Carl Sagan - Jornada nas Estrelas não Enfrenta os Fatos da Evolução.
Outras falhas são evidentes na programação de ficção científica na TV. Jornada nas Estrelas, por exemplo, apesar de seu charme e da forte perspectiva internacional e inter-espécies, ignora frequentemente os fatos científicos mais elementares. A ideia de que o sr. Spock seria o cruzamento de um ser humano e uma forma de vida que evoluiu independentemente no planeta Vulcano é muito menos provável em termos genéticos do que um cruzamento bem-sucedido entre um homem e uma alcachofra. Entretanto, a ideia abre um precedente na cultura popular para os híbridos extraterrestres/humanos que mais tarde se tornaram um elemento central nas histórias de sequestros por ETs. Deve haver dezenas de espécies alienígenas nos vários filmes e episódios da série de televisão Jornada nas Estrelas. Quase todos os que tomam algum tempo de nossa atenção são variantes secundárias de humanos. Isso é causado por uma necessidade econômica, pois o custo é apenas de um ator e uma máscara de látex, mas vai contra a natureza estocástica do processo evolutivo. Se houver alienígenas, acho que quase todos eles vão parecer muitíssimo menos humanos do que os Klingons e os Romulans (e estarão em níveis de tecnologia extremamente diferentes). Jornada nas Estrelas não enfrenta os fatos da evolução.
in SAGAN, C. O Mundo Assombrado pelos Demônios. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.364.
Herman Schmitz apresenta uma história de Terrassol: O Pesadelo
Veremos a seguir uma das histórias do livro Terrassol do poeta e
escritor Herman Schmitz, natural de Curitiba, mas que reside em Londrina
há mais de 26 anos.
Herman lê ficção
científica desde os 10 anos de idade e já produziu por diversas vezes
obras neste gênero, como poemas, peças para teatro e contos; também
ministrou oficinas como “Outros Mundos” no Festival Literário de
Londrina — O LONDRIX de 2007 e hoje mantém o Blog Marcianos como no
cinema.blogspot pelo qual divulga autores nacionais e estrangeiros
relacionados com a ficção científica.
Sua mais recente produção
no gênero é o livro de contos ainda inédito, intitulado TERRASSOL, do
qual assistiremos um pequeno fragmento, e que começou a ser escrito em
2010 no formato de longos e médios poemas, explorando temas comuns na
ficção científica, como viagens no tempo, viagens a outras dimensões,
abduções alienígenas, super-heróis, clonagens, catástrofes planetárias e
outros assuntos característicos da ficção científica. No entanto, à
medida que os textos foram crescendo, houve a necessidade de
convertê-los para o formato de contos e outros meios multimídias como a
desta leitura de hoje.
Assim, o livro TERRASSOL é composto de
25 histórias que possuem como pano de fundo em comum, o planeta
Terrassol e as histórias da sua única espécie inteligente: os
terrassolenses, já há muito dizimados por ordem do Conselho Galático
Universal.
Portanto essas histórias de Terrassol não são mais
as narrativas originais dos terrassolenses, embora sejam baseados em
seus documentos, nelas já se mesclam invenções, alguns exageros e também
adaptações ao decorrer do tempo, à quais persiste um estranho senso de
humor alienígena.
Nesta noite, o próprio autor Herman Schmitz
apresenta uma leitura performática do seu conto O Pesadelo, no qual
narra as desventuras com a passagem do tempo, de um tripulante solitário
em uma estação espacial no sexto satélite do planeta Saturno. Lembremos
que Saturno na mitologia romana está associado à Cronos, Deus do tempo;
Deus impiedoso que diariamente devora aos seus próprios filhos...
Quero agradecer a todos os que me acompanham nesta viagem, especialmente a Christine Vianna pela oportunidade, ao Sergio Mello pelo apoio técnico e a todo o público participante que foi surpreendido e abduzido pela FICÇÃO CIENTÍFICA.
Melancólica crônica de um alienígena disfarçado em autor de ficção científica
Tememos assustá-los. Nas raras aparições, transformaram-nos em monstros ou alçaram-nos ao panteão dos deuses. Disfarcei-me
de humano, de autor de ficção-científica para, através dos textos,
familiarizá-los com a existência de outros seres, outras tecnologias,
outras perspectivas, vivendo em outros planetas, em outras realidades e,
até mesmo, em seu próprio planeta Terra, fosse em retiros isolados como
nas profundezas marinhas ou no cimo das mais elevadas e tempestuosas
cordilheiras. E, até mesmo, entre eles, lado a lado, em um clube de
ficção-científica ou na fila do supermercado, sem que dessem conta
disso. Outros como eu fizeram o mesmo, e tiveram mais êxito: criaram
roteiros para o cinema, deram palestras em universidades sobre
exobiologia, lecionaram astronomia, desenvolveram projetos de busca de
vida inteligente por meio de radiotelescópios ou enviando satélites para
a descoberta de planetas em outros sistemas solares. Até mostramos
nosso próprio planeta entre eles! Tudo para dizer que existimos, que acompanhamos a vida neste mundo bem antes que a vida, propriamente, existisse. Tudo para prepará-los para o derradeiro momento: a nossa revelação perante a humanidade. O grande contato imediato do terceiro grau. Evitar o maior dos choques culturais. Ao
menos no plano das idéias, suposições, fantasias e até piadas,
aceitaram-nos. Passaram a inventar suas próprias mitologias, histórias e
filmes. Os efeitos especiais que, a princípio espantavam, hoje não
causam surpresa. Jovens cientistas, impulsionados pelas idéias exibidas,
tornaram realidade algumas delas e inventaram outras que ninguém havia
cogitado. O mundo mudou e tem mudado aceleradamente. Até eu próprio, há tantos séculos aqui, sinto dificuldade em acompanhá-lo. Agora, sinto, o temor cedeu lugar a um certo receio: o receio de desapontar. Os artigos, livros, músicas, filmes, páginas na Internet, retratam extraterrestres de uma maneira que nunca fomos ou seremos. Não
somos grandiosos, não temos tamanhos de edifícios e nem somos capazes
de ressuscitar os mortos, embora tenhamos legado-lhes um paliativo: à
clonagem. Não expelimos raios pelos olhos e nem temos uma luz na ponta
do dedo. Somos criaturas, digamos, comuns; fomos criados pela mesma ação
da Natureza que tornou o céu azul, trouxe o nevoeiro nas manhãs de
inverno ou deu asas aos pássaros. Ah, sim, é um consolo para nós dizer
que também não somos nanicos de pele verde e antenas, ou calvos e
cabeçudos. Depois de tanta espera, tantas especulações e preparo, eu e
meus iguais sentimos relutância em mostrarmos como realmente somos e
de onde realmente viemos. Acreditariam em nós? Mandar-nos-iam para o hospício mais próximo? Agora, a humanidade está preparada. Fartamente preparada até, “ad nauseaum”. Preparados não estamos nós. Em nós, agora, não há o temor de atemorizá-los, mas o próprio temor que sentimos. Temor do desapontamento. Temos do descrédito. Temor de termos esperado tanto em vão. Temor de estarmos obsoletos por nossas próprias mãos. Seja como for – e como dizem – o “show” precisa continuar. Como uma cortina que se abre e nem um aplauso sequer é ouvido. Só o cricrilar de grilos... ... sem palmas para bater.
Edmund Cooper Nascido em 1926 e vivendo afastado da capital inglesa, Edmund Cooper estudou na Manchester Grammar School, tendo dedicado uma parte da sua vida à atividade de homem do mar na marinha mercante britânica, ao mesmo tempo em que desenvolvia a faceta de escritor freelance. A primeira história que publicou foi The Unicom, em 1951, e poucos anos depois, em 1958, surgiu a público o seu primeiro trabalho de fôlego, na Uncertain Midnight, que descreve o mundo após um holocausto, no qual os homens são gradualmente suplantados por andróides. As obras mais recentes de Edmund Cooper têm o denominador comum de nos oferecer uma perspectiva melhor para um mundo que se pretende mais sadio: Kronk (1970), The Overman Culture (1971), O Décimo Planeta (1973), The Slaves of Heaven (1974) e A Prisioneira do Fogo (1974). Sob o pseudônimo de Richard Avery publicou uma série de space operas com o título genérico de The Expendables. Colabora no prestigiado jornal Sunday Times como crítico de livros de ficção científica.
Edmund Cooper movimenta-se bem em áreas consideradas um pouco áridas, tais como antropologia, holocausto e sociologia.
Grahame e seus companheiros foram sequestrados, em pleno voo, na Terra, enquanto Absu e seus companheiros chegaram a Erewhon de uma caravana em movimento a caminho do Reino de Gren Li. Absurdamente confusos, esses seres vivos encontravam-se longe do mundo que conheciam, mas quanto tempo tinham levado para chegar a Erewhon? Alguns minutos ou alguns séculos? Além desses dois grupos tão diferentes e tão humanos, havia mais alguém? E seus sequestradores? Estavam cercados num estranho mundo e eram tratados como cobaias por seres de inteligência altamente desenvolvida, ou estavam presos em suas próprias imaginações? Estavam vivos. Isso eles sabiam. Mas o que havia por detrás da névoa e do rio, intransponíveis, e como os alimentos que consumiam em supermercados eram imediatamente substituídos?
Você e eu fomos feitos (como artefatos de vidro ou cerâmica) de duas células, formados em tubos de ensaio com água (acrescentar temperos e assar até dourar) até nos tornarmos você e eu.
Quero que esses fabricantes nos tomem de novo, e, querida; que eles nos misturem e sacudam, — que transplantem uma parte de mim para o coração de você (já está feito, já está feito) — que nos fatiem, nos emendem, nos rasguem, nos colem, nos moldem de novo em você e eu.
Para que em mim haja pedaços de você e em você, pedaços de mim. Assim, nada jamais poderá nos separar.
David Sandner (Tradução de Ronaldo Sérgio de Biasi)