sábado, 7 de novembro de 2015

A Sensação de Poder - Isaac Asimov (Conto Curto)

"Em meu conto "A Sensação de Poder", publicado em 1957, lancei mão de computadores de bolso, cerca de dez anos antes de tais computadores se tornassem realidade. Cheguei mesmo a considerar a possibilidade de eles contribuírem para que as pessoas acabassem perdendo a capacidade de fazer operações aritméticas à maneira antiga." (Introdução - Isaac Asimov)

A sensação de poder






Quando o velho técnico foi chamado pelo chefe dos programadores para uma reunião, não imaginava que o seu passatempo, descoberto por acaso semanas antes, iria causar tanto rebuliço. Nessa reunião, estavam presentes o presidente e generais, e o técnico nunca havia visto tanta gente importante na vida. Sem muita conversa, o programador perguntou ao técnico, na frente de todos:

— Quanto é nove vezes sete?

 Sessenta e três, – murmurou o técnico.

Foi um espanto. Todos sacaram seus computadores de bolso e conferiram a resposta. Seria o velho técnico um ilusionista? Como aquele homem podia copiar o resultado que o computador processava? Pediram explicações. O técnico falava pacientemente que havia 'bolado um jeito' de calcular usando o cérebro. Alguns debochavam, outros entendiam aquilo como uma piada de mau gosto. A seguir, pediram mais provas. Para grandes cálculos, o velho usava um bloco de papel. Extraordinário, um computador de papel! Mas o técnico se apressou em dizer que precisava do papel apenas para desenhar os números.

Os historiadores explicavam aos presentes que existia sim, havia muito tempo, uma forma de cálculo muito primitiva, e que os homens chegaram inclusive a fabricar computadores e outras coisas do zero. Era uma ciência perdida, mas provavelmente deviam ter existido estas técnicas. De alguma forma intuitiva, o velho técnico havia resgatado esta técnica, e inventou uma forma de cálculo que não fazia uso de computadores. Já os deputados e senadores debatiam com o presidente sobre a importância do invento: Por enquanto, não havia nenhuma utilidade, mas isso apontava o caminho que libertaria a máquina. A guerra, por exemplo: estavam em conflito contra um planeta vizinho, e era uma guerra de computador contra computador. A modernização dos computadores dava uma pequena vantagem, logo ultrapassada pelo outro lado, o que exigia um gasto exacerbado em tecnologia de ponta. Agora, com o 'cálculo humano' substituindo o computador – termo que se apressaram em batizar de grafíticos – a vantagem cresceria consideravelmente.

 Presidente – acrescentaram os deputados – quanto mais pudermos desenvolver estes grafíticos, mais poderemos desviar nosso esforço federal da produção de computadores e de sua manutenção. Assim que o cérebro humano assumir o poder, nossas melhores energias poderão ser canalizadas para procurar a paz, e a influência da guerra nos homens comuns será menor. Isso será mais vantajoso para o partido no poder, É claro.

O presidente ainda estava com o pé atrás. Não gostava muito da ideia de afrouxar as rédeas sobre os computadores, pois a mente humana era muito caprichosa. O computador sempre me apresenta a mesma resposta para o mesmo problema. Qual a garantia que temos de que com a mente humana seria assim? Ao que um cientista respondeu:  A mente humana apenas manipula os fatos. Não importa se a mente humana ou a máquina faz isso. Elas são apenas instrumentos.

A reunião acabou com um novo projeto aprovado. O Projeto Número, como acabou batizado, reuniu a nata dos programadores, cientistas e militares. E no meio deles, o velho técnico. Apesar de receber alto cargo e melhor salário, ele não se sentia muito à vontade com aqueles homens, e eles por sua vez não o tratavam em pé de igualdade. Em mais uma das intermináveis reuniões que participava todos os dias, ouviu dos cientistas que a meta era substituir os computadores, já que agora dominavam qualquer equação. Os militares já visionavam naves tripuladas, com humanos calculando grafíticos em tempo real e podendo inclusive corrigir trajetos ao passo que surgem novos problemas. Melhor: um deles sugeriu a ideia de mísseis tripulados por uma ou duas pessoas, o que aumentaria consideravelmente o poder de fogo dos armamentos. Computadores encarecem os projetos, e um míssil tripulado, controlando o voo, seria mais leve, ágil e mais inteligente. Isso daria uma vantagem que podia significar a vitória.

 Além disso, cavalheiros – um oficial retrucou – as necessidades da guerra nos obrigam a lembrar de uma coisa. Um homem é mais descartável que um computador. Mísseis tripulados podem ser lançados em maior número e sob circunstâncias que nenhum general empreenderia se usasse mísseis computadorizados.

Eles falaram sobre muitas outras coisas, mas o velho técnico não queria mais ouvir. Naquela noite, ele se recolheu mais cedo que o habitual, e na intimidade dos seus aposentos, elaborou cuidadosamente sua carta de despedida. Ela dizia o que se segue: "Quando comecei a estudar, isso não passava de um passatempo. Nada mais do que um agradável e prazeroso passatempo, um exercício para a cabeça. Quando o Projeto Número começou, achava que as pessoas fossem mais esclarecidas do que eu e que o que aprendemos poderia ser usado para ajudar a humanidade. Mas agora vejo que ele só será usado para a morte e a destruição. Não posso suportar a responsabilidade de ter inventado isso."

Depois, virou contra si o foco do despolarizador de proteínas e morreu instantaneamente.

Um enterro silencioso, sem muita pompa, seguiu-se na manhã do dia seguinte. Entre os presentes, o programador-chefe que havia descoberto o velho técnico. Mas aquilo já era passado: o técnico tinha dado sua contribuição, mas não era mais necessário. Agora que o projeto já estava em andamento, iria se desenvolver automaticamente até triunfar, tornando os mísseis tripulados uma realidade, juntamente com tantas outras coisas.

Nove vezes sete, pensou o programador com orgulho, sessenta e três. Não precisava mais que um computador lhe dissesse isso. Sua própria cabeça era um computador. E isso lhe dava uma fantástica sensação de poder.

***

ASIMOV, Isaac. Sonhos de Robô. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1991.

Galeria Henry Kuttner

Link para o Google+: https://photos.google.com/u/0/album/AF1QipNA1DT3GdDVGrew82gJqwAsDf0sk4f3k3Vnxrqe


terça-feira, 8 de setembro de 2015

A Marteformação da Terra — Herman Schmitz (Conto Digital Grátis)


Existe atualmente uma grande polêmica entre o livro em papel tradicional e o livro digital.

Quando me refiro ao livro digital, não se trata do livro de papel que foi digitalizado, isto é, copiado como nos tempos do xerox, e sim de um livro publicado para o meio digital.

Na verdade, esses e-books são somente alguns formatos de arquivos codificados de forma a poderem ser lidos em uma grande variedade de leitores, se adaptando, digamos assim, a cada classe de dispositivo de cada leitor, chamados e-readers.

Aqui no Brasil nós temos o formato Kindle que é um formato proprietário da maior livraria digital do planeta a Amazon. Temos também o LEV da Livraria Saraiva licenciado pela Odissey Francesa, e o KOBO da empresa canadense do mesmo nome, distribuído aqui pela Livraria Cultura.

Mas os livros digitais também podem ser lidos nos tablets e smartfones, bem como nos computadores, via instalação de um aplicativo ou a execução de um programa emulador universal.


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Bom, depois de tanto pensar na importância cada vez maior da literatura digital como transmissora do conhecimento e da arte em nossos dias, ousei entrar nesse escorregadio território do texto móvel, do livro flexível e portável, que se adapta como uma luva ao seu leitor eletrônico.

Como cada um pode ler com a sua letra, no tamanho que desejar, alguns aspectos da editoração parecem sumir nesse processo; a escolha de fontes, a hifenização e as quebras de páginas são desnecessárias nessa classe de livros.

Se isso parece facilitar, o mesmo não ocorre com os alinhamentos, a formatação de tabelas, as entrelinhas e a posição dos gráficos. Sem contar nos códigos do XHTML, nas cascatas de CSS e outras mumunhas técnicas que se deve utilizar na preparação e na compilação do arquivo final.

Publicar em e-Book não é uma tarefa fácil, assim como não é fácil editar um livro com qualidade gráfica. Mesmo utilizando-se os arquivos originais com que o livro foi composto na gráfica, não há muita vantagem, no sentido de que a formatação é completamente diferente e será necessário começar tudo praticamente do início.

Mas em compensação o resultado final agrada bastante, quando ele roda no dispositivo e mantém uma estética comparável ao livro de papel, embora seja levemente diferente daquele suporte.


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O resultado dessa experiência eu passo a compartir agora com vocês.

Selecionei um pequeno conto do livro, chamado A Marteformação da Terra, que foi inicialmente escrito como um recital místico-profético-alienígena e chegou a ser representado com a Banda Radicais Livres em umas três ocasiões se não me engano.

Baixe diretamente do meu DropBox.

O formato mais compatível é a versão em ePUB, a qual roda em quase todos os e-readers e também é a melhor opção para Tablets e PC's.

O link é este: https://www.dropbox.com/s/qa8tbp35oiml6s9/A%20Marteformacao%20da%20Terra%20-%20Herman%20Schmitz.epub?dl=0

Para os leitores no Kindle, o formato é o MOBI, então é só baixar nesse link: https://www.dropbox.com/s/ssw6ncxcq6giza9/A%20Marteformacao%20da%20Terra%20-%20Herman%20Schmitz.mobi?dl=0


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E para quem desejar o livro em papel, pode deixar uma mensagem aqui ou se estiver em Londrina poderá encontrar à venda na Vila Cultural Cemitério de Automóveis (Rua João Pessoa, 103-A), e também no Sebo Capricho da Rua Mato Grosso, 211.


Abraço a todos

Herman Schmitz. Londrina, 2015.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O Pedestre — Conto de Ray Bradbury

O Pedestre
Ray Bradbury


Penetrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de novembro, pousar os pés naquela sólida calçada de concreto, pisar nas fendas de mato, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer. Ficaria numa esquina de um cruzamento, olhando as calçadas enluaradas nas quatro direções, decidindo por onde ir, mas realmente, não faria diferença; estava sozinho, neste mundo de 2053, ou, como se estivesse só, e com uma decisão final tomada, um caminho escolhido, sairia andando, soltando rastros de ar congelado à sua frente, como a fumaça de um cigarro.

Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com suas janelas escuras, e não era diferente de caminhar por um cemitério onde só o mais fraco luzir de um vagalume como que tremeluzia por detrás das janelas. Súbitos espectros acinzentados pareciam manifestar-se sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-tumba ainda estava aberta.

O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, pés sem fazer ruído na calçada irregular. Há muito, prudentemente, passara a usar sapatos de tênis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam sua caminhada com seus latidos, se usasse calçado com sola de couro, e luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, e toda uma rua sobressaltar-se com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de novembro.

Nesta noite, em particular, começou sua jornada para o oeste rumo ao mar, invisível. Havia um bom frio cristalino, no ar; cortava o nariz e fazia os pulmões arderem por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava seu calçado macio empurrar delicadamente as folhas de outono, satisfeito, e assobiava frio e baixinho, entredentes, ocasionalmente arrancando uma folha, de passagem, examinando o desenho esqueletal, às poucas lâmpadas, enquanto ia adiante, cheirando seu odor enferrujado.

— Ó de casa — ele murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava. — O que está passando hoje no Canal 4; Canal 7; Canal 9? Por onde estão correndo os "cowboys", e onde está a Cavalaria dos Estados Unidos, para sair daquela colina, e salvar a situação?

A rua estava silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, em meio a um campo. Fechou os olhos, e ficou bem quieto, congelado, e podia imaginar-se no meio de uma planície, um deserto Americano, sem ventos, inverno, sem casa nenhuma num raio de mil milhas, e só leitos de rios, as ruas, para companhia.

— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando para seu relógio de pulso. — Oito e meia? Hora de uma dúzia de assassinatos diversos? Uma charada? Um musical? Um comediante levando um tombo?

Aquilo foi um ruído de dentro de uma casa à luz da lua? Hesitou, mas continuou, quando nada mais se notou. Tropeçou numa irregularidade maior da calçada. O cimento estava desaparecento, sob as flores e o mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa andando, nunca, nem uma só vez.

Chegou a um trevo, deserto, onde duas estradas principais cruzavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insetos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo de seus escapamentos, deslizavam para casa, nas mais diversas direções. Mas agora, estas estradas, eram como rios temporários no verão, só pedra, leito, e luar.

Virou por uma rua secundária, fazendo a volta para casa. Estava a um quarteirão de seu destino, quando aquele carro solitário virou uma esquina, repentinamente, e acendeu um forte cone de luz branca sobre ele. Ficou em transe, não muito diferente de uma mariposa, atordoada pela iluminação, e então, atraído para ela.

Uma voz metálica dirigiu-se a ele:

— Fique parado. Fique onde está! Não se mova!

Ele parou.

— Erga as mãos!

— Mas... — ele falou.

— Mãos para cima! Ou atiramos!

A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava desaparecendo; não havia necessidade de polícia, exceto este carro solitário vagando e vagando pelas ruas desertas.

— Seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte em seus olhos.

— Leonard Mead — respondeu.

— Mais alto!

— Leonard Mead!

— Negócio, ou profissão?

— Acho que me pode chamar de escritor.

— Sem profissão — disse o carro de polícia, como se falando sozinho. A luz mantinha-o transfixado como um espécime de museu, agulha espetada no meio do peito.

— Pode-se dizer que sim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Não se vendiam mais livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-tumbas, à noite, ele pensou. Os túmulos, mal-iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas sentavam-se como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca de fato tocando a eles.

— Sem profissão — disse a voz de vitrola, chiando. — Que está fazendo aqui fora?

— Andando — disse Leonard Mead.

— Andando!

— Só andando — ele disse, simplesmente, mas seu rosto gelou.

— Andando, só andando, andando?

— Sim, senhor.

— Andando para onde? Para que?

— Para tomar ar. Andando para ver.

— Seu endereço.

— Onze, Sul, rua Saint James.

— E há ar na sua casa; o senhor não tem um condicionador de ar, Sr. Mead?

— Sim.

— E tem uma tela para ver, na sua casa?

— Não.

— Não? — Houve uma interrupção cheia de estalidos, que em si era uma acusação.

— É casado, Sr. Mead?

— Não.

— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas eram cinzentas e caladas.

— Ninguém me queria — disse Leonard Mead, sorrindo.

— Não fale, a menos que seja interpelado!

Leonard Mead esperou, sob a fria noite.

— Apenas andando, Sr. Mead?

— Sim.

— Mas ainda não explicou com que propósito.

— Já expliquei; para tomar ar, e ver, e simplesmente, só para andar um pouco.

— Já fez isso muitas vezes?

— Toda noite, há anos.

O carro de polícia estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.

— Bem, Sr. Mead — disse.

— Isso é tudo? — ele perguntou, polidamente.

— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.

— Espere, não fiz nada!

— Entre.

— Eu protesto.

— Sr. Mead.

Ele caminhou como um homem subitamente bêbada. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para dentro. Como esperava, não havia ninguém no assento dianteiro, não havia ninguém no carro.

— Entre.

Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma jaulinha escura, com barras. Cheirava a aço rebitado. Cheirava a anti-séptico forte; cheirava a coisa muito limpa, e dura, e metálica. Não havia nada macio, ali.

— Se você tivesse uma esposa, para dar-lhe um álibi — disse a voz de aço. — Mas...

— Para onde está me levando?

O carro hesitou, ou melhor, deu um estalido e um zunido, como se a informação, em algum lugar, estivesse sendo dada por cartões perfurados, e olhos elétricos. — Ao Centro Psiquiátrico para Pesquisa de Tendências Regressivas.

Ele entrou. A porta fechou com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, em meio à noite, com as lanternas acesas.
Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as suas luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.

— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.

Ninguém respondeu.

O carro foi pelas ruas vazias de leitos de rios, afastando-se, deixando as ruas vazias, com suas calçadas vazias, sem som nem movimento, por todo o resto da fria noite de novembro.





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Extraído de E de Espaço © 1978 by Hemus-Livraria Editora Ltda.
Título original: The Pedestrian © 1951 by Ray Bradbury
Ilustração de Joseph Mugnaini

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A Mente Alienígena — Philip K. Dick (Conto)


A MENTE ALIENÍGENA
Philip K. Dick



Quieto, nas profundezas de sua câmara Theta, ouviu um som fraco e depois a sensivoz.

– CINCO MINUTOS

– De acordo – disse e se esforçou para sair do sono profundo.

Tinha cinco minutos para ajustar o curso da nave, algo havia dado errado no sistema de autocontrole.

Um erro seu? Não era provável, nunca cometia erros. Jason Bedford cometer erros? Jamais!

Enquanto se dirigia cambaleante ao módulo de controle, viu que Norman, que havia sido enviado para divertí-lo, também estava acordado. O gato flutuava lentamente em circulos, dando pequenos golpes com as patas em uma lapiseira que alguem havia esquecido solta.

Estranho, pensou Bedford. Achava que estaria inconsciente. Reviu as leituras do curso da nave.

Impossível! Um quinto de parsec da direção de Sirio. Isso somaria uma semana na sua viagem.

Com precisão reajustou os controles, depois enviou um sinal de alerta a Meknos III, seu destino.

– Problemas? – Perguntou o operador meknosiano. A voz era seca e fria, um som monótono que fazia Bedford pensar em serpentes.

Explicou sua situação.

– Precisamos da vacina, disse o meknosiano. Trate de manter seu curso.

Norman, o gato, que flutuava majestosamente junto ao módulo de controle, estendeu uma pata e tocou aleatoriamente o painel. Os circuitos acionados soltaram tênues bips e a nave mudou de curso.

– Foi assim que você fez, disse Bedford. Me humilhou diante de um alienígena. Me reduziu a um imbecil.

Agarrou o gato e o apertou forte.

– O que foi este som estranho? Perguntou o meknosiano. Uma espécie de lamento.

Bedford respondeu sereno.

– Não foi nada. Esqueça o que ouviu.

Cortou o rádio, levou o corpo do gato para o compartimento de lixo e o ejetou no espaço. No instante seguinte regressou a câmara theta e uma vez mais adormeceu. Desta vez ninguem mexeria nos controles. Dormiu em paz. Quando a nave pousou em Meknos III, o chefe da equipe médica alienigena o recebeu com um pedido curioso.

– Gostariamos de ver seu mascote.

– Não tenho mascote, disse Bedford. O que era verdade.

– Segundo a mensagem que nos enviaram…

– Realmente não é um problema seu, disse Bedford. Vocês já tem a vacina, vou partir agora.

– A segurança de qualquer forma de vida é assunto nosso – disse o meknosiano. – Revistaremos sua nave.

– Em busca de um gato que não existe – falou Bedford.

A busca resultou inútil. Com impaciência Bedford observou como as criaturas alienigenas procuravam dentro de cada depósito de armazenamento e cada corredor da nave.

Por infelicidade, os meknosianos encontraram dez sacos de comida desidratada para gatos. Em seu próprio idioma, iniciou-se uma prolongada discussão.

– Tenho permissão para voltar para a Terra? – perguntou Bedford áspero. – Tenho um horário para cumprir.

O que diziam ou pensavam os alienigenas, pouco lhe importava, só desejava poder voltar para sua silenciosa câmara Theta e para o sono profundo.

– Terá que passar pelo procedimento de descontaminação – disse o chefe médico meknosiano. – Para que nenhum virus…

– Sei disso, disse Bedford. Podem começar.



Mais tarde quando a descontaminação se completou e preparava para acionar a partida de volta à nave, ouviu o rádio. Era um meknosiano, qualquer um, pois para Bedford eram todos iguais.

– Como se chamava o gato? Perguntou o meknosiano.

– Norman, disse Bedford e pressionou a partida. A nave disparou para cima e ele sorriu.

Não sorriu contudo ao descobrir que faltava seu gerador de energia para a câmara Theta. Tão pouco sorriu quando não conseguiu localizar a unidade de reposição.

Teria esquecido de trazê-la? Não, não poderia. Eles haviam retirado-a.



Dois anos para voltar a Terra.

Dois anos de consciência plena, privado do sonho Theta, dois anos sentado ou flutuando ou - como havia visto em holofilmes militares de entretenimento - enroscado em um canto, totalmente louco.

Lançou um pedido de rádio solicitando retorno a Meknos III.

Nenhuma resposta.

Sentado no módulo de controle, golpeou com a mão o pequeno computador interno e disse: -Minha câmara Theta não funciona, a sabotaram. O que me sugere fazer durante dois anos?

FITAS DE VÍDEO ENTRETENIMENTO DE EMERGÊNCIA'

– Certo. Tinha esquecido delas. Obrigado.

Apertou o botão indicado e o compartimento de fitas abriu deslizando.

Nenhuma fita. Apenas um brinquedo para gatos, uma bolsinha em miniatura para apertar, que haviam incluido para Norman e que nunca utilizara. Os outros compartimentos estavam vazios.

A mente alienígena era cruel, pensou Bedford. Misteriosa e cruel.

Pôs para funcionar o gravador de áudio da nave e com calma, disse com a maior convicção possível.

– O que farei será dedicar meus próximos dois anos a uma rotina diária. Primeiro serão as comidas. Passarei todo tempo possível planejando, preparando, comendo e desfrutando de pratos deliciosos. Durante o tempo que tenho daqui por diante, provarei toda combinação possível de viveres.

Dirigiu-se ao armário de alimentos.

Enquanto caia diante do armário completamente cheio, abarrotado, prateleira por prateleira, de embalagens idênticas, pensou. Por outro lado, não havia muito o que fazer com uma provisão de dois anos de comida para gatos. Em relação a variedade, seriam todos do mesmo sabor?

Eram todos do mesmo sabor.


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Título Original: The Alien Mind, 1981.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A Cidade no Mar — Edgar Allan Poe (Poema)


A cidade no mar
Edgar Allan Poe



Olhai! a Morte edificou seu trono
numa estranha cidade solitária
por entre as sombras do longínquo oeste.
Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores,
foram todos buscar repouso eterno.
Seus monumentos, catedrais e torres (torres
que o tempo rói e não vacilam!)
em nada se parecem com os humanos.
E em volta, pelos ventos olvidadas,
olhando o firmamento, silenciosas
e calmas, dormem águas melancólicas.

Ah! luz nenhuma cai do céu sagrado
sobre a cidade, em sua imensa noite.
Mas um clarão que vem do oceano lívido
invade os torreões, silentemente,
e sobe, iluminando capitéis,
pórticos régios, cúpulas e cimos,
templos e babilônicas muralhas;
sobe aos arcos escuros e esquecidos
onde o granito se fecunda em flores;
sobe aos templos magníficos, sem conta,
onde os frios se enroscam e entretecem
de vinhedos, violetas, sempre-vivas.
Olhando o firmamento, silenciosas,
calmas, dormem as águias melancólicas.
Torreões e sombras tanto se confundem
que é tudo como solto nos espaços.
E a Morte, do alto de soberba torre,
contempla, gigantesca, o panorama.
Lá, os sepulcros e os templos se escancaram
mesmo ao nível das águas luminosas;
mas não pode a riqueza portentosa
dos ídolos com olhos de diamante,
nem das joias que riem sobre os mortos,
tirar as vagas de seu leito imóvel;
pois, ai! nem leve movimento ondula
esse imenso deserto cristalino!
Nem ondas falam de possíveis ventos
sobre mares distantes, mais felizes;
ondas não contam que existiram ventos
em mar de menos espantosa calma.



Mas, vede! Um frêmito percorre os ares.
Uma onda... Fez-se ali um movimento!
E dir-se-ia que as torres vacilaram
e afundaram de leve na água turva,
abrindo com seus cumes, debilmente,
um vazio nos céus enevoados.
As ondas têm, agora, luz mais rubra,
as horas fluem, lânguidas e fracas.
E quando, entre gemidos sobre-humanos,
a cidade submersa for fixar-se no fundo,
o Inferno, erguido de mil tronos,
curvar-se-á, reverente.

Pen and ink Dulac's illustration for ‘The City in the Sea’ from Edgar Allan Poe’s “The Bells and Other Poems” (1912).

sábado, 1 de agosto de 2015