segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A Mente Alienígena — Philip K. Dick (Conto)


A MENTE ALIENÍGENA
Philip K. Dick



Quieto, nas profundezas de sua câmara Theta, ouviu um som fraco e depois a sensivoz.

– CINCO MINUTOS

– De acordo – disse e se esforçou para sair do sono profundo.

Tinha cinco minutos para ajustar o curso da nave, algo havia dado errado no sistema de autocontrole.

Um erro seu? Não era provável, nunca cometia erros. Jason Bedford cometer erros? Jamais!

Enquanto se dirigia cambaleante ao módulo de controle, viu que Norman, que havia sido enviado para divertí-lo, também estava acordado. O gato flutuava lentamente em circulos, dando pequenos golpes com as patas em uma lapiseira que alguem havia esquecido solta.

Estranho, pensou Bedford. Achava que estaria inconsciente. Reviu as leituras do curso da nave.

Impossível! Um quinto de parsec da direção de Sirio. Isso somaria uma semana na sua viagem.

Com precisão reajustou os controles, depois enviou um sinal de alerta a Meknos III, seu destino.

– Problemas? – Perguntou o operador meknosiano. A voz era seca e fria, um som monótono que fazia Bedford pensar em serpentes.

Explicou sua situação.

– Precisamos da vacina, disse o meknosiano. Trate de manter seu curso.

Norman, o gato, que flutuava majestosamente junto ao módulo de controle, estendeu uma pata e tocou aleatoriamente o painel. Os circuitos acionados soltaram tênues bips e a nave mudou de curso.

– Foi assim que você fez, disse Bedford. Me humilhou diante de um alienígena. Me reduziu a um imbecil.

Agarrou o gato e o apertou forte.

– O que foi este som estranho? Perguntou o meknosiano. Uma espécie de lamento.

Bedford respondeu sereno.

– Não foi nada. Esqueça o que ouviu.

Cortou o rádio, levou o corpo do gato para o compartimento de lixo e o ejetou no espaço. No instante seguinte regressou a câmara theta e uma vez mais adormeceu. Desta vez ninguem mexeria nos controles. Dormiu em paz. Quando a nave pousou em Meknos III, o chefe da equipe médica alienigena o recebeu com um pedido curioso.

– Gostariamos de ver seu mascote.

– Não tenho mascote, disse Bedford. O que era verdade.

– Segundo a mensagem que nos enviaram…

– Realmente não é um problema seu, disse Bedford. Vocês já tem a vacina, vou partir agora.

– A segurança de qualquer forma de vida é assunto nosso – disse o meknosiano. – Revistaremos sua nave.

– Em busca de um gato que não existe – falou Bedford.

A busca resultou inútil. Com impaciência Bedford observou como as criaturas alienigenas procuravam dentro de cada depósito de armazenamento e cada corredor da nave.

Por infelicidade, os meknosianos encontraram dez sacos de comida desidratada para gatos. Em seu próprio idioma, iniciou-se uma prolongada discussão.

– Tenho permissão para voltar para a Terra? – perguntou Bedford áspero. – Tenho um horário para cumprir.

O que diziam ou pensavam os alienigenas, pouco lhe importava, só desejava poder voltar para sua silenciosa câmara Theta e para o sono profundo.

– Terá que passar pelo procedimento de descontaminação – disse o chefe médico meknosiano. – Para que nenhum virus…

– Sei disso, disse Bedford. Podem começar.



Mais tarde quando a descontaminação se completou e preparava para acionar a partida de volta à nave, ouviu o rádio. Era um meknosiano, qualquer um, pois para Bedford eram todos iguais.

– Como se chamava o gato? Perguntou o meknosiano.

– Norman, disse Bedford e pressionou a partida. A nave disparou para cima e ele sorriu.

Não sorriu contudo ao descobrir que faltava seu gerador de energia para a câmara Theta. Tão pouco sorriu quando não conseguiu localizar a unidade de reposição.

Teria esquecido de trazê-la? Não, não poderia. Eles haviam retirado-a.



Dois anos para voltar a Terra.

Dois anos de consciência plena, privado do sonho Theta, dois anos sentado ou flutuando ou - como havia visto em holofilmes militares de entretenimento - enroscado em um canto, totalmente louco.

Lançou um pedido de rádio solicitando retorno a Meknos III.

Nenhuma resposta.

Sentado no módulo de controle, golpeou com a mão o pequeno computador interno e disse: -Minha câmara Theta não funciona, a sabotaram. O que me sugere fazer durante dois anos?

FITAS DE VÍDEO ENTRETENIMENTO DE EMERGÊNCIA'

– Certo. Tinha esquecido delas. Obrigado.

Apertou o botão indicado e o compartimento de fitas abriu deslizando.

Nenhuma fita. Apenas um brinquedo para gatos, uma bolsinha em miniatura para apertar, que haviam incluido para Norman e que nunca utilizara. Os outros compartimentos estavam vazios.

A mente alienígena era cruel, pensou Bedford. Misteriosa e cruel.

Pôs para funcionar o gravador de áudio da nave e com calma, disse com a maior convicção possível.

– O que farei será dedicar meus próximos dois anos a uma rotina diária. Primeiro serão as comidas. Passarei todo tempo possível planejando, preparando, comendo e desfrutando de pratos deliciosos. Durante o tempo que tenho daqui por diante, provarei toda combinação possível de viveres.

Dirigiu-se ao armário de alimentos.

Enquanto caia diante do armário completamente cheio, abarrotado, prateleira por prateleira, de embalagens idênticas, pensou. Por outro lado, não havia muito o que fazer com uma provisão de dois anos de comida para gatos. Em relação a variedade, seriam todos do mesmo sabor?

Eram todos do mesmo sabor.


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Título Original: The Alien Mind, 1981.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A Cidade no Mar — Edgar Allan Poe (Poema)


A cidade no mar
Edgar Allan Poe



Olhai! a Morte edificou seu trono
numa estranha cidade solitária
por entre as sombras do longínquo oeste.
Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores,
foram todos buscar repouso eterno.
Seus monumentos, catedrais e torres (torres
que o tempo rói e não vacilam!)
em nada se parecem com os humanos.
E em volta, pelos ventos olvidadas,
olhando o firmamento, silenciosas
e calmas, dormem águas melancólicas.

Ah! luz nenhuma cai do céu sagrado
sobre a cidade, em sua imensa noite.
Mas um clarão que vem do oceano lívido
invade os torreões, silentemente,
e sobe, iluminando capitéis,
pórticos régios, cúpulas e cimos,
templos e babilônicas muralhas;
sobe aos arcos escuros e esquecidos
onde o granito se fecunda em flores;
sobe aos templos magníficos, sem conta,
onde os frios se enroscam e entretecem
de vinhedos, violetas, sempre-vivas.
Olhando o firmamento, silenciosas,
calmas, dormem as águias melancólicas.
Torreões e sombras tanto se confundem
que é tudo como solto nos espaços.
E a Morte, do alto de soberba torre,
contempla, gigantesca, o panorama.
Lá, os sepulcros e os templos se escancaram
mesmo ao nível das águas luminosas;
mas não pode a riqueza portentosa
dos ídolos com olhos de diamante,
nem das joias que riem sobre os mortos,
tirar as vagas de seu leito imóvel;
pois, ai! nem leve movimento ondula
esse imenso deserto cristalino!
Nem ondas falam de possíveis ventos
sobre mares distantes, mais felizes;
ondas não contam que existiram ventos
em mar de menos espantosa calma.



Mas, vede! Um frêmito percorre os ares.
Uma onda... Fez-se ali um movimento!
E dir-se-ia que as torres vacilaram
e afundaram de leve na água turva,
abrindo com seus cumes, debilmente,
um vazio nos céus enevoados.
As ondas têm, agora, luz mais rubra,
as horas fluem, lânguidas e fracas.
E quando, entre gemidos sobre-humanos,
a cidade submersa for fixar-se no fundo,
o Inferno, erguido de mil tronos,
curvar-se-á, reverente.

Pen and ink Dulac's illustration for ‘The City in the Sea’ from Edgar Allan Poe’s “The Bells and Other Poems” (1912).

sábado, 1 de agosto de 2015

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A Ilha dos Abençoados — Luciano de Samósata (Descrição)

A 17th-century fictional portrait of Lucian of Samosata by the English painter William Faithorne.

A ILHA DOS ABENÇOADOS


Com cerca de 800 quilômetros de comprimento, no Oceano Atlântico. Terra de um povo que se veste de cor purpura com belas teias de aranha. Apesar de não terem corpo, conseguem mover-se e falar como os seres mortais. Tem a aparência de espíritos nus, cada um deles coberto por uma teia de aranha que lhes da forma ao corpo.

A ilha e comprida e plana, governada por Radamantus, natural de Creta. A capital da ilha, também chamada Abençoada, foi construída em ouro com muralhas de esmeralda. Tem sete portas fabricadas a partir de uma unica peca de canela, e as estradas que atravessam a cidade são de marfim. Ha templos a todo o tipo de deuses, feitos de berilo e contendo altares elevados de ametista, usados para sacrifícios humanos: não se aconselham os visitantes especialmente impressionáveis pela visão de sangue a assistir a cerimonia. Em torno da cidade corre um rio de um perfume requintado, com 15 metros de profundidade e facilmente navegável, sete rios de leite e oito de vinho, e há fontes de água, mel e perfume. Os banhos públicos da cidade são grandes edifícios de cristal, aquecidos com canela; as banheiras contêm água e orvalho quente.

Os viajantes não encontrarão na Ilha dos Abençoados a escuridão da noite ou a luz do dia a que estão habituados. A ilha esta permanentemente imersa na penumbra, como se o sol ainda não tivesse nascido. Aqui e sempre Primavera e só sopra um vento, o zéfiro. O pais e rico em todo o tipo de flores e todo o tipo de plantas; as videiras pro duzem cachos de uvas 12 vezes por ano; as macieiras, as romãzeiras e outras árvores dão frutos 13 vezes por ano, porque no mês de Minossa produzem duas vezes. O trigo produz não só feixes já prontos, mas também belíssimos pães, que crescem nas extremidades da planta como cogumelos.


Luciano de Samósata, História Verdadeira, séc. II.

domingo, 28 de junho de 2015

Umbriel — Donald A. Wollheim (Cuento Corto)

Umbriel

Donald A. Wollheim



Formulario de los archivos del Departamento de Navegación Interlunar del Gobierno de Oberon:

En respuesta a las repetidas solicitudes de los ciudadanos con ansias espaciales respecto a por qué nuestras naves siempre evitan el segundo satélite del sistema de Urano, el documento siguiente es la evidencia. Se trata de un resumen del Informe de K´yaldiu, un pionero astronauta de varias generaciones atrás.


"Mi nave se deslizó a través de la atmósfera de Umbriel sin grandes dificultades. Era mucho más espesa y cálida de lo que había experimentado con anterioridad. Después de aterrizar, mis instrumentos registraron una temperatura de 60 grados bajo cero Fahrenheit (valor terrestre).

"Posé la nave sobre una superficie suave de césped verde (o así me pareció en mi primera ojeada por la helada escotilla). Después de desconectar los cohetes de propulsión, me dispuse a pisar tierra a fin de reclamar el territorio para Oberon..., siempre que no hubiera habitantes.

"Al bajar, mi olfato se vio desagradablemente sorprendido por un olor nauseabundo. El aire era espeso, pesado, caliente, y de muy mal olor. Apenas era respirable, y del suelo ascendía un calor insoportable, que no tardó en coartar mis energías.

"Tan pronto como asenté las plantas en el suelo, mis pies se hundieron en la tierra y tuve necesidad de empujarlas hacia arriba, movimiento que se vio acompañado por el más desconcertante ruido de absorción. El suelo semejaba uno de los semilíquidos que nuestros científicos obtienen en sus laboratorios cuando consiguen temperaturas suficientemente elevadas para fundir el hierro.

"Durante unos instantes conseguí avanzar. Después, una sección del suelo se abultó ante mí y mientras lo estaba contemplando, se convirtió en una cúpula hemisférica que reventó. Surgió una nube de vapor tóxico, que comenzó a girar a mi alrededor. Parecía una burbuja muy peculiar.

"Cuando llegué a una roca amarillenta y ahuecada, que se alzaba aislada sobre el terreno, me detuve a examinarla. Estaba compuesta de una substancia dura, brillante y porosa, muy diferente de todo lo que produce la Naturaleza. Además, la roca desprendía una sensación completamente antinatural.

"Percibí un movimiento a mis espaldas y al volverme divisé a uno de los seres nativos de Umbriel. Surgiendo de un agujero del terreno, vi un objeto blanco, sin forma, que no poseía brazos, piernas, ojos, orejas ni otros apéndices exteriores. Tenía boca y un cuerpo tubular de varios centímetros de longitud. Y algo más.

"Contemplé con atención lo que hacía. Y en aquel momento, lo reconocí. Entonces comprendí qué era aquella esfera en la que yo me hallaba. ¡Porque aquel ser estaba comiéndose el suelo! ¡Estaba devorando el verde césped con considerable apetito! ¡Era un gusano, un gusano de tumba de enormes proporciones! ¡Y sólo podía estar comiendo la carne de un ser muerto!

"Cuando regresé a mi «ovoide», lo encontré medio hundido en el podrido terreno. Trepé a su interior, cerré la escotilla y despegué con una explosión de mis cohetes de pólvora que iluminó todo el paisaje.

"Jamás volverá ningún ser con lúcida razón a Umbriel. Porque no es un globo natural..., es la retorcida carcasa de un animal muerto, un enorme monstruo de algún mundo colosal, que voló al espacio. Debió de ir flotando por el vacío hasta que fue capturado por Urano. Y ahora que se halla recalentado por el calor desprendido por el lejano Sol y tan cerca de Urano, ha empezado a corromperse, a pudrirse, y los gusanos han salido de las profundidades de su cuerpo para alimentarse.

"Permanecerá eternamente aislado, ya que los gusanos no son los únicos seres que moran allí. En torno a la superficie del gusano vi un cinturón de metal con unas extrañas estrías. En algún lugar de las entrañas, en los intestinos de aquel cadáver-mundo corrompido, habita la inteligencia, una raza de increíble horror que se alimenta con los cuerpos de los gusanos, de la misma manera que éstos se alimentan con la carroña que es el planeta.



"Una raza de insoportable hedor, sumamente repulsiva, habita allí. Y nada saben de otros mundos. ¡Ojalá no lleguen a saberlo nunca!"


***

Umbriel, © 1936 by Shepherd & Wollheim. Traducido por Miguel Jiménez en Las mejores historias de horror, recopiladas por Forrest Ackerman, Libro Amigo 94, Editorial Bruguera S. A., 1969.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Galeria de capas Orson Scott Card

Fotos no Goole+: https://photos.google.com/u/0/album/AF1QipPC56EOpTYuJzLimEY8w2biHjuozc-ee3QFoCTk



Orson Scott Card (24 de agosto de 1951, Richland, Washington), é um escritor de ficção científica e fantasia norte-americano.

Foi o primeiro escritor a receber o prêmio Hugo e Nebula por dois anos consecutivos, graças aos seus romances da série Ender, O Jogo do Exterminador e Orador dos Mortos.

Card é também conhecido pela novelização do filme "O Segredo do Abismo", de James Cameron.

Orson morou no Brasil por dois anos quando era missionário voluntário da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

[wikipedia]

quinta-feira, 18 de junho de 2015

El Científico Y El Monstruo — Miniconto de Gahan Wilson


El Científico Y El Monstruo 

Gahan Wilson 






Un científico emprendió la difícil tarea de construir y dar vida a una nueva clase de ser humano superior. Imaginaba que su creación sería un ejemplo para el resto de los hombres, a quienes enseñaría el camino hacia una vida mejor, de progresos y, posiblemente, de paz sobre la Tierra.

Desafortunadamente, a pesar de tener las mejores intenciones, el científico erró seriamente en uno o dos puntos cruciales y economizó tal vez demasiado en los materiales. El decepcionante resultado sólo puede ser descrito como un monstruo.

El científico, que se había escondido cuando el monstruo comenzaba a despertar, espiaba consternado, mirando cómo la criatura se tambaleaba explorando el laboratorio. La cosa era horrible, y el científico se sentía terriblemente culpable por haberla construido.

«¿Qué derecho tenía yo para jugar a ser Dios y traer a esta pobre y retorcida criatura a una existencia de sufrimiento?», se preguntaba.

A través de lágrimas de arrepentimiento, el científico vio con súbito pánico que el monstruo había descubierto un gran espejo que colgaba en uno de los extremos del laboratorio y se dirigía pesadamente hacia él. 


«¡Qué horrible! —gimió el científico—. ¿Qué ocurrirá cuando este patético ser vea su espantosa imagen en el cristal?»

El monstruo se detuvo frente al espejo durante un minuto o algo así, y luego, emitiendo arrullos de deleite, comenzó a andar afectadamente de un lado hacia otro contemplando su imagen, volviéndose y adoptando distintas poses mientras lo hacía. El científico se asomó un poco más afuera del armario para observar mejor este fenómeno inesperado, pero el monstruo, al verlo, salió corriendo del salón, asustado y dando alaridos.


***

Fonte: Bruguera Ciencia Ficción nº 10