terça-feira, 8 de setembro de 2015

A Marteformação da Terra — Herman Schmitz (Conto Digital Grátis)


Existe atualmente uma grande polêmica entre o livro em papel tradicional e o livro digital.

Quando me refiro ao livro digital, não se trata do livro de papel que foi digitalizado, isto é, copiado como nos tempos do xerox, e sim de um livro publicado para o meio digital.

Na verdade, esses e-books são somente alguns formatos de arquivos codificados de forma a poderem ser lidos em uma grande variedade de leitores, se adaptando, digamos assim, a cada classe de dispositivo de cada leitor, chamados e-readers.

Aqui no Brasil nós temos o formato Kindle que é um formato proprietário da maior livraria digital do planeta a Amazon. Temos também o LEV da Livraria Saraiva licenciado pela Odissey Francesa, e o KOBO da empresa canadense do mesmo nome, distribuído aqui pela Livraria Cultura.

Mas os livros digitais também podem ser lidos nos tablets e smartfones, bem como nos computadores, via instalação de um aplicativo ou a execução de um programa emulador universal.


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Bom, depois de tanto pensar na importância cada vez maior da literatura digital como transmissora do conhecimento e da arte em nossos dias, ousei entrar nesse escorregadio território do texto móvel, do livro flexível e portável, que se adapta como uma luva ao seu leitor eletrônico.

Como cada um pode ler com a sua letra, no tamanho que desejar, alguns aspectos da editoração parecem sumir nesse processo; a escolha de fontes, a hifenização e as quebras de páginas são desnecessárias nessa classe de livros.

Se isso parece facilitar, o mesmo não ocorre com os alinhamentos, a formatação de tabelas, as entrelinhas e a posição dos gráficos. Sem contar nos códigos do XHTML, nas cascatas de CSS e outras mumunhas técnicas que se deve utilizar na preparação e na compilação do arquivo final.

Publicar em e-Book não é uma tarefa fácil, assim como não é fácil editar um livro com qualidade gráfica. Mesmo utilizando-se os arquivos originais com que o livro foi composto na gráfica, não há muita vantagem, no sentido de que a formatação é completamente diferente e será necessário começar tudo praticamente do início.

Mas em compensação o resultado final agrada bastante, quando ele roda no dispositivo e mantém uma estética comparável ao livro de papel, embora seja levemente diferente daquele suporte.


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O resultado dessa experiência eu passo a compartir agora com vocês.

Selecionei um pequeno conto do livro, chamado A Marteformação da Terra, que foi inicialmente escrito como um recital místico-profético-alienígena e chegou a ser representado com a Banda Radicais Livres em umas três ocasiões se não me engano.

Baixe diretamente do meu DropBox.

O formato mais compatível é a versão em ePUB, a qual roda em quase todos os e-readers e também é a melhor opção para Tablets e PC's.

O link é este: https://www.dropbox.com/s/qa8tbp35oiml6s9/A%20Marteformacao%20da%20Terra%20-%20Herman%20Schmitz.epub?dl=0

Para os leitores no Kindle, o formato é o MOBI, então é só baixar nesse link: https://www.dropbox.com/s/ssw6ncxcq6giza9/A%20Marteformacao%20da%20Terra%20-%20Herman%20Schmitz.mobi?dl=0


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E para quem desejar o livro em papel, pode deixar uma mensagem aqui ou se estiver em Londrina poderá encontrar à venda na Vila Cultural Cemitério de Automóveis (Rua João Pessoa, 103-A), e também no Sebo Capricho da Rua Mato Grosso, 211.


Abraço a todos

Herman Schmitz. Londrina, 2015.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O Pedestre — Conto de Ray Bradbury

O Pedestre
Ray Bradbury


Penetrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de novembro, pousar os pés naquela sólida calçada de concreto, pisar nas fendas de mato, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer. Ficaria numa esquina de um cruzamento, olhando as calçadas enluaradas nas quatro direções, decidindo por onde ir, mas realmente, não faria diferença; estava sozinho, neste mundo de 2053, ou, como se estivesse só, e com uma decisão final tomada, um caminho escolhido, sairia andando, soltando rastros de ar congelado à sua frente, como a fumaça de um cigarro.

Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com suas janelas escuras, e não era diferente de caminhar por um cemitério onde só o mais fraco luzir de um vagalume como que tremeluzia por detrás das janelas. Súbitos espectros acinzentados pareciam manifestar-se sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-tumba ainda estava aberta.

O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, pés sem fazer ruído na calçada irregular. Há muito, prudentemente, passara a usar sapatos de tênis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam sua caminhada com seus latidos, se usasse calçado com sola de couro, e luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, e toda uma rua sobressaltar-se com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de novembro.

Nesta noite, em particular, começou sua jornada para o oeste rumo ao mar, invisível. Havia um bom frio cristalino, no ar; cortava o nariz e fazia os pulmões arderem por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava seu calçado macio empurrar delicadamente as folhas de outono, satisfeito, e assobiava frio e baixinho, entredentes, ocasionalmente arrancando uma folha, de passagem, examinando o desenho esqueletal, às poucas lâmpadas, enquanto ia adiante, cheirando seu odor enferrujado.

— Ó de casa — ele murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava. — O que está passando hoje no Canal 4; Canal 7; Canal 9? Por onde estão correndo os "cowboys", e onde está a Cavalaria dos Estados Unidos, para sair daquela colina, e salvar a situação?

A rua estava silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, em meio a um campo. Fechou os olhos, e ficou bem quieto, congelado, e podia imaginar-se no meio de uma planície, um deserto Americano, sem ventos, inverno, sem casa nenhuma num raio de mil milhas, e só leitos de rios, as ruas, para companhia.

— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando para seu relógio de pulso. — Oito e meia? Hora de uma dúzia de assassinatos diversos? Uma charada? Um musical? Um comediante levando um tombo?

Aquilo foi um ruído de dentro de uma casa à luz da lua? Hesitou, mas continuou, quando nada mais se notou. Tropeçou numa irregularidade maior da calçada. O cimento estava desaparecento, sob as flores e o mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa andando, nunca, nem uma só vez.

Chegou a um trevo, deserto, onde duas estradas principais cruzavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insetos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo de seus escapamentos, deslizavam para casa, nas mais diversas direções. Mas agora, estas estradas, eram como rios temporários no verão, só pedra, leito, e luar.

Virou por uma rua secundária, fazendo a volta para casa. Estava a um quarteirão de seu destino, quando aquele carro solitário virou uma esquina, repentinamente, e acendeu um forte cone de luz branca sobre ele. Ficou em transe, não muito diferente de uma mariposa, atordoada pela iluminação, e então, atraído para ela.

Uma voz metálica dirigiu-se a ele:

— Fique parado. Fique onde está! Não se mova!

Ele parou.

— Erga as mãos!

— Mas... — ele falou.

— Mãos para cima! Ou atiramos!

A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava desaparecendo; não havia necessidade de polícia, exceto este carro solitário vagando e vagando pelas ruas desertas.

— Seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte em seus olhos.

— Leonard Mead — respondeu.

— Mais alto!

— Leonard Mead!

— Negócio, ou profissão?

— Acho que me pode chamar de escritor.

— Sem profissão — disse o carro de polícia, como se falando sozinho. A luz mantinha-o transfixado como um espécime de museu, agulha espetada no meio do peito.

— Pode-se dizer que sim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Não se vendiam mais livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-tumbas, à noite, ele pensou. Os túmulos, mal-iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas sentavam-se como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca de fato tocando a eles.

— Sem profissão — disse a voz de vitrola, chiando. — Que está fazendo aqui fora?

— Andando — disse Leonard Mead.

— Andando!

— Só andando — ele disse, simplesmente, mas seu rosto gelou.

— Andando, só andando, andando?

— Sim, senhor.

— Andando para onde? Para que?

— Para tomar ar. Andando para ver.

— Seu endereço.

— Onze, Sul, rua Saint James.

— E há ar na sua casa; o senhor não tem um condicionador de ar, Sr. Mead?

— Sim.

— E tem uma tela para ver, na sua casa?

— Não.

— Não? — Houve uma interrupção cheia de estalidos, que em si era uma acusação.

— É casado, Sr. Mead?

— Não.

— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas eram cinzentas e caladas.

— Ninguém me queria — disse Leonard Mead, sorrindo.

— Não fale, a menos que seja interpelado!

Leonard Mead esperou, sob a fria noite.

— Apenas andando, Sr. Mead?

— Sim.

— Mas ainda não explicou com que propósito.

— Já expliquei; para tomar ar, e ver, e simplesmente, só para andar um pouco.

— Já fez isso muitas vezes?

— Toda noite, há anos.

O carro de polícia estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.

— Bem, Sr. Mead — disse.

— Isso é tudo? — ele perguntou, polidamente.

— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.

— Espere, não fiz nada!

— Entre.

— Eu protesto.

— Sr. Mead.

Ele caminhou como um homem subitamente bêbada. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para dentro. Como esperava, não havia ninguém no assento dianteiro, não havia ninguém no carro.

— Entre.

Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma jaulinha escura, com barras. Cheirava a aço rebitado. Cheirava a anti-séptico forte; cheirava a coisa muito limpa, e dura, e metálica. Não havia nada macio, ali.

— Se você tivesse uma esposa, para dar-lhe um álibi — disse a voz de aço. — Mas...

— Para onde está me levando?

O carro hesitou, ou melhor, deu um estalido e um zunido, como se a informação, em algum lugar, estivesse sendo dada por cartões perfurados, e olhos elétricos. — Ao Centro Psiquiátrico para Pesquisa de Tendências Regressivas.

Ele entrou. A porta fechou com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, em meio à noite, com as lanternas acesas.
Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as suas luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.

— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.

Ninguém respondeu.

O carro foi pelas ruas vazias de leitos de rios, afastando-se, deixando as ruas vazias, com suas calçadas vazias, sem som nem movimento, por todo o resto da fria noite de novembro.





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Extraído de E de Espaço © 1978 by Hemus-Livraria Editora Ltda.
Título original: The Pedestrian © 1951 by Ray Bradbury
Ilustração de Joseph Mugnaini

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A Mente Alienígena — Philip K. Dick (Conto)


A MENTE ALIENÍGENA
Philip K. Dick



Quieto, nas profundezas de sua câmara Theta, ouviu um som fraco e depois a sensivoz.

– CINCO MINUTOS

– De acordo – disse e se esforçou para sair do sono profundo.

Tinha cinco minutos para ajustar o curso da nave, algo havia dado errado no sistema de autocontrole.

Um erro seu? Não era provável, nunca cometia erros. Jason Bedford cometer erros? Jamais!

Enquanto se dirigia cambaleante ao módulo de controle, viu que Norman, que havia sido enviado para divertí-lo, também estava acordado. O gato flutuava lentamente em circulos, dando pequenos golpes com as patas em uma lapiseira que alguem havia esquecido solta.

Estranho, pensou Bedford. Achava que estaria inconsciente. Reviu as leituras do curso da nave.

Impossível! Um quinto de parsec da direção de Sirio. Isso somaria uma semana na sua viagem.

Com precisão reajustou os controles, depois enviou um sinal de alerta a Meknos III, seu destino.

– Problemas? – Perguntou o operador meknosiano. A voz era seca e fria, um som monótono que fazia Bedford pensar em serpentes.

Explicou sua situação.

– Precisamos da vacina, disse o meknosiano. Trate de manter seu curso.

Norman, o gato, que flutuava majestosamente junto ao módulo de controle, estendeu uma pata e tocou aleatoriamente o painel. Os circuitos acionados soltaram tênues bips e a nave mudou de curso.

– Foi assim que você fez, disse Bedford. Me humilhou diante de um alienígena. Me reduziu a um imbecil.

Agarrou o gato e o apertou forte.

– O que foi este som estranho? Perguntou o meknosiano. Uma espécie de lamento.

Bedford respondeu sereno.

– Não foi nada. Esqueça o que ouviu.

Cortou o rádio, levou o corpo do gato para o compartimento de lixo e o ejetou no espaço. No instante seguinte regressou a câmara theta e uma vez mais adormeceu. Desta vez ninguem mexeria nos controles. Dormiu em paz. Quando a nave pousou em Meknos III, o chefe da equipe médica alienigena o recebeu com um pedido curioso.

– Gostariamos de ver seu mascote.

– Não tenho mascote, disse Bedford. O que era verdade.

– Segundo a mensagem que nos enviaram…

– Realmente não é um problema seu, disse Bedford. Vocês já tem a vacina, vou partir agora.

– A segurança de qualquer forma de vida é assunto nosso – disse o meknosiano. – Revistaremos sua nave.

– Em busca de um gato que não existe – falou Bedford.

A busca resultou inútil. Com impaciência Bedford observou como as criaturas alienigenas procuravam dentro de cada depósito de armazenamento e cada corredor da nave.

Por infelicidade, os meknosianos encontraram dez sacos de comida desidratada para gatos. Em seu próprio idioma, iniciou-se uma prolongada discussão.

– Tenho permissão para voltar para a Terra? – perguntou Bedford áspero. – Tenho um horário para cumprir.

O que diziam ou pensavam os alienigenas, pouco lhe importava, só desejava poder voltar para sua silenciosa câmara Theta e para o sono profundo.

– Terá que passar pelo procedimento de descontaminação – disse o chefe médico meknosiano. – Para que nenhum virus…

– Sei disso, disse Bedford. Podem começar.



Mais tarde quando a descontaminação se completou e preparava para acionar a partida de volta à nave, ouviu o rádio. Era um meknosiano, qualquer um, pois para Bedford eram todos iguais.

– Como se chamava o gato? Perguntou o meknosiano.

– Norman, disse Bedford e pressionou a partida. A nave disparou para cima e ele sorriu.

Não sorriu contudo ao descobrir que faltava seu gerador de energia para a câmara Theta. Tão pouco sorriu quando não conseguiu localizar a unidade de reposição.

Teria esquecido de trazê-la? Não, não poderia. Eles haviam retirado-a.



Dois anos para voltar a Terra.

Dois anos de consciência plena, privado do sonho Theta, dois anos sentado ou flutuando ou - como havia visto em holofilmes militares de entretenimento - enroscado em um canto, totalmente louco.

Lançou um pedido de rádio solicitando retorno a Meknos III.

Nenhuma resposta.

Sentado no módulo de controle, golpeou com a mão o pequeno computador interno e disse: -Minha câmara Theta não funciona, a sabotaram. O que me sugere fazer durante dois anos?

FITAS DE VÍDEO ENTRETENIMENTO DE EMERGÊNCIA'

– Certo. Tinha esquecido delas. Obrigado.

Apertou o botão indicado e o compartimento de fitas abriu deslizando.

Nenhuma fita. Apenas um brinquedo para gatos, uma bolsinha em miniatura para apertar, que haviam incluido para Norman e que nunca utilizara. Os outros compartimentos estavam vazios.

A mente alienígena era cruel, pensou Bedford. Misteriosa e cruel.

Pôs para funcionar o gravador de áudio da nave e com calma, disse com a maior convicção possível.

– O que farei será dedicar meus próximos dois anos a uma rotina diária. Primeiro serão as comidas. Passarei todo tempo possível planejando, preparando, comendo e desfrutando de pratos deliciosos. Durante o tempo que tenho daqui por diante, provarei toda combinação possível de viveres.

Dirigiu-se ao armário de alimentos.

Enquanto caia diante do armário completamente cheio, abarrotado, prateleira por prateleira, de embalagens idênticas, pensou. Por outro lado, não havia muito o que fazer com uma provisão de dois anos de comida para gatos. Em relação a variedade, seriam todos do mesmo sabor?

Eram todos do mesmo sabor.


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Título Original: The Alien Mind, 1981.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A Cidade no Mar — Edgar Allan Poe (Poema)


A cidade no mar
Edgar Allan Poe



Olhai! a Morte edificou seu trono
numa estranha cidade solitária
por entre as sombras do longínquo oeste.
Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores,
foram todos buscar repouso eterno.
Seus monumentos, catedrais e torres (torres
que o tempo rói e não vacilam!)
em nada se parecem com os humanos.
E em volta, pelos ventos olvidadas,
olhando o firmamento, silenciosas
e calmas, dormem águas melancólicas.

Ah! luz nenhuma cai do céu sagrado
sobre a cidade, em sua imensa noite.
Mas um clarão que vem do oceano lívido
invade os torreões, silentemente,
e sobe, iluminando capitéis,
pórticos régios, cúpulas e cimos,
templos e babilônicas muralhas;
sobe aos arcos escuros e esquecidos
onde o granito se fecunda em flores;
sobe aos templos magníficos, sem conta,
onde os frios se enroscam e entretecem
de vinhedos, violetas, sempre-vivas.
Olhando o firmamento, silenciosas,
calmas, dormem as águias melancólicas.
Torreões e sombras tanto se confundem
que é tudo como solto nos espaços.
E a Morte, do alto de soberba torre,
contempla, gigantesca, o panorama.
Lá, os sepulcros e os templos se escancaram
mesmo ao nível das águas luminosas;
mas não pode a riqueza portentosa
dos ídolos com olhos de diamante,
nem das joias que riem sobre os mortos,
tirar as vagas de seu leito imóvel;
pois, ai! nem leve movimento ondula
esse imenso deserto cristalino!
Nem ondas falam de possíveis ventos
sobre mares distantes, mais felizes;
ondas não contam que existiram ventos
em mar de menos espantosa calma.



Mas, vede! Um frêmito percorre os ares.
Uma onda... Fez-se ali um movimento!
E dir-se-ia que as torres vacilaram
e afundaram de leve na água turva,
abrindo com seus cumes, debilmente,
um vazio nos céus enevoados.
As ondas têm, agora, luz mais rubra,
as horas fluem, lânguidas e fracas.
E quando, entre gemidos sobre-humanos,
a cidade submersa for fixar-se no fundo,
o Inferno, erguido de mil tronos,
curvar-se-á, reverente.

Pen and ink Dulac's illustration for ‘The City in the Sea’ from Edgar Allan Poe’s “The Bells and Other Poems” (1912).

sábado, 1 de agosto de 2015

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A Ilha dos Abençoados — Luciano de Samósata (Descrição)

A 17th-century fictional portrait of Lucian of Samosata by the English painter William Faithorne.

A ILHA DOS ABENÇOADOS


Com cerca de 800 quilômetros de comprimento, no Oceano Atlântico. Terra de um povo que se veste de cor purpura com belas teias de aranha. Apesar de não terem corpo, conseguem mover-se e falar como os seres mortais. Tem a aparência de espíritos nus, cada um deles coberto por uma teia de aranha que lhes da forma ao corpo.

A ilha e comprida e plana, governada por Radamantus, natural de Creta. A capital da ilha, também chamada Abençoada, foi construída em ouro com muralhas de esmeralda. Tem sete portas fabricadas a partir de uma unica peca de canela, e as estradas que atravessam a cidade são de marfim. Ha templos a todo o tipo de deuses, feitos de berilo e contendo altares elevados de ametista, usados para sacrifícios humanos: não se aconselham os visitantes especialmente impressionáveis pela visão de sangue a assistir a cerimonia. Em torno da cidade corre um rio de um perfume requintado, com 15 metros de profundidade e facilmente navegável, sete rios de leite e oito de vinho, e há fontes de água, mel e perfume. Os banhos públicos da cidade são grandes edifícios de cristal, aquecidos com canela; as banheiras contêm água e orvalho quente.

Os viajantes não encontrarão na Ilha dos Abençoados a escuridão da noite ou a luz do dia a que estão habituados. A ilha esta permanentemente imersa na penumbra, como se o sol ainda não tivesse nascido. Aqui e sempre Primavera e só sopra um vento, o zéfiro. O pais e rico em todo o tipo de flores e todo o tipo de plantas; as videiras pro duzem cachos de uvas 12 vezes por ano; as macieiras, as romãzeiras e outras árvores dão frutos 13 vezes por ano, porque no mês de Minossa produzem duas vezes. O trigo produz não só feixes já prontos, mas também belíssimos pães, que crescem nas extremidades da planta como cogumelos.


Luciano de Samósata, História Verdadeira, séc. II.

domingo, 28 de junho de 2015

Umbriel — Donald A. Wollheim (Cuento Corto)

Umbriel

Donald A. Wollheim



Formulario de los archivos del Departamento de Navegación Interlunar del Gobierno de Oberon:

En respuesta a las repetidas solicitudes de los ciudadanos con ansias espaciales respecto a por qué nuestras naves siempre evitan el segundo satélite del sistema de Urano, el documento siguiente es la evidencia. Se trata de un resumen del Informe de K´yaldiu, un pionero astronauta de varias generaciones atrás.


"Mi nave se deslizó a través de la atmósfera de Umbriel sin grandes dificultades. Era mucho más espesa y cálida de lo que había experimentado con anterioridad. Después de aterrizar, mis instrumentos registraron una temperatura de 60 grados bajo cero Fahrenheit (valor terrestre).

"Posé la nave sobre una superficie suave de césped verde (o así me pareció en mi primera ojeada por la helada escotilla). Después de desconectar los cohetes de propulsión, me dispuse a pisar tierra a fin de reclamar el territorio para Oberon..., siempre que no hubiera habitantes.

"Al bajar, mi olfato se vio desagradablemente sorprendido por un olor nauseabundo. El aire era espeso, pesado, caliente, y de muy mal olor. Apenas era respirable, y del suelo ascendía un calor insoportable, que no tardó en coartar mis energías.

"Tan pronto como asenté las plantas en el suelo, mis pies se hundieron en la tierra y tuve necesidad de empujarlas hacia arriba, movimiento que se vio acompañado por el más desconcertante ruido de absorción. El suelo semejaba uno de los semilíquidos que nuestros científicos obtienen en sus laboratorios cuando consiguen temperaturas suficientemente elevadas para fundir el hierro.

"Durante unos instantes conseguí avanzar. Después, una sección del suelo se abultó ante mí y mientras lo estaba contemplando, se convirtió en una cúpula hemisférica que reventó. Surgió una nube de vapor tóxico, que comenzó a girar a mi alrededor. Parecía una burbuja muy peculiar.

"Cuando llegué a una roca amarillenta y ahuecada, que se alzaba aislada sobre el terreno, me detuve a examinarla. Estaba compuesta de una substancia dura, brillante y porosa, muy diferente de todo lo que produce la Naturaleza. Además, la roca desprendía una sensación completamente antinatural.

"Percibí un movimiento a mis espaldas y al volverme divisé a uno de los seres nativos de Umbriel. Surgiendo de un agujero del terreno, vi un objeto blanco, sin forma, que no poseía brazos, piernas, ojos, orejas ni otros apéndices exteriores. Tenía boca y un cuerpo tubular de varios centímetros de longitud. Y algo más.

"Contemplé con atención lo que hacía. Y en aquel momento, lo reconocí. Entonces comprendí qué era aquella esfera en la que yo me hallaba. ¡Porque aquel ser estaba comiéndose el suelo! ¡Estaba devorando el verde césped con considerable apetito! ¡Era un gusano, un gusano de tumba de enormes proporciones! ¡Y sólo podía estar comiendo la carne de un ser muerto!

"Cuando regresé a mi «ovoide», lo encontré medio hundido en el podrido terreno. Trepé a su interior, cerré la escotilla y despegué con una explosión de mis cohetes de pólvora que iluminó todo el paisaje.

"Jamás volverá ningún ser con lúcida razón a Umbriel. Porque no es un globo natural..., es la retorcida carcasa de un animal muerto, un enorme monstruo de algún mundo colosal, que voló al espacio. Debió de ir flotando por el vacío hasta que fue capturado por Urano. Y ahora que se halla recalentado por el calor desprendido por el lejano Sol y tan cerca de Urano, ha empezado a corromperse, a pudrirse, y los gusanos han salido de las profundidades de su cuerpo para alimentarse.

"Permanecerá eternamente aislado, ya que los gusanos no son los únicos seres que moran allí. En torno a la superficie del gusano vi un cinturón de metal con unas extrañas estrías. En algún lugar de las entrañas, en los intestinos de aquel cadáver-mundo corrompido, habita la inteligencia, una raza de increíble horror que se alimenta con los cuerpos de los gusanos, de la misma manera que éstos se alimentan con la carroña que es el planeta.



"Una raza de insoportable hedor, sumamente repulsiva, habita allí. Y nada saben de otros mundos. ¡Ojalá no lleguen a saberlo nunca!"


***

Umbriel, © 1936 by Shepherd & Wollheim. Traducido por Miguel Jiménez en Las mejores historias de horror, recopiladas por Forrest Ackerman, Libro Amigo 94, Editorial Bruguera S. A., 1969.