quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Rubens Teixeira Scavone - Especialmente, quando sopra outubro (conto)
Os próprios pais não sabiam quando os sintomas iniciais apareceram. E o nome sempre fora, desde o começo, "perturbação". Nem o primeiro médico, amigo da família, pela mão de quem Ângela viera ao mundo, nem os especialistas posteriormente chamados, jamais falaram em moléstia ou qualquer outro termo científico. Apenas e tão somente "perturbação", como se o eufemismo pudesse confortar os pais e proteger a menina da contundência de uma designação mais explícita.
Cinco ou seis anos após o nascimento de Ângela, o velho médico revolveu as fichas do seu arquivo, teve de contentar-se, nada achando de especial, apenas com as recordações. Como as lembranças eram comuns, não havia outra saída senão aceitar a completa naturalidade do parto de que nascera um bebê rosado e chorão como os outros, recebendo palmadas nas costas e irrompendo para a vida num alarido festivo que reboara pelos corredores como nota álacre ansiosamente esperada.
Mas, ordenando-se os fatos e as recentes etapas da existência de Ângela, certo acontecimento havia que poderia ser fixado como o início das "atribulações". Só os especialistas anotaram essa ocorrência, tênue fio capaz de deslindar a meada. Fora num mês de outubro, no dia em que a menina completara cinco anos. E o que se anotara nas fichas? A festa, os amigos, os parentes, a casa de campo cheia de visitas, o bolo, as luzes, as cores, o vestido rendado da aniversariante e, por fim, a sua inesperada crise de choro, fechada no quarto, estirada na cama.
Convulsão violenta, reação histérica, recusa em descer, atitude anormal e injustificada que provocara a assistência médica e a primeira poção de sedativo que transportara Ângela ao profundo sono. A mãe, ainda viva, impressionara-se com a transformação da filha, e contava, desfeita em pranto:
- Lembro-me muito bem. Foi em outubro, numa tarde fria e ventosa, no dia do aniversário dela. Não foi o seu choro que me impressionou, mas o seu olhar de ódio. Em lágrimas largada no leito, não queria que eu me aproximasse sequer. Tinha a expressão distante, longínqua, e quando fixava os olhos em nós era como se fôssemos desconhecidos.
Com o decorrer dos dias e dos meses, porém, o episódio do aniversário foi sendo esquecido e ninguém lhe deu mais importância.
Na verdade, talvez apenas se tratasse de um capricho de infante que defende seu universo da invasão de estranhos, uma crise de solipsismo num sombrio crepúsculo de outubro. Com certeza apenas isso, nada mais.
Já pelos seis ou sete anos as coisas foram se complicando. Introspectiva, como fechada numa redoma, Ângela convivia consigo mesma. Mal tolerava os familiares e os domésticos. Em relação aos outros parentes e estranhos manifestava incontrolável repulsa.
Quando morrera a mãe, ao tempo em que a menina completara oito anos, ela já organizara definitivamente o seu universo. Ilha remota no âmago do casarão cujos prolongamentos geográficos alcançavam a estrada e a alameda de cedros, não raro se espraiando pelas colinas das quais se divisava a cidade ao longe e a chaminé sempre coroada de fumo que assinalava a atividade da fábrica do pai.
Havia a governante. A velha alemã, de compostura solene e andar rígido, impassível na aparência mas dedicada, aquela que lhe sugerira os primeiros devaneios com histórias de elfos e de fadas, de gênios e duendes que habitavam o lago escuro, que se escondiam pelas ravinas e que pelas madrugadas quentes saiam aos bandos em busca de vaga-lumes. Cenários estimulantes, eram nada e tudo ao mesmo tempo. Solidões geladas onde lobos uivavam ou feudos tranquilos onde princesas sonhavam com seus eleitos; nuvens rosadas que sustentavam castelos ou desertos onde ondulavam miragens. Os domínios da menina eram imensos, magicamente povoados. O que menos importava eram as bonecas, os coelhos de pelúcia, os cachorros e gatos de feltro, ou o elefante enorme, cinzento, de cela encarnada, que respondia com um ronco todas as vezes que Ângela lhe puxava a argola implantada no dorso. Tais brinquedos não passavam de simulacros banais, réplicas fraudulentas de certa realidade desinteressante. Por isso ela os desprezava. Dispunha de algo superior que tornava inúteis as fábricas de brinquedos, a fortuna do pai ou mesmo as sugestões da governante. E esse algo era - a imaginação.
Não precisava fechar os olhos, mas apenas recorrer ao tenaz impulso da sua vontade: e lá surgia o seu mundo. Quando as coisas começavam a delinear-se, a concentração aumentava, tornava-se imperioso continuar. Os olhinhos da menina se contraíam, fixavam-se com angústia no ponto visado: a clareira banhada por uma réstia de luz, o espaço vazio no lago em meio aos nenúfares, o caminho da encosta ladeado pelos abetos.
Então as aparições iam se configurando. Primeiro, os contornos do urso, apenas o perfil; uma linha indecisa que não chegava a interromper a paisagem. Concentrando-se mais, o monstro aos poucos ia ganhando forma. O dorso acentuava-se, nascia a possante cabeça, delineava-se a boca hiante, brotavam os dentes pontiagudos. Ângela sentia-se tomada por um calor intenso e estimulante que fazia brotarem miúdas pérolas de suor em sua testa delicada, nas palmas de suas mãos franzinas.
Ria, ria alto, pois estava bem longe da governante e podia divertir-se à vontade, esforçando-se para completar a figura daquele amigo ameaçador. Da goela escancarada do urso extravasava a saliva, as patas se elevaram, as garras exibiam-se ferozes, as pupilas destilavam sangue. Num esforço supremo a menina fazia com que a fera soltasse um urro bárbaro que, acentuando ainda mais o peso do animal, produzia estalos na vegetação debaixo de suas patas. No momento em que o monstro se aprestava para o golpe, ela cortava o fluxo da imaginação. A fera se diluía no espaço, deixando o solo intacto e a paisagem perfeita.
Nem mesmo ela sabia como chegara aquilo. Talvez a princípio só imaginasse flores. Acompanhada ou solitária, sempre lhe aprazia colher pelos campos tudo o que de belo encontrasse.
Um dia, violetas. Sonhara com violetas, saíra a procurá-las.
Jamais poderia encontrá-las naquela estação. Parara então junto ao lago, rente ao tufo de hortênsias, e se fixara no canteiro. Eis que nasceram violetas. Colheu-as, armou-as num pequeno buquê, arrumou-as no vaso e mostrou-as a todos. Mas como, violetas nesta quadra do ano? O jardineiro surpreendeu-se. Em que alfombra as achara? Ajustando os óculos o ancião abaixou-se junto às hortênsias sem nada encontrar. Depois, as rosas amarelas, as peônias azuis, os ciclames dourados. Ângela em breve descobriu que podia aperfeiçoar os seus poderes. Era muito interessante esse novo brinquedo, mas sob a condição de que permanecesse absolutamente secreto. Até então ela criara coisas de que gostava e que conhecia, o que equivalia a dizer - coisas que existiam, pois é razoável admitir-se que só existe o que se conhece. Ursos, gatos, cães, violetas e ciclames, às vezes mesmo abusando do privilégio de que dispunha e se proporcionando o capricho de divertir-se ante um coelho encarnado ou um leão azul. Mas a partir de certa época descobriu que também podia criar coisas que jamais vira e que, portanto, não existiam.
Como experiência, o que produziria em primeiro lugar?
Saiu de casa às escondidas, procurou o recanto mais remoto do parque, onde nem mesmo o jardineiro costumava penetrar. Fixou todo o seu pensamento na rocha, começou a polarizar a própria vontade. Como sempre, os olhos se contraíram, o suor começou a escorrer, fortes vincos marcaram-lhe a face, tornou-se rubra. Os contornos imprecisos foram aos poucos eclipsando o rochedo. Concentrando-se ao máximo, Ângela se tornava agora lívida. Pronto. Ali estava o anão.
Necessariamente grotesco, primeiro a giba, depois as mãos longas, aduncas, a cabeça enorme, todo vestido de prateado, com um barrete verde que lhe emprestava certa histrionidade medieval. Nisso, Ângela ouviu a voz do jardineiro chamando-a em altos brados. Apavorou-se, descontrolando-se. Sentiu o perigo que corria. O anão não era a violeta ou a rosa amarela. Era uma coisa que não existia, que atendera ao apelo de sua força interior. Tinha que proteger o filho de sua mente. Não desligou a imaginação aos poucos, mas abruptamente; e o resultado imprevisto foi impressionante: uma cabeça restou a gemer lastimavelmente, um pé se pôs a estertorar como um réptil, dois dedos gesticulavam no corpo morto como se pertencessem a um enforcado. O velho jardineiro pálido ao seu lado, depois a governante, teriam visto o anão? A cabeça solta no espaço, os pés lagarteando na lama, os dedos bailando no ar?
Não, ambos nada viram. O que viram, com estupor, foi o esgar que deformava a expressão da menina, o olhar repulsivo de quem teve um momento de gozo interrompido.
Depois, meses, estações, primaveras e invernos, outubros ventantes. O brinquedo e as experiências se aperfeiçoando sempre. Coisas estranhas nasciam agora da imaginação de Ângela adolescente. Criaturas débeis, delgadas, de olhos de um verde profundo; flores complicadíssimas cujos perfumes despertavam sensações inebriantes; anões e mais anões, sempre com as mesmas vestes prateadas e o mesmo ar atoleimado. E, às vezes, sêres que nem mesmo imaginara: olhos imensos, destituídos de cílios e de pálpebras, que apenas lhe estendiam os braços e lhe sorriam, e cujos umbigos se assemelhavam a incríveis corolas.
Mas se dos bichos obtinha urros e ganidos; se com as flores conseguia perfumes, com as criações antropomórficas nada mais conseguia além das imagens. Apenas a presença, os gestos vagos e harmônicos, as expressões acentuadas de prazer, de surpresa, a adesão irrestrita aos seus convites ou insinuações, a absurda concordância aos seus mais ligeiros pensamentos. E era então um diálogo de silêncios, uma cabra-cega de surdos-mudos, um esconde-esconde inusitado onde risos e vocativos cediam lugar ao crispar de músculos, ao distender de lábios, ao cerrar de olhos, adesão completa mas silenciosa ao seu comando.
Ora, conforme receava, um dia o brinquedo terminou. Por certo, espionagem do jardineiro, delação da governante; talvez um momento de descuido e fora pilhada pela fresta da porta, de uma janela entreaberta, uma falha da vegetação.
Ângela se lembrava. Primeiro um estranho, dias depois outro. Mais tarde, dois. Depois ainda outros e outros. E não só em sua casa, na cidade, na outra cidade, na cidade maior ainda. Dois, três, perguntas e respostas. "Como? Não sei, não entendi, o quê?" "Minha filha, responda, eles não vão fazer-lhe mal algum, querem apenas ajudá-la. Vamos, acalme-se, responda".
Muitos olhos, muitas mãos, janelas sobre parques sombrios, cheios de pessoas que caminhavam de cá para lá, como num jogo sem sentido. Sentadas, em pé, em cadeiras que rodavam, deitadas em camas que se moviam. O branco, tudo branco, o cheiro desagradável de paredes recém-pintadas.
Por algum tempo tudo ficou longe. Mas Ângela sabia que não estava só, que alguma coisa havia dentro dela que lhe era superior, impedindo-lhe os delírios da imaginação. E mesmo quando pensava em seus amigos eles agora não apareciam, conquanto lhes sentisse a presença. Magicamente, num processo oposto tudo se inverteu. Se antes imaginava e via, nada entretanto ouvia. Agora, fiscalizada no palácio álgido, dava-se o contrário: imaginava mas não via, escutava e sentia.
Não precisava das palavras do pai, das insinuações lentas e hesitantes dos estranhos. Falava sem dificuldade alguma. E, respondendo, via o assombro que se imprimia nos rostos que a cercavam. Tais respostas seriam suas? Tudo se tornava mais fácil, libertando-a de qualquer sensação de pavor. Sabia. Sabia firmemente: seus amigos agora falavam por seus lábios. Porque não? E era divertido observar o espanto que aquilo despertava em quantos pretendiam dialogar com ela.
Foi por essa época que um fato derradeiro se juntou às suas experiências.
Certa madrugada, encontrava-se sozinha, semi-adormecida no leito. A janela escancarada deixava entrar uma claridade tímida e o vento morno de outubro ondulava as cortinas que projetavam no quarto sombras fantásticas.
Fora um apelo? Um convite sussurrante? A brisa cálida da aurora? Um toque imperceptível de mão sobre seu seio nascente? Um comando descido do futuro ou uma súplica subida do passado?
Ângela levantou-se. O personagem estava debruçado no peitoril da janela. Os olhos do visitante faiscaram, salpicando as paredes de gotas de luz espectral. A criatura supra-terrestre flutuava. Seus membros eram compridos e leves e não se lhe distinguia o rosto cujas feições eram vedadas por um elmo translúcido.
Ângela acompanhou-o, fascinada. Sobre o parque adormecido viu os círculos brilhantes e concêntricos. Discos ordenados entre si como se fosse gemas de uma joia rara. A neblina rosada, o rodopio estonteante, a ciranda endoidecida crestando as tolhas verdes, vencendo a brisa de outubro, gerando uma pequena aurora dentro da aurora maior.
A derradeira estrela recolheu o seu brilho, a última e a mais próxima, como pupila que se fecha, como lampadário que se exaure, como farol que ante a fuga da treva desliga seu facho, certa de que a mensagem fora captada; esperando tranquila, agora, que a exilada socorrida viesse ter segura ao porto de origem, cessado o pesadelo de seu desterro.
Tirado de Passagem para Júpiter e Outras Histórias, 1971
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Rubens Teixeira Scavone
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Bruce Sterling - Piratas de Dados (ePUB)
Piratas de Dados (Islands in the Net) de Bruce Sterling
Neste livro, Sterling - o principal articulador e ideólogo do Movimento Cyberpunk - narra a trajetória de Laura Webster, executiva de uma corporação multinacional, após seu envolvimento em um atentado político. O cenário é o futuro próximo. O acesso à informação é a moeda mais valorizada e potentes drogas são comuns no cotidiano.
O grande desafio é o Terceiro Mundo, que está de posse de versões pirateadas da tecnologia de ponta dos países desenvolvidos e disposto a não jogar pelas regras das grandes corporações, que detêm o poder no mundo por meio do controle informático e econômico.
Piratas de Dados prende a atenção dos leitores porque, em cada acontecimento, em cada personagem, em cada detalhe de pano de fundo, apresenta um universo hipertecnológico verdadeiramente convincente, com estilo super-realista e fascinante. É o avanço de nossa atual tecnologia de ponta, passando da ficção para a realidade.
Sterling mostra o futuro com uma riqueza tão grande de detalhes que as pessoas que lerem Piratas de Dados terão, daqui a trinta anos, a impressão de um déjà vu, de que já viram isso.
A tecnologia é explorada com muita emoção na história, onde são descritos pontos básicos da doutrina cyberpunk, como grandes corporações multinacionais exercendo o controle da Terra e a informática dominando tudo.
O conceito cyberpunk associa-se a uma realidade computadorizada em que pessoas e informações se misturam. O livro também apresenta um trabalho sério sobre o impacto social do advento das inteligências artificiais e dos experimentos tecnológicos aplicados não somente ao dia-a-dia dos seres humanos como também dentro deles, em seus cérebros ou nas reentrâncias de sua pele; são a invasão da mente com computadores cerebrais interfaciais, inteligência artificial e neuroquímica; e a invasão do corpo, com membros protéticos, circuitos implantados, cirurgia cosmética e alteração genética. Onde redes de computadores e o cérebro das pessoas estarão interligados, conectados diretamente ao computador.
Download o EPUP aqui: http://www.4shared.com/office/Ryr8d8Ee/Piratas_de_Dados_-_Bruce_Sterl.html
Neste livro, Sterling - o principal articulador e ideólogo do Movimento Cyberpunk - narra a trajetória de Laura Webster, executiva de uma corporação multinacional, após seu envolvimento em um atentado político. O cenário é o futuro próximo. O acesso à informação é a moeda mais valorizada e potentes drogas são comuns no cotidiano.
O grande desafio é o Terceiro Mundo, que está de posse de versões pirateadas da tecnologia de ponta dos países desenvolvidos e disposto a não jogar pelas regras das grandes corporações, que detêm o poder no mundo por meio do controle informático e econômico.
Piratas de Dados prende a atenção dos leitores porque, em cada acontecimento, em cada personagem, em cada detalhe de pano de fundo, apresenta um universo hipertecnológico verdadeiramente convincente, com estilo super-realista e fascinante. É o avanço de nossa atual tecnologia de ponta, passando da ficção para a realidade.
Sterling mostra o futuro com uma riqueza tão grande de detalhes que as pessoas que lerem Piratas de Dados terão, daqui a trinta anos, a impressão de um déjà vu, de que já viram isso.
A tecnologia é explorada com muita emoção na história, onde são descritos pontos básicos da doutrina cyberpunk, como grandes corporações multinacionais exercendo o controle da Terra e a informática dominando tudo.
O conceito cyberpunk associa-se a uma realidade computadorizada em que pessoas e informações se misturam. O livro também apresenta um trabalho sério sobre o impacto social do advento das inteligências artificiais e dos experimentos tecnológicos aplicados não somente ao dia-a-dia dos seres humanos como também dentro deles, em seus cérebros ou nas reentrâncias de sua pele; são a invasão da mente com computadores cerebrais interfaciais, inteligência artificial e neuroquímica; e a invasão do corpo, com membros protéticos, circuitos implantados, cirurgia cosmética e alteração genética. Onde redes de computadores e o cérebro das pessoas estarão interligados, conectados diretamente ao computador.
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sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Karel Capek - Coleção de capas
Karel Čapek (Malé Svatoňovice, 9 de Janeiro de 1890 – Praga, 25 de Dezembro de 1938), foi um escritor checo. Foi o criador da palavra Robot (a partir de robota, que, em sua lingua e em outras línguas eslavas, pode significar trabalho exercido de forma compulsória. Em 1921, Capek escreveu uma peça de teatro chamada R.U.R., iniciais de "Rossum's Universal Robots". A peça conta a história de um cientista brilhante, chamado Rossum, que desenvolve uma substancia quimica similar ao protoplasma. Ele utiliza essa substancia para construçao de humanoides (robôs), com o intuito de estes sejam obedientes e realizem todo o trabalho físico.
Para visualizar a galeria de capa é por aqui: https://plus.google.com/photos/103998711237758699926/albums/5938702114582306273
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Bob Shaw - Coleção de Capas
E também no Pinterest: http://www.pinterest.com/hermanschmitz/bob-shaw-gallery/
Bob Shaw, nacido Robert Shaw, (31 diciembre 1931-11 febrero 1996) fue un autor de ciencia ficción de Irlanda del Norte, que destacó por su originalidad e ingenio. Ganó el Premio Hugo en 1979 y 1980. Su cuento 'Luz de otros días' fue nominado al premio Hugo en 1967, al igual que su novela 'Los astronautas desiguales' en el año 1987.
Shaw nació y se crió en Belfast, el mayor de los tres hijos de un policía. Tomo contacto con la ciencia ficción a los 11 años, cuando leyó un cuento en una edición temprana de Astounding Science-Fiction, la revista. Más tarde describió la experiencia como más significativa y de larga duración que tomar LSD
Publicó su primer relato de ciencia -ficción en 1951, seguido por varios otros.
Originalmente se formó como ingeniero estructural, trabajó como diseñador de aviones y luego como corresponsal de ciencia del Belfast Telegraph y como oficial de publicidad para la construcción naval Vickers, antes de comenzar a escribir a tiempo completo.
Sufrió de migraña inducida por alteraciones visuales durante toda su vida. Esto y las referencias a los ojos y la visión, aparece como un tema en algunas de sus obras.
Shaw murió de cáncer el 11 de febrero de 1996.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Arthur C. Clarke - Os Próximos Inquilinos (Conto)
Os Próximos Inquilinos
Arthur C. Clarke
— O número de cientistas loucos que desejam conquistar o mundo — disse Harry Puvis olhando pensativamente para seu chope — tem sido vergonhosamente exagerado. Na verdade, só me lembro de ter conhecido um.
— Então não pode ter havido muitos outros — comentou Bill Temple ligeiramente sarcástico. — Não é o tipo de coisa fácil de esquecer.
— Creio que não — replicou Harry com aquele ar de indiscutível inocência que tanto desconcerta seus críticos. — E, por falar nisto, esse cientista não era realmente louco apesar de não haver dúvidas de que estava partindo para conquistar o mundo. Ou, para ser mais preciso, para deixar que o mundo fosse conquistado.
— E por quem? — perguntou George Whitley. — Pelos marcianos? Ou talvez pelos tão nossos conhecidos homenzinhos verdes de Vênus?
— Nenhum deles. Estava colaborando com alguém muito mais próximo. Vocês saberão com quem, quando eu lhes disser que ele era um mirmecologista.
— Um mirme-o-quê? — perguntou George.
— Deixem o homem continuar com a estória — disse Drew do outro lado do balcão. — Já passa das dez e, se não conseguir, nesta semana, botar vocês todos para fora na hora de fechar, perco minha licença.
— Muito obrigado — falou Harry muito digno, passando-lhe o copo para reabastecimento. — Tudo aconteceu cerca de dois anos atrás, quando eu estava numa missão no Pacífico. Era uma missão bem secreta, mas em vista do que ocorreu posteriormente, não há mal em falar. Éramos três cientistas desembarcados num certo atol do Pacífico, a menos de mil e seiscentos quilômetros de Bikini para, no prazo de uma semana, instalar certos equipamentos detectores. Eram destinados, é claro, a ficarem de olho em nossos queridos amigos e aliados quando começassem a brincar com reações termonucleares, isto é, a catar as migalhas da mesa da C.E.A., (Comissão de Energia Atômica - N. do E.), e deixassem alguma. Naturalmente os russos estavam fazendo a mesma coisa e quando, ocasionalmente, dávamos de cara uns com os outros, ambos os lados fingiam não haver ninguém ali além de nós mesmos.
Supunha-se que aquele atol fosse desabitado, mas isto foi um engano considerável. Na verdade tinha uma população de várias centenas de milhões. . .
— O quê?! — arquejaram todos.
— ...Várias centenas de milhões — continuou Purvis calmamente — entre os quais havia apenas um humano. Esbarrei com ele quando, certo dia, resolvi dar um passeio terra adentro para ver a paisagem.
— Terra adentro? — perguntou George Whitley. — Pensei que você tinha dito que era um atol. Como pode um anel de coral. ..
— Era um atol bem amplo — disse Harry firme. — Além do mais, quem é que está contando a estória?
Esperou, desafiador, durante um minuto, até conseguir centrar novamente as atenções.
— Lá estava eu então, subindo um encantador curso de rio sob as palmas dos coqueiros, quando, para minha surpresa, deparei com uma roda hidráulica, e das mais modernas, movendo um gerador. Se fosse sensato, teria voltado e contado a meus companheiros, mas não pude resistir ao desafio e fazer um reconhecimento por minha conta. Lembrei-me que supunha-se haver ainda por ali tropas japonesas que não sabiam que a guerra tinha acabado, mas esta explicação me pareceu pouco plausível.
Fui seguindo os fios colina acima e, do outro lado, vi um prédio baixo, caiado, no meio de uma grande clareira e, nesta, alguns montes irregulares de terra ligados entre si por uma rede de fios elétricos. Era uma das cenas mais perturbadoras que jamais vira e fiquei ali em pé, olhando, por uns bons dez minutos, tentando imaginar o que podia ser. Quanto mais eu olhava, menos sentido fazia.
Estava decidindo o que fazer, quando um homem alto, de cabelos brancos, saiu do prédio e foi até um dos montes. Carregava uma espécie de aparelho e tinha um par de fones pendurado no pescoço, o que me fez imaginar que estivesse usando um contador Geiger. Só então descobri o que eram aqueles montes altos. Eram termitários. . . Os arranha-céus onde vivem as chamadas formigas brancas e que, proporcionalmente aos seus construtores, são bem mais altos que o Empire State Building.
Fiquei olhando com muito interesse, mas completamente confuso, o velho cientista inserir seu aparelho na base do termitário, ouvir atentamente um instante e voltar para o edifício. A esta altura, estava tão curioso que resolvi revelar minha presença. Qualquer pesquisa que estivesse em andamento naquele lugar obviamente não tinha nada a ver com política internacional, e se alguém tinha alguma coisa a esconder era eu. Mais tarde vocês poderão avaliar como eu estava equivocado.
Gritei para chamar a atenção e corri colina abaixo acenando. O desconhecido parou e ficou olhando enquanto me aproximava, sem parecer surpreso. Quando cheguei mais perto, vi que ele tinha um bigode caído, o que lhe dava uma ligeira aparência oriental. Era muito empertigado para os sessenta anos que aparentava, e apesar de estar vestindo apenas calções, seu ar era tão digno que fiquei bastante encabulado com minha chegada barulhenta.
'Bom dia' — disse eu desculpando-me. — 'Não sabia que havia mais alguém nesta ilha. Estou aqui numa... ahnn. . . expedição científica.'
Quando ouviu isso, os olhos do estranho brilharam. 'Ah' — disse num inglês quase perfeito. — 'Um colega cientista! Estou muito satisfeito em conhecê-lo. Vamos entrar.'
Eu o segui com prazer (estava bastante suado depois daquela corrida) e descobri que o prédio não passava de um grande laboratório. Num canto estava a cama e um par de cadeiras e, ao lado, um fogão e uma dessas bacias de armar que os excursionistas usam. Esses pareciam ser todos os apetrechos domésticos. Tudo, porém, estava limpo e arrumado. Meu amigo desconhecido podia ser um eremita mas acreditava em manter as aparências.
Eu me apresentei e, como esperava, ele prontamente fez o mesmo. Era o Professor Takato, biólogo de uma das principais Universidades japonesas. Afora o bigode que já mencionei, não parecia muito japonês. Com seu porte ereto e digno, lembrava mais um velho coronel do Kentucky que conheci.
Depois de me ter servido um vinho estranho mas reanimador, sentamo-nos e conversamos umas duas horas. Como a maioria dos cientistas, ficava feliz em encontrar alguém que pudesse apreciar o seu trabalho. É verdade que meus interesses estavam mais na física e na química do que na biologia, mas fiquei fascinado com a pesquisa do Professor Takato.
Não acredito que vocês entendam muito de térmitas e por isso vou lhes expor alguns fatos bem interessantes. Elas estão entre os insetos gregários mais altamente evoluídos e vivem em enormes colônias na região tropical. Não toleram o frio e, estranhamente, tampouco podem suportar a luz direta do sol. Quando querem ir de um lugar para outro, constroem pequenos caminhos cobertos. Parece que têm meios desconhecidos e quase instantâneos para se comunicarem e, apesar das térmitas individualmente serem desamparadas e estúpidas, uma colônia comporta-se como um animal inteligente. Alguns escritores têm feito comparações entre um termitário e o corpo humano. Este também é composto de células vivas individuais que, juntas, formam uma entidade muito mais elevada que as unidades básicas. É comum as térmitas serem chamadas de formigas brancas, mas esta designação é totalmente incorreta, porque absolutamente não são formigas, mas uma espécie bem diferente de inseto. Ou será que deveria dizer genusl Sou muito impreciso nessas coisas. . .
Perdoem a pequena dissertação mas, depois de ouvir Takato durante algum tempo, eu mesmo comecei a ficar bastante entusiasmado com térmitas. Vocês sabiam, por exemplo, que elas não apenas cultivam jardins, como também criam vacas — vacas-inseto, é claro — e as ordenham? Sim, senhores, são uns diabinhos muito sofisticados, se bem que façam tudo por instinto.
Está na hora de contar a vocês alguma coisa sobre o professor. Ele estava na ilha havia muitos anos e, embora no momento vivesse sozinho, já tivera uma boa quantidade de assistentes que traziam equipamento do Japão e o ajudavam em seu trabalho. Sua primeira grande realização foi fazer com as térmitas o que Von Frische havia feito com as abelhas: aprendeu sua linguagem. Era muito mais complexa que o sistema de comunicação que as abelhas usam, o qual, como é possível que vocês saibam, baseia-se na dança. Descobri que a rede de fios ligando os termitários ao laboratório não apenas capacitava o Professor Takato a ouvir as térmitas falando entre si, como também permitia que falasse com elas. Isto não é tão fantástico como parece, se entendermos o verbo falar em seu sentido mais amplo. Nós falamos com um grande número de animais, mas absolutamente não usamos todas as vezes a nossa voz. Quando atiramos um pedaço de pau para nosso cão ir buscar, é uma forma de falar com ele: uma linguagem por sinais. Descobri que o professor tinha desenvolvido uma espécie de código entendido pelas térmitas, mas não sei até que ponto ia sua eficiência na transmissão de idéias.
Voltei todos os dias, sempre que tinha tempo, e no fim de uma semana éramos amigos íntimos. Pode parecer estranho que eu conseguisse esconder essas visitas dos meus colegas, mas a ilha era bem grande e todos nós excursionávamos muito. Eu sentia que, de certa forma, o Professor Takato era minha propriedade, e não queria expô-lo à curiosidade de meus companheiros. Eles eram uns sujeitos rústicos, formados por alguma universidade provinciana como Oxford ou Cambridge.
Fico satisfeito em dizer que fui capaz de dar um pouco de ajuda ao professor, consertando seu rádio e pondo em ordem parte de sua aparelhagem eletrônica. Ele usava muito os detectores radiativos para seguir a pista de térmitas isoladas. Na verdade, era o que estava fazendo com um contador Geiger quando o encontrei pela primeira vez.
Quatro ou cinco dias depois de nos conhecermos, seus mostradores desandaram e o equipamento que tínhamos montado começou a gravar. Takato adivinhou o que tinha acontecido. Nunca me perguntara o que, exatamente, eu estava fazendo nas ilhas, mas acho que desconfiava. Quando o cumprimentei, ligou seus contadores e me deixou ouvir o metralhar da radiação. Tinha caído um pouco de poeira radiativa, nada de perigoso, mas o suficiente para botar todos os detectores a funcionar.
'Acho' — disse ele mansamente — 'que vocês, físicos, estão se divertindo novamente com seus brinquedinhos. E desta vez, com uns bem grandes.'
'Receio que o senhor tenha razão' — respondi. Não teríamos certeza até que as leituras tivessem sido analisadas, mas tudo levava a crer que Teller e seu grupo tinham começado a reação de hidrogênio. — 'Não falta muito para fazermos as primeiras bombas atômicas parecerem buscapés molhados.'
'Minha família' — disse impassível o Professor Takato — 'estava em Nagasaki.'
Não havia muito a ser dito depois disso, e foi com alívio que o ouvi continuar acrescentando: 'Já passou pela sua cabeça quem vai governar quando estivermos liquidados?'
'Suas térmitas?' — perguntei, tentando ser engraçado. Pareceu hesitar um pouco e depois disse em voz baixa: 'Venha. Ainda não lhe mostrei tudo.'
Conduziu-me até um canto do laboratório, onde uma parte do equipamento jazia sob uma camada de poeira. Ali, o professor descobriu uma aparelhagem bem estranha. À primeira vista, parecia um daqueles manipuladores usados para o manejo à distância de materiais perigosamente radiativos. Havia pegadores pantográficos que executavam movimentos com barras e alavancas, e tudo parecia convergir para uma pequena caixa alguns centímetros, num dos lados.
'Que é isto?' — perguntei.
'É um micromanipulador. Foi aperfeiçoado pelos franceses para trabalhos biológicos. Existem poucos no mundo.'
Aí, eu me lembrei. Por intermédio daqueles dispositivos, e usando engrenagens redutoras apropriadas, poder-se-iam realizar operações inacreditavelmente delicadas. A gente movia o dedo um centímetro e o instrumento que estávamos controlando movia-se um milésimo de centímetro. Os cientistas franceses, que tinham desenvolvido essa técnica, haviam construído pequenas forjas onde podiam fabricar minúsculos escalpelos e pinças de vidro fundido. Trabalhando o tempo todo com microscópios, puderam dissecar células isoladas. Remover o apêndice de uma térmita (na possibilidade altamente duvidosa do inseto possuir um) seria brincadeira de criança com tal instrumento.
'Não sou muito habilidoso com o manipulador' — confessou Takato. — 'É sempre um de meus assistentes que trabalha com ele. Nunca mostrei isso a ninguém, mas você tem sido de muita ajuda. Venha, por favor.'
Saímos do laboratório e fomos andando pelas avenidas de montes altos e duros como cimento. Não tinham todos o mesmo estilo arquitetônico porque existem muitas espécies diferentes de térmitas e algumas nem mesmo constroem montes. Eu me sentia como um gigante andando em Manhattan, pois aqueles montes eram arranha-céus, cada um com sua abundante população. Havia uma cabana de metal (nunca de madeira: as térmitas a liquidariam num instante!) ao lado de um dos montes e constatei, ao entrarmos, que a luz do sol havia sido eliminada. O Professor girou uma chave e uma pálida luminescência vermelha me permitiu divisar uma grande variedade de equipamento ótico.
'Elas odeiam a luz' -— disse. — 'E é um problema observá-las. A solução foi usar infravermelho. Este é um conversor de imagens do tipo usado na guerra, em operações noturnas. Você sabia da existência destas coisas?'
'Claro' — respondi. — 'Eram colocados nos rifles dos franco-atiradores para que tivessem pontaria perfeita no escuro. Coisinhas muito engenhosas. Estou satisfeito por o senhor ter descoberto um uso civilizado para elas.'
Levou muito tempo para o professor encontrar o que queria. Parecia que estava dirigindo uma espécie de arranjo periscópio, sondando os corredores da cidade das térmitas. De repente, ele disse: 'Rápido, antes que sumam!'
Avancei e ocupei seu lugar. Levei pouco mais de um segundo para focalizar corretamente, e um pouco mais ainda para decifrar a escala da cena que estava vendo. Eram seis térmitas, muito ampliadas, movendo-se rapidamente pelo meu campo de visão. Estavam viajando em grupo, formando parelhas como os cães do Alasca. A analogia é excelente pois estavam rebocando um trenó. . .
Fiquei tão espantado que nem cheguei a reparar qual era a carga que levavam. Quando desapareceram da vista, virei-me para o Professor Takato. Meus olhos já tinham se acostumado ao fraco clarão vermelho e podia vê-lo bem.
'Então é isto o que o senhor vem construindo com seu micromanipulador! É fantástico! Eu nunca teria acreditado...
'Isso não é nada' — replicou o Professor. — 'Pulgas amestradas puxam um carrinho de um lado para o outro. Ainda não lhe contei o mais importante. Fizemos apenas uns poucos trenós daqueles. O que você viu foi construído por elas mesmas.'
Esperou enquanto aquilo penetrava em meu cérebro. Demorou um pouco. Continuou depois, sossegadamente mas com um entusiasmo reprimido na voz: 'Lembre-se de que as térmitas, enquanto indivíduos, praticamente não têm inteligência, mas a colônia, como um todo, pertence a uma classe muito elevada de organismos. E um organismo imortal, se excetuarmos acidentes. Atingiu o estágio instintivo em que se encontra, e nele estacionou milhões de anos antes de aparecer o homem, e nunca poderá, sem ajuda, escapar da sua presente perfeição estéril. Encontra-se num beco sem saída, e isso porque não tinha ferramentas, nem um modo eficaz de controlar a natureza. Eu lhes dei a alavanca para aumentar sua força e agora o trenó para aperfeiçoar sua eficiência. Tenho pensado na roda, mas é melhor deixá-la para um estágio posterior. Não seria muito útil agora. Os resultados excederam minhas expectativas: comecei apenas com este termitário e agora todos eles têm as mesmas ferramentas. Ensinaram uns aos outros e isso prova que podem cooperar entre si. É verdade que há guerras, mas nunca quando têm comida suficiente para todos, como é o caso aqui.
'A questão é que não se pode julgar um termitário por padrões humanos. Meu objetivo é dar uma sacudida em sua cultura rígida e estática, tirá-la do buraco em que está atolada há tantos milhões de anos. Eu lhes darei mais ferramentas, mais técnicas novas e espero, antes de morrer, vê-las começar a inventar coisas sozinhas.'
'Por que está fazendo isso?' — perguntei, sabendo que havia ali mais que simples curiosidade científica.
'Porque não acredito na sobrevivência do homem, mas espero preservar algumas de suas descobertas. Se nossa espécie é um beco sem saída, acredito que se deva dar uma mãozinha a outra raça.
'Sabe por que escolhi esta ilha? Para que os resultados de minha experiência permanecessem isolados. Minha super-térmita, se conseguir chegar a tal, terá que ficar aqui até atingir um grau muito elevado de desenvolvimento. Para falar a verdade, até estar em condições de atravessar o Pacífico. . .
'Existe ainda outra possibilidade. O homem não tem rival neste planeta. Penso que ter um lhe faria bem. Pode ser sua salvação.'
Eu não tinha nada a dizer. Aquela olhadela nos prognósticos do Professor tinha sido um tanto opressiva, mas em vista do que eu acabara de testemunhar, a coisa parecia bastante convincente. Eu sabia que o Professor Takato não estava louco. Era um visionário e havia um desapego sublime em suas perspectivas, que eram, no entanto, baseadas nos alicerces firmes de conquistas científicas.
Não que fosse hostil à espécie humana: ele a lamentava. Acreditava simplesmente que a humanidade tinha dado sua última cartada, e queria ver se conseguia salvar alguma coisa das ruínas. Eu não podia censurá-lo por isto.
Devemos ter ficado um longo tempo naquela cabana conjeturando os futuros possíveis. Lembro-me de ter sugerido que talvez pudesse chegar a haver algum tipo de entendimento mútuo, visto que duas culturas tão díspares como Homem e Térmita não teriam necessariamente pontos conflitantes. No fundo eu não podia acreditar nisso e, se chegasse a haver um choque, não estou certo de quem venceria. De que valeriam as armas do homem contra um adversário inteligente que podia devastar todos os campos de trigo e colheitas de arroz do mundo?
Quando saímos da cabana, estava quase na hora do crepúsculo e só então o Professor fez sua revelação final.
'Em algumas semanas' — disse — 'vou dar o maior de todos os passos.'
'E qual vai ser?' — perguntei.
'Você não adivinha? Vou lhes dar o fogo.'
Estas palavras provocaram qualquer coisa em minha espinha. Senti um calafrio que nada tinha a ver com o anoitecer. O glorioso pôr de sol que se entrevia pelas palmas dos coqueiros parecia simbólico e, de repente, percebi que este simbolismo era ainda mais profundo do que pensara.
Aquele ocaso foi um dos mais lindos que já presenciei e era, em parte, obra do homem. Lá em cima, na estratosfera, a poeira de uma ilha que morrera naquele dia começava a envolver a Terra. Minha raça tinha dado um grande passo para a frente, mas será que isto importava agora?
Vou lhes dar o fogo. De alguma forma nunca duvidei do sucesso do Professor e quando o obtivesse, as forças que minha raça acabara de libertar não a salvariam...
O hidroavião veio-nos apanhar no dia seguinte e nunca mais vi Takato. Ainda está lá e eu o considero o homem mais importante do mundo. Enquanto nossos políticos se atracam, ele nos está tornando obsoletos.
Vocês acham que alguém deveria detê-lo? Ainda pode estar em tempo. Tenho pensado muito a este respeito mas, até agora, não me ocorreu uma razão realmente convincente para interferir. Uma ou duas vezes quase me decidi, mas aí peguei o jornal e vi as manchetes.
Acho que devemos dar uma oportunidade a elas. Não vejo como poderiam se sair pior que nós.
Título original "The Next Tenants", 1957
Arthur C. Clarke - Contos da Taberna
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segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Robert A. Heinlein - O Gato que Atravessa Paredes (epub-Português)
Robert A. Heinlein
O Gato que Atravessa Paredes
O autor de clássicos de ficção científica, Robert A. Heinlein, criou, neste livro, mundos com tal riqueza de detalhes e habitados por indivíduos tão vigorosamente vivos e interessantes que os leitores nunca se cansarão de voltar a eles. Esta obra do mestre inigualado da ficção científica constitui uma visão divertida, instigadora e sábia dos mundos do futuro - mundos de possibilidades e esperanças, perigo e amor, nos quais a História enlouqueceu, e homens e mulheres tentam controlar o destino (e mudá-lo antes que o pior aconteça), trafegando nas dimensões do tempo e do espaço.
Em O Gato que Atravessa Paredes, seguimos as pegadas do coronel Colin Campbell, conhecido também como dr. Richard Ames, quando não como senador Richard Johnson, uma personagem bem de acordo com a fina tradição de Heinlein, que combina em uma só pessoa o filósofo, o soldado e o aventureiro, e da enigmática e inesquecível Gwen, em uma aventura alucinante que é parte Tom Jones, parte Guerra nas Estrelas e parte A Máquina do Tempo - e infalivelmente Heinlein. De condomínios de luxo em órbita e da atmosfera (atmosfera?) de fronteira selvagem da Lua aos mundos do passado e do futuro, o leitor é convidado a visitar (ou revisitar) lugares simultaneamente conhecidos e estranhos, reais e fantásticos, que só este emérito contador de histórias poderia criar.
Nestas páginas, o leitor reencontrará o mais inventivo dos autores de ficção científica no auge de seus poderes criativos, mais desafiante e provocador do que nunca, sonhador e profeta, o incomparável Robert A. Heinlein, quatro vezes vencedor do cobiçado Prêmio Hugo, a láurea máxima da ficção científica, e galardoado com o Grande Prêmio Nébula pelo conjunto de obra.
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Robert A. Heinlein
A.E. Van Vogt - As Casas de Armas de Isher (Romance)
AS CASAS DE ARMAS DE ISHER
A.E. Van Vogt
No ano de 4.784 o universo era inteiramente dominado pelo Império de Isher, governado com poderes absolutos pela bela e
jovem Imperatriz Innelda. Mergulhada em jogos e prazeres, a ditadura de
Innelda levou Isher à beira de um desastre cósmico. Para evitar a
destruição de bilhões de seres humanos espalhados pelas colônias
existentes nos outros planetas e luas, surgiram aparentemente do nada
cadeias de inquietantes e misteriosas lojas de armas, que traziam na
fachada um estranho lema: O direito de comprar armas é o direito de ser
livre. Essas lojas protegidas por uma enorme força energética,
absolutamente intransponível, faziam parte de uma sociedade secreta de
oposição à ditadura, que vendia suas armas aos cidadãos ameaçados.
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