quinta-feira, 26 de junho de 2014

Temas da Ficção Científica — CLONES (Resenhas com Downloads)

A palavra clone vem da biologia e foi criada pelo botânico norte-americano Herbert J. Webber, à partir do prefixo grego klon "broto", e significa um conjunto de células ou organismos celulares idênticos a um indivíduo, ou célula, matriz.

Na ficção científica o termo clonagem se refere a uma possibilidade especulativa da ciência na manipulação do DNA (ADN) de criaturas vivas para a criação de réplicas idênticas ao material genético original.
A primeira abordagem do assunto no gênero foi de H. G. Wells em 1896 com o romance A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Dr Moreau), onde um cientista "maluco" realiza experiências genéticas com animais e humanos em uma ilha deserta. O livro teve duas adaptações importantes para o cinema (1977 e 1996) e mais uma legião de clonagens mal feitas tanto em filmes como em livros.

O livro de Wells é somente uma referência, pois nem o termo e nem o conceito existiam em sua época, e o primeiro livro de ficção científica a tratar inteiramente do assunto é A Quinta cabeça de Cérebrus “The Fifth Head of Cerebrus” de Gene Wolfe (1972). 
Neste livro, um jovem personagem é mantido constantemente numa situação de provas humilhantes e testes de condicionamento por seu pai. Seu único refúgio é a enorme livraria na mansão paterna. Por esses documentos vão se confrontando histórias de diversas gerações de clones da qual ele é o último elo.

O livro é um jogo de espelhos onde o leitor está sempre frente à questão de quem é o simulacro e quem é o original, inclusive em relação ao próprio narrador, que parece mudar a cada uma das três partes do livro.

É claro que ainda não foi adaptado para o cinema.
Outro livro importante sobre o tema é Onde os Últimos Pássaros Cantaram "Where Late the Sweet Birds Sang" de Kate Wilhelm (1975). É uma história que acontece em um mundo pós-apocalíptico assolado pela esterilidade, quando uma família desenvolve um método de clonagem para propagar-se nessa terra desolada. Porém, com o passar das gerações, os clones vão se transformando em uma nova raça que começa a disputar o planeta com os seres humanos originais.

Novela de grande impacto e beleza, ganhadora dos prêmios Hugo, Locus e Jupiter sendo também classificada em segundo no prêmio Nebula.
Ofiúco, O Aviso "The Ophiuchi Hotline" de John Varley (1997) é outro romance importante no tema da clonagem. Trata-se da história da heroína Lili Alexandr Calypso que foi condenada à morte por ter realizado experiências ilegais com os seres humanos após uma invasão alienígena da Terra. Ela morreu, mas permaneceu viva através de inúmeros clones que vão conduzindo suas memórias e sua consciência através do futuro, num mundo hostil à raça humana e onde a clonagem de humanos só é permitida com a morte da pessoa, sendo que clonar pessoas vivas é considerado o maior crime possível nessa sociedade. Uma das ideias importantes deste livro é o conceito de se poder levar as memórias e a personalidade do original através de todos os seus clones, e assim respectivamente, formando com o tempo, clones extremamente experientes e sábios.
O livro mais importante em relação à popularização do conceito de clonagem é O Parque dos Dinossauros "Jurassic Park" de Michael Crichton (1990), especialmente depois do mega sucesso da sua história no cinema. Neste caso se mostra um processo de clonagem de dinossauros  através da duplicação do seu DNA (ADN) encontrado no sangue de mosquitos congelados em âmbar, e completados com segmentos de répteis, aves e anfíbios. É claro que alguma coisa dá errado e a criatura volta-se contra o criador.

Toda essas histórias são pura especulação, mas o conceito de que a identidade de qualquer ser vivo repousa em uma espécie de código e que pode ser mapeada, manipulada e reproduzida, tornou-se extremamente popular e tem inspirado inúmeras outras histórias tanto na literatura como no cinema.

Atualmente a ficção científica tem se voltado mais para o aspecto da clonagem como uma possibilidade de "backup" do ser humano, ou num nível bem mais radical, como na novela de Michael Marshall Smith "Spares" (1996), titulada em espanhol como Crónicas de un Futuro Imperfecto, é uma história de horror onde se descreve a existência futura de verdadeiras fazendas de criação de clones humanos manipulados para o comércio de órgãos — uma realidade que talvez não esteja tão distante assim —, onde a ficção científica revolta-se com a banalização da vida e cria versões radicais com essa capacidade 'em tese' de manipulação do código genético.

Pois é, como fazer resenhas de livros que raramente se encontram em nossas raras livrarias ou quando estivermos nelas, pouco nos lembraremos, nada mais justo e honesto que deixar aqui mesmo um exemplar virtual para o interessado ao menos dar uma olhada no material.

Portanto, aqui estão os links para os livros citados e pescados na internet.

H. G. Wells "The Island of Dr Moreau" A Ilha do Dr. Moreau http://minhateca.com.br/Herman.Schmitz/Marcianos.Cinema/Temas/Clones/H.+G.+Wells+-+A+Ilha+Do+Dr.+Moreau,40060902.pdf

Gene Wolfe "The Fifth Head of Cerebrus” em espanhol: La Quinta Cabeza de Cerbero   http://minhateca.com.br/Herman.Schmitz/Marcianos.Cinema/Temas/Clones/Gene+Wolfe+-+La+quinta+cabeza+de+Cerbero,40061176.epub

Kate Wilhelm "Where Late the Sweet Birds Sang" em espanhol: La Estación del Crepúsculo http://minhateca.com.br/Herman.Schmitz/Marcianos.Cinema/Temas/Clones/Kate+Wilhelm+-+La+estaci*c3*b3n+del+crep*c3*basculo,40064267.doc



Michael Marshall Smith "Spares" em espanhol: Crónicas de un Futuro Inperfecto

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Alienígenas na Ficção Científica #Scifi #Aliens #Resenha

Alienígenas na Ficção científica

Entendemos por alienígenas qualquer criatura viva, originária de fora do planeta Terra, e apesar das abdução e dos mais diversos graus de encontros, a ciência atual ainda não possui nenhum indício formal da existência de seres extraterrestres.

Já fazem muitos séculos que filósofos e pessoas de bom senso percebem o fato evidente de que, se essas estrelas todas houvessem sido acesas somente para abrilhantarem as nossas noites, certamente seria um desperdício divino.
Mas enquanto não nos chegam as evidências, nos resta imaginar esses habitantes e para nos auxiliar nesse percurso temos os livros de ficção científica.

Foi somente no final do século XIX, com o início do processo de globalização, surgidas do aperfeiçoamento da cartografia e do telescópio, é que se pensou na possibilidade real de haverem seres inteligentes habitando mundos como o nosso, e que esses seres poderiam nos alcançar algum dia desses.

O mapeamento rudimentar do planeta Marte que expôs os desenhos dos canais marcianos de forma intencionalmente parecidas com as nossas redes de rodovias e ferrovias, provocou nas mentes um conceito festivo de que o nosso planeta vizinho era tão habitado como o nosso.

E foi neste cenário que H. G. Wells escreveu "A Guerra dos Mundos".

Este é sem dúvida alguma o primeiro livro relevante a explorar o tema da invasão alienígena, no caso uma invasão marciana, na Terra. Seu sucesso foi aumentado grandemente após a transmissão radiofônica na rede CBS por Orson Wells e que provocou pânico nos Estados Unidos em 30 de outubro de 1938, por ser confundida com uma invasão real. Depois disso foram feitas várias versões pra o cinema, a mais próxima do livro é a de 1953, dirigida por Byron Haskin.


Com essa temática da invasão à Terra surgiram inúmeros livros, filmes e seriados para televisão, porém as invasões muito escandalosas logo deram lugar às invasões silenciosas e discretas, bem mais perigosas e dramáticas.

***

O Romance "Os Manipuladores" (The Puppet Masters) de 1951 é o primeiro a tratar o tema deste modo, no qual os alienígenas são uma espécie de estrelas-do-mar, com uma mente coletiva e que grudam-se nas pessoas e comandam-nas como se fossem marionetes. O romance foi adaptado para o cinema em 1994 (Sob o Domínio dos Aliens) dirigido por Stuart Orme e com Donad Sutherland no papel principal. O livro ainda é considerado bem superior ao filme.


Em 1955, Jack Finney, um autor quase desconhecido na época tanto quanto hoje, lança o livro "Os Invasores de Corpos" (The Body Snatchers), relatando uma invasão alienígena de uma espécie de esporos inteligentes que são absorvidos pelos humanos enquanto estão dormindo, causando-lhes uma letargia gradativa até se transformarem em uma espécie de vagem ou casulo, e depois que suas mentes são drenadas, elas são substituídas por cópias alienígenas destituídas de emoções, e o processo vai se repetindo na vizinhança. Uma história absorvente, escrita em uma época de grande preocupação com a invasão do comunismo no mundo, daí talvez o enorme sucesso da primeira versão para o cinema, lançada já no ano seguinte em 1956: "Invasion of the Body Snatchers" (Vampiros de Almas), dirigida por Don Siegel. O remake de 1978 dirigido por Philip Kaufman e por coincidência também com Donald Sutherland como protagonista, é bem superior nos efeitos e na dramaticidade, porém se distancia um pouco da história original.


"A Aldeia dos Malditos" (The Midwich Cuckoos, o livro foi renomeado depois do filme de 1960 para Village of the Damned) de 1957, é do inglês John Wyndham, escritor prolífico e bastante conhecido nos anos 40 e 50, dotado de um estilo que ele mesmo intitulou de "fantasia lógica", foi muito influenciado por H. G. Wells, e escreveu diversas histórias sobre alienígenas ou monstros, sempre ressaltando a inabilidade humana nesse contato. Este é o seu livro mais importante, especialmente depois da excelente versão de Wolf Rilla para o cinema em 1960.
A história começa com um desmaio coletivo na pequena cidade de Midwich no interior da Inglaterra, que deixou toda a população inconsciente por um breve período e logo todos voltam à normalidade. Passado alguns meses, todas as mulheres da cidade descobrem que estão grávidas e vão dando à luz estranhas crianças, com olhos brilhantes, fantásticos poderes extrassensoriais, e visivelmente agressivas com a humanidade, deixando bem claro as suas intenções de dominação alienígena. 
Esta história foi refilmada em 1995 (A Cidade dos Amaldiçoados) por John Carpenter, mas a versão de 1960 ainda é bastante superior tanto cinematograficamente como em relação à proximidade com a história original do livro.

Em breve, mais resenhas temáticas.

Grato a todos,
Herman Schmizt

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Galeria de Capas Stanislaw Lem

Esta e outras capas no Google+: https://plus.google.com/u/0/photos/103998711237758699926/albums/6023013286534517617

No Pinterest: https://www.pinterest.com/hermanschmitz/stanislaw-lem-gallery-cover-art/

***

Stanislaw Lem (12 de setembro de 1921 - 27 de março de 2006) foi um escritor polonês de ficção científica, Sua obra explora temas filosóficos; especulação sobre tecnologia, a natureza da inteligência, a impossibilidade de comunicação e compreensão mútuas, desespero face às limitações humanas e o lugar da humanidade no universo.

Lem atingiu notoriedade internacional por Cyberiada (1967), uma série de contos espirituosos ambientados num universo habitado por máquinas (que ocasionalmente entram em contato com "repulsivas criaturas biológicas"). Seus romances mais conhecidos incluem Solaris (1961), A Voz do Mestre (1968), e o temporão Fiasco (1986), todos expressando primeiramente seu tema recorrente da futilidade dos esforços da humanidade em tentar compreender algo realmente alienígena. Solaris foi adaptado para o cinema em 1972 pelo diretor russo Andrei Tarkovsky e ganhou um premio especial do juri no Festival de Cannes do mesmo ano; em 2002, Steven Soderbergh dirigiu outra adaptação estrelando George Clooney.

Wikipédia: http://en.wikipedia.org/wiki/Stanis%C5%82aw_Lem

segunda-feira, 2 de junho de 2014

John Brunner Biblioteca


Coleção de Livros de John Brunner para #Download

LINK: http://minhateca.com.br/Herman.Schmitz/Marcianos.Cinema/Autores/John+Brunner

Eclipse Total - John Brunner.epub
John Brunner - Al borde de la nada (La ciudad envuelta).epub
John Brunner - Angeles o monstruos.epub
John Brunner - Angeles... O Monstruos.pdf
John Brunner - Eclipse Total.doc
John Brunner - Eclipse Total.mobi
John Brunner - El crisol del tiempo (r1.1).epub
John Brunner - El hombre completo.epub
John Brunner - El Jinete En La Onda Del Shock.pdf
John Brunner - El mensaje de los astros.epub
John Brunner - El Mensaje De Los Astros.pdf
John Brunner - El rebano ciego.epub
John Brunner - El rebaño ciego.pdf
John Brunner - Histrion Del Espacio.doc
John Brunner - Histrion del espacio.epub
John Brunner - Jugadores del juego de la gente (r1.0).epub
John Brunner - Las casillas de la ciudad.epub
John Brunner - Los ritos de Ohe.epub
John Brunner - Orbita inestable.epub
John Brunner - Orbita Inestable.pdf
John Brunner - Todos Sobre Zanzibar.doc
John Brunner - Todos sobre Zanzibar.epub
John Brunner - Todos Sobre Zanzibar.pdf

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Edmund Cooper — Pequena Biblioteca

Pequena Biblioteca Aqui: http://minhateca.com.br/Herman.Schmitz/Marcianos.Cinema/Autores/Edmund+Cooper

Edmund Cooper - A Prisioneira do fogo.epub
Edmund Cooper - A Prisioneira do fogo.pdf
edmund cooper - as exterminadoras.pdf
Edmund Cooper - Bienvenidos A Casa.doc
edmund cooper - cavalo-marinho no céu.pdf
Edmund Cooper - Cavalos Marinhos No Ceu.txt
Edmund Cooper - El Cerebro Infantil.doc
Edmund Cooper - La Historia Del Juicio Final.doc
Edmund Cooper - Los Intrusos.doc

Edmund Cooper — As Exterminadores (Trecho e PDF)

Trecho de Edmund Cooper — As Exterminadoras

Tradução de Ana Paula Cunha
Ilustração da capa: José Lança Semedo
(c) 1972 by Edmund Cooper


CAPÍTULO I

Estava uma linda manhã de Estio - perfeita para o Dia da Exterminação. Rura tinha o carro flutuador a média elevação, para uma duração média de viagem, elementos que se adequavam quase exatamente aos escarpados vales de Cumberland. Cento e cinquenta quilômetros à hora, um metro acima do solo. Àquela velocidade não era provável ter quaisquer surpresas pelo caminho. Tinha muito tempo para chegar às Terras Altas da Escócia e fazer derramar sangue antes do anoitecer. De qualquer modo, o detector de caça que girava preguiçosamente sobre a sua cabeça podia apontar a existência de alvos convenientes muito antes de chegarem às Terras Altas. Alguns dos rebeldes aventuravam-se já a avançar para sul.
Rura estava cansada. Assim estavam, provavelmente, as suas companheiras, Moryn e Olane. A tradicional orgia da véspera da exterminação tinha este ano batido todos os recordes. Sem dúvida entraria para a história da Universidade como uma das maiores do século XXV. Rura lembrava-se ainda de ter feito amor com três moças. Depois disso, as coisas tornavam-se confusas. Sabiam as deusas quantas moças a tinham então amado.
Agora, o carro flutuador sibilava ao longo da encosta de Windermere. A luz do Sol inclinava-se sobre os baldios, transformando montes, rochedos e charnecas em texturas de infinita beleza. Num dia destes... Num dia destes, pensou Rura, como era fastidioso ter de ir caçar homens e borrar-se no seu revoltante sangue. Mas a tradição era a tradição. O Dia da Formatura na Universidade das Exterminadoras tinha sempre incluído este derrame de sangue simbólico. Era uma afirmação de fé e marcava o fim de dois anos de intensiva aprendizagem e treino.
«Mais duas semanas», pensou Rura, «e terei vinte anos. Terei direito à plena Condição de Mulher. Passarei a usar a caveira de ouro e os ossos cruzados, símbolos de uma exterminadora qualificada. As mulheres desejar-me-ão. E eu poderei escolher.» Rura sentiu o peso da culpa. Devia estar feliz. Mas sentia-se culpada. Culpada por que não estava feliz? Então por que não estava feliz? Não sabia. Tentou lembrar-se das moças que abraçara e com quem fizera amor. Tentou lembrar o largo olhar de surpresa estampado nos olhos delas. Tentou lembrar-se de lábios, seios, toque, intimidade, dádiva e aceitação. Mas só conseguia trazer à mente o vazio. Talvez tivesse andado a trabalhar de mais. (...)

Download o livro completo aqui: http://minhateca.com.br/Herman.Schmitz/Marcianos.Cinema/Autores/Edmund+Cooper/edmund+cooper+-+as+exterminadoras,5362674.pdf

Contracapa:

Edmund Cooper — Cavalo-Marinho no Céu (trecho)


EDMUND COOPER — CAVALO-MARINHO NO CÉU

Tradução AGATHA MARIA AUERSPERG
HEMUS - LIVRARIA EDITORA LTDA.

1

Parecia o cenário do Dia da Ressurreição. Talvez fosse apenas um pesadelo irracional em plena luz do dia - com um toque de Brueghel, uma pincelada de Dali e uma pitadinha de Peter Sellers. O conjunto provocava uma vontade irresistível de dar gargalhadas, ou chorar ou fazer outra coisa qualquer. De repente, as pessoas começaram a rir e a chorar - e a fazer outras coisas mais. De fato, não existe nada que possa perturbar, ou desnortear ou incomodar mais do que a total ignorância de onde, como, por que e quem. O primeiro a sair de seu "caixão" foi Russell Grahame. Teve muita sorte. Quase no mesmo instante lembrou-se que era Russell Grahame, Membro do Parlamento, eleito em Middleport North, no condado de Lancashire.
Sabia quem era, mas continuou ignorando onde, como e por que. Também faltava-lhe a noção de quando. Deduziu que isso provava tratar-se de algum sonho maluco, e não demoraria em acordar pela voz de alguém dizendo: "Apertem seus cintos, por favor, e apaguem os cigarros. Em mais ou menos dez minutos estaremos aterrissando no aeroporto de Londres".
Percebeu que não poderia acordar, pois já estava acordado, e o pesadelo era real. 
Saíra de um "caixão" que parecia feito de plástico verde. Era o último de uma fila de caixões idênticos, ordenadamente dispostos no meio da rua, entre um prédio que ostentava o letreiro "Hotel" de um lado e outra construção que ostentava o letreiro "Supermercado" do outro.
A rua parecia ter uma largura de dez metros e um comprimento de cem. Começava e terminava num mato espesso de gramas e arbustos. Era um minúsculo oásis urbano numa grande savana verde. Em frente ao hotel havia um táxi. Via-se um carro parado ao lado do supermercado. Não se via gente nenhuma - fora as pessoas que estavam emergindo dos caixões verdes.
Uma moça de pele escura chutou com violência a tampa de seu caixão, levantou-se, emitiu um grito estridente e desmaiou. Pareceu o sinal que desencadeou uma algazarra completa. Logo emergiram um homem e uma mulher. Ambos eram brancos. Lançaram olhares assustados em volta, encontraram-se, e se lançaram um contra o outro, abraçando-se com tanta força que parecia não quisessem mais se soltar.
Dois homens saíram de dois caixões que se encontravam lado a lado, esbarrando um no outro e caíram ao chão; atracaram-se quase que no mesmo instante, começando a lutar. E pararam de súbito.
Três moças aterrorizadas estavam rindo e chorando, sentindo-se estranhamente mais seguras compartilhando do mesmo terror.
Finalmente dezesseis pessoas, após saírem de dezesseis caixões, começaram a fazer um barulho cujo tamanho poderia ser suficiente para acordar até os mortos, ou pelo menos chamar a atenção de qualquer um que se encontrasse no interior do hotel ou do supermercado. Mas parecia que se houvesse alguém morando no hotel ou fazendo compras no supermercado, já estivesse acostumado com a bagunça provocada pela ressurreição no meio da única rua à vista, para não ter nenhuma curiosidade a respeito. Ninguém apareceu.
A algazarra parecia não querer chegar ao fim; as pessoas falavam, gritavam, gesticulavam ou balbuciavam coisas sem nexo. Pareciam confusas, traumatizadas, como se tivessem passado por alguma experiência terrível. E na realidade era isso que acontecera com elas. Aliás, continuava acontecendo. (...)