é Philip K. Dick. Ele não é um grande estilista literário, e às vezes a pressa com que escrevia fica evidente.

Mas uma torrente de invenção flui de seus livros e contos, acompanhada de alterações de percepção vertiginosas que são a marca registrada de seu trabalho.

Ele via o futuro de um jeito diferente dos outros escritores mais bem-sucedidos.

Enquanto eles optavam centrar suas histórias no conceito, Dick preferia as pessoas. E essas pessoas não eram heróis ou heroínas tradicionais: eram os cidadãos comuns do futuro, lutando contra versões diferentes dos problemas humanos normais: dificuldades financeiras, no trabalho e nos relacionamentos.

E no mundo do futuro que ele visualizava, essas dificuldades podiam ser aumentadas de maneiras ao mesmo tempo cômicas e imaginativas. Em uma história de Dick, se você atrasasse o aluguel, seu apartamento se recusaria a se abrir, e lhe passaria um sermão sobre suas responsabilidades. O táxi talvez seja uma máquina voadora, com um robô no volante, mas vai dar conselhos psiquiátricos misturados com sabedoria popular durante o trajeto até o seu destino. E o próprio mundo, muito freqüentemente, não era de jeito algum o que você pensava que era: a realidade do dia-a-dia que você enfrentava provava ser uma farsa elaborada e quando você, de algum jeito, conseguia ver por trás dos bastidores, normalmente encontrava algo também bastante estranho.

A maioria dos romancistas escreve sobre o que conhece, apesar de poder disfarçar isto. Dick não foi exceção. Ele gostava muito de filosofia, especialmente debates sobre a realidade e a percepção. Sua vida pessoal era muitas vezes complicada. Foi casado cinco vezes. E já mencionei seus constantes problemas financeiros. Como a maioria das pessoas nos anos 60, ele tomou drogas demais e acabou sofrendo as conseqüências disso a longo prazo. Na última década de sua vida ele também experimentou o que considerou serem revelações religiosas (apesar de poderem ter sido problemas cerebrais antecipando os acidentes vasculares que o mataram), e seus livros deram uma guinada, tornaram-se mais pesados e menos acessíveis.

Da maneira que o futuro se revelou nas últimas duas décadas — quando mesmo as previsões mais loucas começaram a tomar forma —, a visão que Philip K. Dick tinha de pessoas comuns em circunstâncias incomuns tornou-se a que melhor descreve a forma como ele é percebido por nós. Exatamente por isso, os produtores de cinema se voltaram sobre seus romances e livros, mais do que os de qualquer outro autor.

É trágico que Philip K. Dick não tenha vivido para ver isso. Ele assistiu a uma pré-estréia de Blade Runner — O caçador de andróides no início de 1982, mas morreu antes da estréia que mudou completamente a visão que o público tinha de seu trabalho. Mas ele teria visto isso como uma conclusão irônica totalmente de acordo com sua vida. E seu trabalho segue vivo, tão extraordinário hoje como quando foi escrito.

Malcom Edwards

terça-feira, 8 de março de 2016

Un Hombre Distinguido — Fredric Brown (cuento)

UN HOMBRE DISTINGUIDO




Fredric Brown




Se llamaba Hanley, Al Hanley, y al mirarle nadie hubiera pensado que iba a ser tan importante. Y de haber conocido la historia de su vida hasta el momento en que llegaron los Darianos, nadie hubiera sospechado lo agradecido que iban a estar una vez leído este relato a Al Hanley.

En aquel momento daba la casualidad de que Hanley estaba borracho. Y no es que el hecho fuera anormal: llevaba una larga temporada borracho, y se proponía continuar en aquel estado, a pesar de que se había convertido en una empresa difícil. Se había quedado sin dinero, y sin amigos que pudieran prestárselo. Había agotado también su lista de conocidos.

Se encontraba en la penosa condición de tener que andar varias millas para visitar a alguien a quien conocía muy superficialmente y tratar de obtener un préstamo de un dólar... o de veinticinco centavos. La larga caminata desvanecería los efectos del último trago. Bueno, no del todo, de modo que se hallaba en el estado de Alicia cuando estaba con la Reina Roja y tenía que correr todo lo que podía para permanecer en el mismo lugar.

Y mendigar a los desconocidos no era aconsejable, ya que los polizontes podían echarle el guante y obligarle a pasar una noche de sed en el calabozo, lo cual hubiera sido mucho peor. Se encontraba en aquella fase del alcoholismo en que pasar doce horas sin beber significaba enfrentarse con todos los horrores del infierno, en forma de delirium tremens.

El delírium tremens son simples alucinaciones. Si uno es listo, sabe que no existen. A veces incluso resultan una compañía agradable, si se es aficionado a esa clase de cosas. Circunstancia que no se daba en Hanley. Se presentan cuando un hombre que ha estado borracho durante una larga temporada, se ve repentinamente privado de la bebida por un prolongado período, como cuando está en la cárcel, por ejemplo.

El pensar en ellas mantenía a Hanley en un estado de sacudimiento. Sacudiendo específicamente la mano de un antiguo amigo, un amigo íntimo al cual sólo había visto unas cuantas veces en toda su vida, y en circunstancias no demasiado favorables. El nombre del amigo era Kid Eggleston, y se trataba de un robusto aunque maltrecho ex boxeador, que recientemente había sido el matón de una taberna, donde Hanley le había conocido, naturalmente.

Pero no necesitamos concentrarnos en recordar su nombre ni su historia, porque no va a durar mucho en lo que respecta a este relato. En realidad, dentro de un minuto y medio, exactamente, va a gritar, y luego se desmayará y no oiremos hablar más de él.

Pero, de camino, permítanme mencionar que si Kid Eggleston no hubiera gritado ni se hubiera desmayado, ustedes no estarían ahora leyendo este relato. Estarían, quizás, cavando en una mina, bajo un sol verdoso, en el extremo más apartado de la galaxia. No creo que la perspectiva les entusiasme, de modo que no olviden que fue Hanley quien les salvó y continúa salvándoles de ella. No sean demasiado duros con él. Si Tres y Nueve se hubieran llevado a Kid, las cosas serían muy distintas.

Tres y Nueve procedían del planeta Dar, que es el segundo (y único habitable) planeta de la anteriormente citada estrella verde situada en el extremo más apartado de la galaxia. Tres y Nueve no eran, desde luego, sus nombres completos. Los nombres Darianos son números, y el nombre completo de Tres era 389057792869223. O por lo menos, ésa sería su traducción al sistema decimal.

Estoy seguro de que ustedes me perdonarán por mencionarles simplemente como Tres y Nueve. Ellos no me lo perdonarían. Un Dariano siempre se dirige a otro citando su número completo, y cualquier abreviación es, no sólo descortés, sino insultante. Pero los Darianos viven mucho más tiempo que nosotros. Por lo tanto, pueden permitirse el lujo de malgastarlo, cosa que yo no puedo hacer.

En el momento en que Hanley sacudía la mano de Kid, Tres y Nueve estaban aún a cosa de una milla de distancia, midiendo de abajo arriba. No iban en un avión, ni siquiera en una nave espacial (Y, desde luego, tampoco en un platillo volante. Naturalmente que sé lo que son los platillos volantes, pero pregúntenme por ellos en otro momento. Ahora tengo que ocuparme de los Darianos). Iban en un dado espacio-tiempo.

Supongo que tendré que explicar esto. Los Darianos habían descubierto —como nosotros podemos descubrir algún día— que Einstein tenía razón. La materia no puede viajar a una velocidad superior a la de la luz sin convertirse en energía. Y a ustedes no les gustaría convertirse en energía, ¿verdad? Lo mismo les ocurría a los Darianos cuando iniciaron sus exploraciones a través de la galaxia.

De modo que llegaron a la conclusión de que se puede viajar a una velocidad superior a la de la luz, si se viaja simultáneamente a través del tiempo. Es decir, a través del continuo espacio-tiempo, más bien que a través del espacio en si. Su trayecto desde Dar cubría una distancia de 163.000 años luz.

Pero, dado que simultáneamente habian retrocedido 1.630 siglos, el tiempo transcurrido para ellos durante el viaje había sido cero. En su viaje de regreso habían recorrido 1.630 siglos hacia el futuro, y llegaron a su punto de partida en el continuo espacio-tiempo. Espero que comprendan lo que quiero decir.

De cualquier modo, allí estaba su dado, invisible para los terrestres, una milla encima de Filadelfia (Y no me pregunten por qué escogieron precisamente Filadelfia: no comprendo que a alguien se le ocurra escoger Filadelfia para nada). Había estado posado allí durante cuatro días, mientras Tres y Nueve recogían y estudiaban las emisiones de radio, hasta que fueron capaces de comprender y hablar nuestro idioma.

Desde luego, no aprendieron absolutamente nada acerca de nuestra civilización, ni de nuestras costumbres. ¿Imaginan ustedes la posibilidad de trazar un cuadro de la vida de los habitantes de la Tierra, escuchando una mezcla de concursos de lo toma o lo deja, caldos concentrados, Charles Mac Carthy y las Lágrimas de Una Madre?

Y no es que a ellos les importara cómo era nuestra civilización, mientras no fuera lo bastante desarrollada como para representar una amenaza para ellos... cosa de la que quedaron convencidos al cabo de cuatro días. No puede reprochárseles que obtuvieran esa impresión, que al fin y al cabo era correcta.

—¿Bajamos? —le preguntó Tres a Nueve.

—Sí, le dijo Nueve a Tres.

Tres se enroscó alrededor de los mandos.

—...desde luego que le vi boxear —estaba diciendo Hanley—. Y era usted muy bueno, Kid. Su manager debía de ser muy malo, pues no encuentro otra explicación al hecho de que no llegara usted a la cumbre. Tenía usted clase. ¿Qué le parece si vamos a echar un trago?

—¿Paga usted o yo, Hanley?

—Bueno, en estos momentos ando un poco escaso de fondos, Kid. Pero necesito un trago. En recuerdo de los viejos tiempos...

—Usted necesita un trago como yo un agujero en la cabeza. Está como una cuba, y será mejor que deje la bebida antes de que el delirium tremens...

—Creo que ya se ha presentado —le interrumpió Hanley—. Mire quién hay detrás de usted.

Kid Eggleston volvió la cabeza y miró. Gritó y se desmayó. Tres y Nueve estaban acercándose. Más allá veíase un monstruoso dado, de veinte pies de longitud. Mejor dicho, había el perfil de un dado. Su modo de estar allí y, sin embargo, de no estar allí, resultaba algo intranquilizador. Aquello debía de ser lo que asustó a Kid.

Porque en Tres y Nueve no había nada que pudiera infundir temor. Eran vermiformes, de unos quince pies de longitud (completamente extendidos) y de un pie de espesor, aproximadamente, en el centro, terminando en punta por ambos lados. Eran de un agradable color azul pálido, y no poseían ningún órgano sensorial visible, de modo que no podía saberse donde empezaban y donde terminaban... lo cual no importaba demasiado, a fin de cuentas, porque los dos extremos eran exactamente iguales.

Y, a pesar de que estaban avanzando hacia Hanley y hacia el ahora yaciente Kid, no tenían lo que podía corresponder a una cabeza y lo que podía corresponder a unos pies. Avanzaban flotando y en su posición normal: enroscados.

—Hola, muchachos —dijo Hanley—. Habéis asustado a mi amigo, maldita sea. Y en el preciso instante en que se disponía a invitarme a un trago. De modo que me debéis uno.

—Reacción ilógica —le dijo Tres a Nueve—. Éste es un ejemplar de otra clase. ¿Nos los llevamos a los dos?

—No. El otro, aunque de mayor tamaño, es más debilucho, evidentemente. Y un ejemplar será suficiente. Vamos.

Hanley retrocedió un par de pasos.

—Si vais a invitarme a un trago, de acuerdo. De no ser así, quiero saber adónde vamos.

—A Dar.

—¿Quieres decir qué habéis venido aquí desde Dar? Mira, muchacho, mi menda no irá a ninguna parte hasta que aflojéis la mosca y me paguéis un par de chatos.

—¿Has entendido algo? —le preguntó Nueve a Tres. Tres agitó negativamente uno de sus extremos—. ¿Nos lo llevamos a la fuerza?

—No es necesario, si viene voluntariamente. ¿Quieres entrar voluntariamente en el dado, criatura?

—¿Hay algo de beber dentro?

—Sí. Entra, por favor.

Hanley se dirigió hacia el dado y entró. No es que creyera que estaba realmente allí, desde luego, pero, ¿qué tenía que perder? Cuando se presentan las alucinaciones, es mejor seguirles la corriente. El dado era sólido, y no amorfo, ni siquiera transparente, desde el interior. Tres se enroscó alrededor de los mandos y manipuló cuidadosamente unos delicados mecanismos con ambos extremos.

—Estamos en el intraespacio —le dijo a Nueve—. Sugiero que nos quedemos aquí hasta que hayamos estudiado este ejemplar y podamos informar si es apto para nuestros propósitos.

—¡Eh, muchachos! ¿Qué hay de ese trago?

Hanley estaba empezando a preocuparse. Sus manos temblaban, y las arañas estaban deslizándose a lo largo de su espina dorsal.

—Parece que está sufriendo —dijo Nueve—. Tal vez tiene hambre, o sed. ¿Qué es lo que beben esas criaturas? ¿Peróxido de hidrógeno, como nosotros?

—La mayor parte de la superficie de su planeta parece estar cubierta de agua, abundante en cloruro sódico. Podemos sintetizar un poco...

Hanley aulló:

—¡No! Ni siquiera agua sin sal. ¡Necesito whisky!

—Analizaremos su metabolismo —dijo Tres—. Con el intrafluoroscopio, puedo hacerlo en un segundo.

Se desenroscó de los mandos y se acercó a un extraño aparato. Parpadearon unas luces.

Tres dijo:

—¡Qué raro! Su metabolismo depende de C2 H2 OH.

—¿C2 H2 OH?

—Si. Alcohol... al menos, básicamente. Con cierta dilución de H2O y sin el cloruro sódico presente en sus mares, así como cantidades fabulosamente menores de otros ingredientes. Eso parece ser lo único que ha consumido durante un período bastante largo. Se encuentra en una proporción de 24% en su corriente sanguínea y en su cerebro. Todo su metabolismo parece estar basado en ello.

—Muchachos —suplicó Hanley—. Me estoy muriendo por un trago. ¿Qué os parece si suspendéis la conferencia y me dais algo de beber?

—Un momento, por favor —dijo Nueve—. Voy a preparar lo que necesitas. Déjame utilizar los nonios en el intrafluoscopio, y añadir el psicómetro.

Parpadearon más luces, y Nueve se dirigió a un rincón del dado que era un laboratorio. Cuando regresó no había transcurrido un minuto. Llevaba una especie de cubilete lleno hasta la mitad de un líquido ambarino.

Hanley lo olió, luego bebió. Suspiró profundamente.

—Estoy muerto —dijo—, esto es licor irlandés, el néctar de los dioses. No existe otra bebida como ésta.

Bebió ávidamente, y el líquido ni siquiera quemó su garganta.

—¿Qué es eso, Nueve? —preguntó Tres.

—Una fórmula muy complicada, adaptada a sus exactas necesidades. Cincuenta por ciento de alcohol, cuarenta y cinco por ciento de agua. Los restantes ingredientes, sin embargo, son considerables en número; incluyen todas las vitaminas y minerales que su sistema precisa, en proporción adecuada y todos insípidos. Además, otros ingredientes en cantidades minúsculas para mejorar el sabor... de acuerdo con sus gustos. A nosotros nos sabría horriblemente, en el supuesto de que pudiéramos beber alcohol o agua.

Hanley suspiró y bebió largamente. Se tambaleó un poco. Luego miró a Tres y sonrió.

—Ahora sé que no estás ahí —dijo.

—¿Qué quiere decir? —le preguntó Nueve a Tres.

—Sus procesos mentales parecen completamente ilógicos. Dudo de que su especie sirva para la esclavitud. Pero tenemos que asegurarnos, desde luego. ¿Cuál es tu nombre, criatura?

—¿Qué importa el nombre, camarada? —preguntó Hanley—. Llámame como quieras. Vosotros sois mis mejores amigos. Llevadme donde queráis. Con tal de que me aviséis cuando lleguemos a Dar...

Bebió largamente y se tumbó en el suelo. Unos extraños sonidos surgieron de él, pero ni Tres ni Nueve pudieron identificarlos como palabras. Sonaban aproximadamente así: Zzzzzz, glup... Zzzzzz, glup.

Le sacudieron, tratando de despertarle, pero fracasaron en el intento.

Le observaron, sometiéndole a todas las pruebas que su estado permitía. Hanley no se despertó hasta unas horas después. Se sentó y miró a los dos Darianos. Dijo:

—No lo creo. No estáis aquí. Por el amor de Dios, dadme otro trago, de prisa.

Le dieron el cubilete: Nueve había vuelto a llenarlo. Hanley bebió. Cerró los ojos. Dijo:

—No me despertéis.

—Pero, si estás despierto...

—Entonces, no dejéis que me duerma. Esto es pura ambrosía... la bebida de los dioses.

—¿Quiénes son los dioses?

—Ya no hay. Pero esto es lo que bebían. En el Olimpo.

Tres dijo:

—Procesos mentales completamente ilógicos.

Hanley alzó el cubilete. Dijo:

—Aquí es aquí, y Dar es Dar, amigos —Bebió.

—¿Qué sabe usted acerca de Dar? —preguntó Tres.

—Dar no tiene las cosas que tenéis vosotros. A vuestra salud, muchachos.

Bebió de nuevo.

—Demasiado estúpido para ser adiestrado para algo que no sea un trabajo físico —dijo Tres—. Pero, si tiene el vigor suficiente, tal vez podamos recomendar una incursión a este planeta. Tiene de tres a cuatro mil millones de habitantes. Y nosotros podemos utilizar el trabajo manual: tres o cuatro mil millones de esas criaturas nos ayudarían considerablemente.

—¡Hurra! —dijo Hanley.

—No parece coordinar bien —dijo Tres pensativamente—, Pero quizás su vigor físico es considerable. Criatura, ¿cómo debemos llamarte?

—Llamadme Al, muchachos.

Hanley se estaba poniendo en pie.

—¿Es ése tu nombre, o el de tu especie?

Hanley se recostó contra la pared y meditó unos instantes.

—El de la especie —dijo—. ¡Un momento! Voy a decirlo en latín.

La dijo en latín.

—Deseamos comprobar tu vigor. Corre arriba y abajo de uno a otro lado de este dado, hasta que te canses. Deja, yo sostendré el cubilete con tu alimento.

Cogió el cubilete de manos de Hanley. Hanley se resistió a soltarlo.

—Un trago más —dijo—. Sólo un traguito más, y correré para ti. Correré para el presidente.

—Tal vez lo necesite —dijo Tres—. Dale un poco más, Nueve.

Podía ser el último trago por una temporada, de modo que Hanley lo aprovechó bien. Luego contempló alegremente a los cuatro Darianos que le estaban mirando. Dijo:

—Os veré en las carreras, muchachos. A todos. Y, apostad por mí. Ganador y colocado. ¿Otro traguito, primero?

Le dieron otro traguito... esta vez realmente corto: menos de dos onzas.

—Basta —dijo Tres—. Ahora, corre.

Hanley dio un par de pasos y cayó de bruces. Dio media vuelta sobre sí mismo y se quedó tendido en el suelo, con una beatífica sonrisa en el rostro.

—¡Increíble! —dijo Tres—. Tal vez trata de engañarnos. Vamos a comprobarlo, Nueve.

Nueve lo comprobó.

—¡Increíble! —dijo—. Realmente increíble que después de un esfuerzo tan pequeño esté inconsciente... inconsciente hasta el punto de ser insensible al dolor. Y no está fingiendo. Su tipo es completamente inútil para Dar. Ajusta los mandos y enviaremos un informe. Nos lo llevaremos, de acuerdo con nuestras instrucciones complementarias, como un ejemplar para el parque zoológico. Físicamente, es el ejemplar más raro que hemos descubierto en cualquiera de los varios millones de planetas.

Tres se enroscó en los controles y utilizó sus dos extremos para manipular mecanismos. Transcurrieron ciento sesenta y tres mil años luz y 1.630 siglos, ajustándose de un modo tan absoluto y perfecto que ni el tiempo ni la distancia parecieron haber sido cruzados.

En la capital de Dar, la cual gobierna a millares de planetas útiles, y ha visitado millones de planetas inútiles —como la Tierra—, Al Hanley ocupa una gran jaula de cristal en un lugar de honor, como ejemplar realmente asombroso.

En el centro de la jaula hay una balsa, de la cual bebe a menudo y en la cual se le ha visto bañarse. La balsa está siempre llena de un brebaje delicioso, que es en relación con el mejor whisky de la Tierra, lo que el mejor whisky de la Tierra es en relación con la ginebra de tina elaborada en una tina sucia. Además, está reforzado —sin que afecte a su sabor— con todas las vitaminas y minerales que el metabolismo de Hanley necesita.

No produce resaca ni otras desagradables consecuencias. Es una bebida tan deliciosa para Hanley como la constitución de Hanley para los visitantes del zoo, los cuales le contemplan admirados y luego leen el cartel colgado de su jaula, encabezado por el nombre de su especie en latín... tal como Hanley se la reveló a Tres y a Nueve.

ALCOHOLICUS ANONYMOUS

Vive a base de una dieta de C2 H2 OH, ligeramente reforzada con vitaminas y minerales. Ocasionalmente brillante, pero completamente ilógico. Carece de vigor: sólo puede dar unos cuantos pasos sin caerse. Carece de todo valor comercial, pero es un fascinante ejemplar de la más extraña de las formas de vida descubiertas hasta ahora en la Galaxia. Procede del Planeta 3, del Sol JX647-HG908.

Tan raro, en realidad, que le han sometido a un tratamiento que le hace prácticamente inmortal. Y es bueno que sea así, porque es un ejemplar zoológico tan interesante, que si algún día muere, los Darianos tendrían que bajar a la Tierra en busca de otro. Y podría suceder que tropezaran con usted o conmigo... y que diera la casualidad de que usted o yo, según el caso, estuviéramos sobrios. Y esto sería terrible para todos nosotros.

***
Título original:Man of Distinction
Revista o libro:Thrilling Wonder Stories
Editorial:Standard Magazines, Inc.
FechaFebrero de 1951

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A ciência e a ficção científica — Mario Da Silva Brito


A CIÊNCIA E A FICÇÃO CIENTÍFICA

A ficção científica, de fato, é mais literatura do que ciência. Esta pertence aos compêndios e aos tratados. Os cientistas, no entanto, não a depreciam. Consideram-na, antes, uma hipótese de trabalho dependente da verificação sistemática.

O que a ciência pode representar para o homem na fecundação do seu espírito e na transformação de sua vida, formulando os termos do drama humano, já é matéria para a literatura, para a fábula. O reingresso do homem atua! no mundo da fábula — eis o que a Science fiction pratica. Parte o escritor de uma concepção não alheia à ciência e cria, apoiado nela, a trama imaginária, e a narra consoante os seus recursos literários, e estes lhe darão, conforme a qualidade artística da fatura, grandeza ou platitude, realismo ou falsidade. Groff Conklin, experimentado antologista e teórico do gênero, conceitua-o como estando baseado em ideias científicas que não tenham sido provadas impossíveis. Daí não caber estranheza ante a notícia de que, na Universidade de Harvard, o professor Dwight Wayne Batteau mantenha uma cátedra de Ficção Científica aplicada à Engenharia, cuja finalidade é encaminhar os cientistas no aproveitamento das sugestões engendradas pelos escritores. Estes, por sua vez, em muitos casos, são técnicos, homens de laboratório e de pesquisas, cientistas numa palavra, e se valem da ficção para elaborarem, na forma de contos, novelas ou romances, hipóteses que não ousaram ainda formular em termos de rigorosa ciência. Há mesmo críticos literários que definem a ficção científica como a literatura da hipótese. O que importa assinalar, é que os escritores de ficção científica creem, convictamente, nas histórias que inventam e dão força de verdade à supra realidade que descrevem. Por isso mesmo, os psicanalistas se detêm na análise mais profunda dessas narrativas, sentindo-as como um sonho rico de símbolos. Mas neste, como em qualquer outro gênero literário, o artesão não é dispensado, as regras estéticas não são abandonadas e nem a arte de compor, consoante as exigências estilísticas é de plano secundário. Exatamente porque, antes de mais nada, é preciso respeitar a sua condição de literatura.

A ficção científica, muito embora trate de mundos desconhecidos, de universos vagamente pressentidos, de objetos não identificados, de robôs e monstros, de fenômenos estranhos, de seres extraterrenos ou potências invisíveis, de naves estapafúrdias, de galáxias, de civilizações e culturas de outros planetas, é, em vez de escapista, vincadamente humana e dá a dimensão da perplexidade do homem na hora histórica em que vive. Pertence, como consequência, a um mundo que, pela exacerbação do conhecimento, derrogou as certezas que conquistara com o auxílio da própria ciência. Afinal, o homem moderno e o homem primitivo se igualaram na mesma ignorância — este por nada saber e aquele por saber demais, ficando, assim, atônito diante de cada nova descoberta. Um e outro, cada qual no seu devido tempo, lançam as mesmas indagações sofridas: Que é o homem? A vida? O tempo e o espaço? O futuro? Ambos se definem pela mesma insegurança, por semelhante inquietação ante o ignoto, o mistério. A ficção científica faz às vezes, enfim, de uma Cosmogonia. O Fabuloso de tal forma envolveu o homem, que tudo é mágico, mirabolante, absurdo, inédito e... possível.

A um mundo estável, que ia da geometria euclidiana ao racionalismo de Descartes, da regrada lógica aristotélica ao cosmos de Galileu e ao positivismo de Comte, para assinalar apenas algumas balizas, sucedeu outro, conturbado e revolucionado pela Relatividade, a Cibernética, os Quanta, a Mecânica Ondulatória, a Astrobiologia, a Sociometria, a Genética, a Psicanálise, as transmutações dos conceitos de Espaço e Tempo, a Radioatividade e os Raios Cósmicos, a Biofísica e a Bioquímica, a Eletrônica, a Telecomunicação, as mutações artificiais e tantas outras situações novas e desnorteantes que desmantelaram a solidez de suas interpretações da vida e do meio ambiente.

O homem, antes centro do Universo, acabou adquirindo a ciência — e o que é muito mais: a consciência — de que está instalado num minúsculo ponto perdido num braço de galáxia, entre outros milhares de milhões de grupos estelares, e sabe, por exemplo, que cada novo telescópio prescreve toda a Astronomia sabida até ontem. Ficou sem pontos de referência adaptados às dimensões humanas, observa Erich From, que ainda afirma: “A ciência, os negócios, a política, perderam todos os fundamentos e proporções que façam sentir humanamente. Vivemos em cifras e abstrações; posto que nada é concreto, nada é real. Tudo é possível, de fato e moralmente. A ficção científica não é diferente do fato científico, nem o são os pesadelos e os sonhos dos acontecimentos do ano seguinte.”

A ficção científica funda suas raízes nesse mundo instável e alienado. A espécie humana em perigo — perigo suposto ou real — produz uma literatura premonitória. É o grande documento da criatura em face ao seu destino problemático. Ou a catarse de um sentimento de culpa coletivo. Seja como for, é uma literatura do homem, nascida do seu íntimo profundo, não importa que tantas vezes temerosa e fatalista, desiludida e triste.

Em outros tempos, a literatura preocupou-se com o passado ou o presente das sociedades. Agora está voltada para o futuro, que não consegue vislumbrar nitidamente.

Literatura de fuga, essa da ficção científica? Parece que não. É antes filha do impasse, da crise, da humanidade intranquila e sem paz. Mas, nem por isso, é toda ela feita de dor e, em nenhum momento, de desprezo pela condição humana. Muito pelo contrário, está vinculada ao tempo terrível que as manchetes diariamente denunciam, e, em alguns autores, seus personagens, exilados em outras galáxias, ou em mundos artificiais, apresentam-se nostálgicos da boa e velha Terra que abandonaram por força das circunstâncias, e conspiram contra os governos estelares para retornarem ao solo de antanho, com o fito de novamente colonizá-lo, tirá-lo do seu barbarismo e reorganizá-lo em termos de amor e simplicidade. São personagens ansiosos por retomarem ao humano, por descobrirem uma verdade simples, que nada tenha a ver com máquinas, poder ou glória, mas que devolva aos seres a indispensável dimensão humana.

Uma derradeira indagação: até quando a ficção científica será apenas ficção científica?

***

in MARAVILHAS DA FICÇÃO CIENTÍFICA, Cultrix, 1953.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Por uma Língua Universal — Joan Català Piñón

ESTOS TERRÍCOLAS SON UNOS AUTÉNTICOS MASOCAS

—No, excelencia, a pesar de lo que dice Gorogol, los terrícolas no son tontos. Lo que Gorogol toma por estupidez en realidad es masoquismo asociado a un cierto grado de tolerancia de la injusticia, que tiene su origen en la arrogancia, que a su vez se deriva de la inseguridad.

—Más despacio, muchacho, que pierdo el hilo. Te enviamos al planeta Tierra a estudiar comunicación planetaria, y vuelves soltándonos una retahíla de nociones morales y psicológicas que no tienen nada que ver con el tema.

—Lo siento, Excelencia. La estupidez es ciertamente la primera hipótesis que te viene a la mente cuando ves cómo los terrícolas organizan la comunicación internacional. Mire este mapa. Todas estas manchas de diferentes colores son países, cada uno con su propio gobierno. Aquí están los Estados Unidos. Éste se llama India; éste, Angola; este otro Italia…, hay muchos. Ahora bien, puesto que todos ellos han alcanzado un alto nivel de civilización, obviamente tienen que discutir muchos asuntos que conciernen a todo el planeta. ¿Qué cree que hacen?

—Envían a sus representantes por el procedimiento más sencillo a un lugar conveniente para todos donde puedan reunirse y discutir.

—Exactamente. Eso es lo que hacen, físicamente. Pero no mentalmente. Muchos de ellos estudian idiomas en el colegio durante años y años, pero cuando se reúnen en esas organizaciones como las que ellos llaman Naciones Unidas, o instituciones parecidas, digamos, la Organización Internacional de Aviación Civil, no tienen ninguna lengua común. Por eso se quedan mirándose unos a otros, incapaces de dialogar. Para comunicarse entre sí necesitan de una costosa y voluminosa maquinaria, además de una amplia plantilla.

—Gorogol tenía razón: son estúpidos.

—No, Excelencia. Si lo fueran, no habrían resuelto el problema de la comunicación material. Lo que son es masoquistas. Mire esta pequeña península de aquí. Es lo que ellos llaman Europa. Pues bien, allí, hasta el más modesto fabricante de quesos debe traducir las etiquetas de sus envases a media docena de idiomas. Eso es muy costoso y lo pagan los consumidores. Y tienen un amplio espectro de organizaciones internacionales que gastan fortunas en traducción e interpretación. Los gobiernos toman el dinero del bolsillo de los contribuyentes sin el más mínimo remordimiento.

—¡Eso es una auténtica perversión!

—¡Pero los contribuyentes permiten alegremente que su dinero se utilice para tales propósitos! No son menos pervertidos, aunque de otra manera: mientras los gobiernos son sádicos, ellos son masoquistas.

—¿Es ése el único medio que tienen de comunicarse superando las barreras lingüísticas?

—No, Excelencia. Este sistema se restringe cada vez más a reuniones formales. En la vida diaria se defienden usando un idioma común.

—¿Por qué no dijiste eso al principio? Si usan un idioma común no son más estúpidos o masoquistas que nosotros.

—Sí, lo son. En nuestra parte de la galaxia se usa un idioma común que es completamente neutral y fácil para todo el mundo. No es la lengua de un pueblo dado, o de un planeta dado, para que podamos comunicarnos en pie de igualdad y no necesitemos mucho esfuerzo para dominar los sistemas de comunicación. Diez minutos al día durante un año en la escuela elemental y algo de práctica después es todo lo que nos lleva.

—¿No es eso lo que hacen los terrícolas?

—No. Para comunicarse han elegido una lengua que se destaca de las demás porque tiene muy poco en común con cualquiera de ellas. Mire otra vez el mapa. Esto es Europa continental; esto, Latinoamérica; esto es África; esto, Indonesia. Juntos representan muchos millones de personas, probablemente más de mil. Pues bien, en todo este vasto territorio tienen una letra que se escribe así: «a» o «A». Todos esos millones de personas la pronuncian del mismo modo, incluso aunque tengan alfabetos distintos, como los griegos o los rusos. Y la lengua de estos últimos se usa en este amplio territorio de Asia, al norte de estas montañas. Pero en la lengua que han adoptado para comunicarse, que ellos llaman «inglés» porque nació en esta pequeña isla de aquí, Inglaterra, la misma letra rara vez se utiliza con su valor prácticamente universal. Representa una gama completa de diferentes sonidos. Mire estas palabras y escuche cómo pronuncio la «a» en ellas: bad /bæd/, all /o:l/, father /fa:dË/, courage /kvridz/, face /feis/.

—¡Sorprendente! ¡Qué idea más rara, usar la misma letra para sonidos tan distintos!

—Pero es aún más incomprensible en el ámbito internacional. Todas las personas que han aprendido a leer y escribir en una lengua bantú, como el swahili; o en una latina, como el español; o en una eslava, como el checo; o en una germánica, como el holandés, la pronuncian de la misma manera. Incluso en China (esta mancha grande del mapa), donde antes de aprender su propio sistema de escritura, los niños aprenden primero a escribir con el alfabeto latino, también pronuncian esta letra de la misma forma (igual que sus vecinos los japoneses) cuando escriben sus nombres para los extranjeros. Los anglohablantes, como se les llama, son los únicos que tienen esta extraña manera de pronunciar las letras del alfabeto que usan. Esta otra letra, por ejemplo: «I», «i» se pronuncia igual en todo el planeta, incluyendo las transcripciones del hebreo, árabe, chino y japonés, pero los anglohablantes le dan diferentes valores: compare bite /bait/ con bit /bit/.

—Entonces, ¿me estás diciendo que hay una práctica unanimidad en todo el planeta, pero que usan para comunicarse unos con otros justamente la lengua que funciona de manera más complicada e irracional? ¿Que han elegido la excepción en lugar de la norma?

—Sí, Excelencia. ¿No es eso un buen ejemplo de masoquismo? Puesto que el sistema que han adoptado es mucho más complicado de lo necesario, impide una comunicación sin problemas para la mayoría de la gente. Además no es justo. En lo que a lenguas se refiere, un anglohablante no tiene que aprender nada para comunicarse mediante este sistema, mientras que muchas personas tienen que dedicar muchas horas a la semana durante muchos años para adquirir el sistema común de comunicación, sin conseguir nunca el nivel de un anglohablante. Sólo he hablado de la escritura y la pronunciación, pero la lengua está repleta de problemas similares. Por ejemplo, la mayoría de las lenguas tienen sólo una palabra para expresar conceptos como «libertad», «leer», «inevitable», «comprar», «fraternal». Pero uno no domina el inglés, al menos el inglés escrito que es tan importante en cualquier contrato, en cualquier asunto científico o comercial, si no ha aprendido las palabras paralelas freedom / liberty, read / peruse, unavoidable / inevitable, buy / purchase, fraternal / brotherly. Por eso las personas que no son anglohablantes, o que son anglohablantes de segunda clase, tienen que aprender por duplicado el vocabulario que sería necesario para comunicarse en otras lenguas. Además, prácticamente en todo el mundo, las palabras se derivan unas de otras de forma que favorecen la memoria, por ejemplo «dentista» se deriva de «diente»: francés dent > dentiste, japonés ha > ha-isha, alemán zahn > zahnarzt, indonesio gigi > doktor gigi. Como en otros muchos aspectos, el inglés es una excepción. Hay que aprender tooth [diente] y su plural, que es teeth en lugar de tooths, y además esto no se puede utilizar para recordar cómo denominar a la persona que se ocupa de los dientes. Dentist [dentista] tiene un origen completamente distinto.

—¡Sí que es una lengua rara!

—Eso no es todo. Por increíble que parezca hay muchas expresiones formadas a partir de un verbo y una pequeña palabra, cuyos significados no se pueden deducir de sus partes componentes. Por ejemplo, puedes haber aprendido lo que significan make y up, pero eso no te ayudará a deducir el significado de make up. Entre otras cosas porque tiene varios, desde «compensar» a «preparar» pasando por otros muchos, como lo ejemplifica este diálogo entre dos personajes de una de las novelas de P.G. Wodehouse:

—He’s made up his mind to stay in. [Ha decidido quedarse en casa].

—Well, I’ve made up my face to go out. [Bueno, yo me he maquillado para salir].

Por eso se precisa mucho tiempo para llegar a dominar esta lengua. Un coreano o un chino que quieran ser capaces de utilizar el inglés a un buen nivel intelectual, por ejemplo para negociar un contrato o para tomar parte en una discusión en un campo técnico o científico, tienen que dedicar al menos 8000 horas para su adquisición. A una media de 40 horas a la semana, esto significa 200 semanas, o al menos cuatro años a tiempo completo, sin descanso. Padres de todo el mundo ven cómo sus hijos pasan cientos de horas en el colegio estudiando este idioma sin alcanzar el nivel de competencia necesario para que les pueda ser útil. No resulta sorprendente que miles de viajeros tengan que afanarse en situaciones enojosas provocadas por malentendidos, porque la mayoría de los hablantes de inglés no nativos no son capaces de usar el inglés adecuadamente. ¡Y cuántas veces los contactos entre las personas se quedan en un nivel infrahumano! Pero nadie se queja. Los terrícolas han elegido gastar fortunas en este sistema, vivir con molestias e injusticias, aunque nada les obligue. ¿No es eso masoquismo?

—Espera un momento, hijo, no tan deprisa. Primero explícame por qué el planeta Tierra no ha creado una lengua para la comunicación interétnica cuando el resto de la galaxia lo ha hecho.

—¡Pero, Excelencia, si las cosas se han desarrollado entre ellos exactamente de la misma manera que entre nosotros!

—¿De qué manera? ¿Quieres decir que también tienen una lengua internacional genuina? ¿Por qué no la usan entonces?

—Ahí está la cosa. La creatividad lingüística de los terrícolas es tan grande como la nuestra y varios autores han publicado esbozos de lenguas interétnicas. Muchas de ellas, como entre nosotros, no funcionaron y pronto cayeron en el olvido. Pero un día apareció un proyecto muy modesto, llamado por su autor «Lengua Internacional», que lo publicó, por razones ligadas a la situación política y social, bajo el pseudónimo de Dr. Esperanto. Este proyecto, aunque no convenció a la élite, fue adoptado por personas de muy diferente origen lingüístico como sistema de comunicación internacional. Poco a poco, la lengua se extendió por todo el planeta y llegó a toda clase de gentes. Se fue haciendo más rico y flexible conforme se utilizaba y también mediante las obras de los mejores escritores.

—Entonces, las cosas han ido básicamente igual que entre nosotros, ¿no?

—Sí. Hubo una especie de competición entre candidatos rivales que pusieron de manifiesto sus marcadas diferencias de capacidad y dinamismo. Claramente una lengua emergió de todo este proceso de selección natural, la que el público llamó esperanto. La vida la transformó en una lengua viva, con sus canciones, su humor, su literatura…

—Hijo, no lo entiendo. ¿Por qué los terrícolas no se valen de esta lengua para resolver sus problemas de comunicación?

—Por estupidez, según Gorogol. Por masoquismo, según yo. Como media, diez meses de esperanto proporcionan una capacidad de comunicación equivalente al nivel que se alcanza después de diez años de inglés, si se basa el cálculo en el mismo número de horas a la semana. Si el factor masoquismo no interviniera, la gente exigiría a sus gobiernos la enseñanza del esperanto durante un año en todas las escuelas, después del cual los estudiantes podrían seguir estudiando éste u otro idioma adicional de su elección por razones culturales, si les interesase. Este sistema eliminaría todos los problemas de comunicación lingüística sin aportar el más mínimo inconveniente.

—Empiezo a entender por qué hablas de masoquismo. Pero ¿no te he oído decir algo sobre la arrogancia hace un momento?

—Sí, efectivamente. Este masoquismo sólo puede mantenerse mientras todo el mundo dé por supuesto que la solución de una lengua internacional no existe o que no funciona. Y esto, esto procede de la idea exagerada que las personas tienen de su propia competencia.

—Explícate.

—En el curso de mis investigaciones, he preguntado a un gran número de terrícolas. En muchos casos, al mencionar la palabra esperanto, era recibido con ironía y sonrisas de superioridad. No siempre. Algunas personas estaban realmente interesadas y dispuestas a aceptar la idea: no permitían que les cegara la arrogancia. Pero muchas otras, especialmente en Europa, la primera reacción que tenían era de desprecio. Y ese desprecio procede de la propia certeza de saber todo lo que hay que saber: una especie de gran presunción cuyo origen está en juzgar obstinadamente sin estudiar los hechos.

—¿Estás diciendo que rechazan el esperanto sin saber nada de él?

—Eso es. Tan pronto como empiezas a preguntarles sobre el tema, se hace evidente que no tienen ni la más remota idea de lo que es el esperanto. La mayoría simplemente no sabe que hay gente que lo utiliza para comunicarse con extranjeros, que hay niños que lo hablan, que ha sido adoptado por poetas de gran mérito, que se utiliza regularmente en emisoras de radio, o que muchas personas lo utilizan habitualmente en su correspondencia electrónica. Le atribuyen defectos inexistentes y no tienen noción de sus verdaderos límites. Pero eso no les ocurriría si antes de emitir un juicio observasen los hechos.

—¡Increíble!

—Pero cierto. Mire esto. Es uno de sus periódicos, USA Today. Este artículo da alguna información positiva sobre el esperanto, aunque el énfasis que pone en ciertos aspectos no lingüísticos de alguna manera distorsiona la imagen. Parte del artículo cita a un tal Robert Trammel del Departamento de Lenguas y Lingüística de la Universidad Atlántica de Florida en Boca Ratón: «La razón por la que no ha cuajado es porque siempre es algo que el hablante tiene que aprender además de su lengua materna, es algo extra».

—Bueno, si es una lengua común para la comunicación internacional, ¿cómo se podría usar sin haberla aprendido antes, además de la lengua materna? ¡Eso es una absoluta estupidez!

—Sí, pero esa estupidez es consecuencia de la arrogancia. Sólo porque enseña en un departamento universitario de lenguas y lingüística ya cree que puede decir cualquier cosa sobre una lengua sin conocer previamente los hechos. En este caso, este señor no ha captado la idea en absoluto, pero sólo aquellos que saben de qué va el tema se dan cuenta. La mayoría sólo recordarán que un especialista en lenguas rechaza el esperanto, que éste no es cosa seria. Otra frase de la misma persona: «Es esencialmente una lengua indoeuropea», demuestra que se permite a sí mismo juzgar sin proceder previamente a un análisis lingüístico aplicando los criterios normalmente utilizados para clasificar una lengua. De hecho, el esperanto consiste en elementos invariables (los lingüistas los llaman morfemas), que se pueden combinar sin limitaciones. El hecho de que «mi» se derive de «yo» (mi > mia), y «primero» de «uno» (unu > unua), es algo que se puede encontrar en lenguas como el chino y no en una indoeuropea…

—Por favor, no seas tan minucioso, que yo no tengo ni idea de lingüística. Pero creo que tienes razón. Este señor habla de algo de lo que no sabe nada. Eso está mal. Si se imagina que porque sabe mucho de otras lenguas puede hablar de cualquiera con la que no esté familiarizado, es ciertamente arrogante. Pero ¿es éste un caso típico?

—Lo es, Excelencia.

—Si lo es, parece que la gente de por allá no sitúa el problema en un contexto lo suficientemente amplio.

—Es verdad. Hay un montón de factores de todo tipo implicados en la comunicación lingüística internacional: políticos, económicos, sociales, psicológicos, educativos, culturales, lingüísticos, fonéticos…, que exigen un análisis detallado y una profunda reflexión. Pero hasta el terrícola más humilde cree que puede solucionar el problema en unos segundos, y la expresión de superioridad que se refleja en su rostro no es otra cosa que arrogancia.

—Eres joven, muchacho, y me pregunto si no hay una cierta falta de tolerancia en tus juicios sobre los terrícolas. ¿No estás siendo tú, quizás, un poco arrogante? ¿Estás seguro de que no estás simplificando demasiado un problema extremadamente complicado?

—Estooo…, es decir, Excelencia, yo…eh…

—En lugar de tartamudear harías bien en decirme a qué atribuyes esa arrogancia de la que hablabas hace un momento.

—Ya se lo he dicho, Excelencia: su arrogancia es fruto de su inseguridad.

—¿Por qué de su inseguridad?

—Muchos terrícolas no aceptan fácilmente sus debilidades, sus pequeñeces, en resumen, su condición demasiado humana. Viven en un ambiente de inseguridad constante, conscientes de algunos de sus defectos, reprimiendo otros. Para muchos esto tiene una consecuencia inmediata: niegan la existencia del problema. Uno se siente mucho más seguro cuando ha solucionado un problema que cuando aún se tiene que enfrentar a él, ¿no? Por eso, para tranquilizarse, los terrícolas se valen de toda clase de mitos.

—¿Qué mitos?

—Tienen muchos. Por ejemplo, que el sistema de traducción funciona bien, o que puedes desenvolverte con el inglés en cualquier lugar del mundo, o que puedes aprender una lengua étnica en tres meses (es la propaganda que hacen en los anuncios) o durante tu estancia en el colegio. Tan pronto como abordas el problema para comprobar los hechos sin ideas preconcebidas, te das cuenta de que esas aseveraciones no se sostienen o necesitan ser seriamente matizadas. Hay muchos mitos sobre el esperanto. La primera reacción de muchos terrícolas cuando lo mencionas es creer que, por definición, tiene que ser inferior a las lenguas étnicas, por ejemplo en su capacidad de expresión emocional, poética o intelectual. Pero si lo estudias, encuentras que no es inferior a ellas en esos aspectos. En muchos es, si acaso, superior.

—Muchacho, tengo la impresión de que a ti te gusta este idioma internacional, este esperanto, y me pregunto si estás siendo realmente objetivo. ¿No tenderás, como Gorogol, a mirar a los terrícolas desde una posición de superioridad? A lo mejor el esperanto también tiene defectos que no has tomado en consideración.

—Por supuesto, Excelencia. El esperanto no es perfecto, pero entre personas que hablan lenguas distintas es mucho mejor que el inglés o la interpretación simultánea. Ningún idioma puede expresarlo todo. Esta o aquella expresión en francés tiene un gusto especial que no se puede traducir ni en esperanto, ni en inglés, ni en alemán. Pero lo contrario es igualmente cierto: este o aquel juicio, esa frase picante en esperanto, no tienen equivalente en ninguna lengua étnica. El esperanto no es un código. Es una lengua completamente desarrollada, con un alma, un semblante, una personalidad. Pero los terrícolas no quieren verlo. Y aún más, ¿cómo se puede hacer un juicio serio de una realidad que no se conoce, o ser justo con algo de lo que sólo se tiene un conocimiento superficial?

—Si los terrícolas no son tontos, como tú dices, eso lo entenderán perfectamente.

—No, Excelencia, porque evitan cuidadosamente afrontar los hechos, de forma que puedan, como buenos masoquistas, disfrutar de las dificultades. Entre nosotros cuando una gran empresa (llamémosla «A») se da cuenta de que una pequeña empresa («B») ha encontrado una solución completamente satisfactoria y económica para algunos problemas inoportunos que le cuestan a la empresa «A» un dineral en inadecuadas soluciones paliativas, la empresa «A» enseguida va a ver qué hace la empresa «B», para aplicar la misma fórmula.

—¿Y los terrícolas no hacen eso? No puedo creerlo.

—No. No lo hacen en el terreno lingüístico. En su planeta hay organizaciones como las llamadas «Naciones Unidas» o «Unión Europea» que gastan al año millones de euros tratando de superar las barreras lingüísticas con sistemas cuya relación coste-efectividad es pésima. También hay organizaciones como la Asociación Internacional de Esperanto, donde las personas que participan en actividades, conferencias o realizan trabajos administrativos tienen diversos orígenes lingüísticos pero se comunican directamente y sobre una base de igualdad sin dedicar ni un céntimo a la interpretación de un discurso o a la traducción de un documento.

—¿Y dices que esas organizaciones, las Naciones Unidas, la Unión Europea…, nunca han estudiado cómo tiene lugar la comunicación lingüística en las otras asociaciones? ¡No es posible!

—No sólo no lo han estudiado, sino que además nunca se les ha ocurrido que hubiera algo que estudiar. Se trata de un rechazo sistemático y a priori. Y ni siquiera tienen conciencia de culpabilidad. Curioso, ¿verdad?

—Sí, ciertamente. Me ha costado mucho admitir su masoquismo, pero me es aún más difícil entender su falta de curiosidad.

—Pues a mí, Excelencia, lo que me sorprende es su falta del sentido de la responsabilidad. Ese dinero tan alegremente gastado procede del grueso de la población. ¡Se podrían hacer tantas cosas útiles con esas sumas astronómicas dedicadas a Babel!

—Tienes razón. Estoy tentado de condenarlos sin más contemplaciones, pero ya sabes que me dejo llevar fácilmente por la misericordia. Dime algo que atenúe mi indignación y me permita mirarlos compasivamente.

—Muy amable de su parte, Excelencia. Sólo puedo decir esto: su excusa es la inconsciencia. Para ellos es obvio que el esperanto no es algo serio, ¿por qué estudiarlo entonces? Esto me recuerda lo que le dijeron a otro terrícola que puso en duda las convicciones entonces establecidas: «Es evidente que la Tierra es plana. Si vas a las Indias por el oeste, te caerás en el abismo».

—Parece extraño. Entre nosotros tan pronto como alguien hubiera expuesto una idea como ésa, la hubiéramos verificado.

—Cierto, pero los terrícolas viven en el temor. Cuando tienes miedo te aferras a cualquier cosa, a tus privilegios, tus convicciones, tus muletas. Para enfrentarte a la verdad tienes que renunciar a la idea de que ya sabes todo lo que hay que saber. Renunciar a esta idea implica abandonar la muleta de la condescendencia («yo sé que eso es ridículo») para verte a ti mismo en la desnudez de tu ignorancia («sólo repito lo que oigo, o digo lo primero que me viene a la mente, pero, en realidad, no sé nada de ese tema»). Corres el riesgo de descubrir que la realidad es distinta de la que tú imaginabas. ¿Y cómo puedes arriesgarte a abandonar tus muletas cuando en lo más profundo de ti mismo te sientes pequeño y débil, si no tienes la certeza poder mantenerte en pie? Hay algo conmovedor en esa inseguridad esencial de los habitantes humanos del planeta Tierra.

—¡Pobres terrícolas! El problema de la comunicación planetaria no se puede solucionar fácilmente en esas condiciones.

—No, no se puede. Lo siento, Excelencia, pero no veo qué podríamos hacer. He hablado a grandes rasgos, encontrará más detalles en mi informe escrito. Lo que no hay que olvidar es que la inseguridad psicológica conduce a los terrícolas a la presunción, y la presunción los ciega y no les permite ver la solución obvia, por ello se ven abocados a toda clase de dificultades, improvisaciones caras y complicadas, en resumen, a un absurdo sistema en el que la gente acepta la discriminación y la injusticia con resignación, haciendo constantemente esfuerzos desproporcionados para los resultados que obtienen. ¿Le he convencido, Excelencia? ¿Está de acuerdo conmigo en que la tesis de Gorogol es insostenible y que el problema no es la estupidez, sino una concatenación de elementos entre los que predomina el masoquismo?

—Sin duda alguna, hijo mío, sin duda alguna. Pero francamente, ¿no estás de acuerdo conmigo en que hay que ser muy estúpido para ser tan masoquista?



Colhido de: Por qué tus hijos deberían comer más coliflores y aprender un poco de esperanto — Aproximación a una lengua auxiliar y apátrida de Joan Català Piñón