QUEM É ROBERT SILVERBERG
por ISAAC ASIMOV
Se há coisa que eu goste de fazer é brilhar condescendentemente ao lado da ofuscante luz de jovens autores que se introduzem em meu campo, isto é, a ficção científica. É algo sumamente delicioso, para um homem intransigente, possuidor de enorme lastro como mestre estabelecido no gênero - sou Isaac Asimov, esclareço, para o caso de você nunca ter ouvido falar em mim - encorajar alguns jovens que começam a engatinhar no terreno que venho pisando firmemente há muito tempo. Estava pronto para fazer isso por Robert Silverberg quando ele começou a publicar histórias de ficção científica, em meados de 1950. Preparei um pequeno discurso, que nada tinha de espantoso em matéria de inspiração, claro, mas continha o toque exato da necessária dignidade. E o fiz.
Que pensa você que a miserável e ingrata criatura fez? Subiu com a incrível velocidade de um foguete interplanetário!
Eu estava descendo para erguê-lo acima de minha cabeça, quando o diabo disparou e passou raspando pelo meu nariz! Quando dei um passo atrás e olhei para cima, lá estava Robert Silverberg - uma estrela de primeira grandeza no céu da ficção científica. Transformara-se, de mero fã, em ótimo escritor, exatamente em zero tempo.
Depois de uns dois meses, muita gente veio dizer-me:
- Olhe para ele, Asimov, e procure, você também, ser um Robert Silverberg algum dia! Matei-os, é claro, um por um!)
Mas era verdade. Você deve estar achando que acabei passando por cima dessas coisas, mas não o fiz. Estava em meu íntimo o cancro de todas as vinganças abortadas, emaranhando-se e roendo-me. Eu não podia esquecer. Algum dia - guarde bem minhas palavras - algum dia chegará o tempo em que ele irá querer erguer-me acima de sua cabeça e pronunciar palavras protetoras!
E EU NÃO QUERO ISSO!
Como se não bastasse, o jovem Robert intensificou seu vicioso comportamento, realizando exatamente o que todo escritor gostaria de realizar.
Imagine! É moreno, bonito e esguio; tem sombrios, brilhantes e profundos olhos, que parecem provar que sob a pele e músculos - para desarmar a gente - existe uma verdadeira alma habilidosa no manejo do escalpelo Já vi muitas mocas caírem em êxtase diante de seu olhar quente-frio, que lhes fora conferido por um momento apenas e depois desviado com indiferença.
Eu, é claro, sou imune a isso; mas quando ele me olha, apresso-me a abotoar o paletó.
Além disso, ele é barbudo. Usa barba, mas não com exagero, apenas a que recomenda seu tino literário. O que lhe confere satânica aparência. Já vi muitas mocas caírem... Não. Já disse isso antes. (Claro que tenho inveja. Sou incrivelmente bonito, mas meu rosto tem uma beleza clara, aberta, honestamente franca, com um nadinha de satânico; apenas o suficiente para inspirar verdadeiros sentimentos fraternais aos corações femininos.)
E, como isso tudo nada fosse, sua conversa não é frívola. Não a dele, que maneja a ironia como um estilete, enterrando-o, sem que a gente o perceba, até o coração. Para ele, de preferência, reserva a magnífica arte de retalhar, tão eficientemente, sem exagerada pressa, rasgando a pele da gente da cabeça aos pés.
Certamente sua taça de iniquidade está repleta!
Ainda não. Que espécie de esposa você acha que esse tipo de escritor deveria arranjar? Uma víbora que lhe desse de volta o que ele tão ricamente prodigaliza com naturalidade.
Bem, mas não é assim. Bárbara Silverberg é uma doce, gentil e lindíssima moça, que satisfaz amorosamente a todos os caprichos de Robert e que acredita em sua aparência indecentemente inteligente! Ela, por sinal, é engenheira.
Naturalmente, tentei várias vezes ficar a sós com ela para esclarecer alguns pontos de engenharia, dos quais necessitava para algumas de minhas obras mais técnicas.
Você deve achar que o jovem Robert procura compreender necessidades de pesquisas como essas... Mas, apesar de toda aparência externa, ele é mais satânico e matreiro do que se pensa! Em todas as ocasiões, permanece sempre entre Bárbara e eu... e toma nota de tudo!
Acho que essa é uma de suas piores características: simplesmente, ele não tem tato!
Seria bem feito para ele se você se recusasse a ler este livro!
Mas, vamos, leia-o! Você verá que é bom. Esse traidor escreve excelentes histórias!
Isaac Asimov, prefácio para a antologia de contos de Robert Silverberg: Rumos aos Mundos do Futuro. (Edameris - 1967)
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Isaac Asimov - O Demônio de Dois Centímetros (Azazel)
O DEMÔNIO DE DOIS CENTÍMETROS
Conheci George em uma convenção literária, faz muito tempo. O que me chamou mais a atenção foi a expressão de honestidade e inocência que havia naquele rosto redondo, de meia-idade. Era o tipo de pessoa - pensei - que a gente deixa tomando conta da carteira quando vai dar um mergulho.
Ele me reconheceu pelas fotografias que saem na quarta capa dos meus livros. Cumprimentou-me jovialmente, dizendo que adorava meus contos e romances, o que, naturalmente, me convenceu de que se tratava de uma pessoa inteligente e de bom gosto.
Apertamos as mãos cordialmente e ele disse:
- Meu nome é George Bimnut.
- Bimnut - repeti, para gravá-lo melhor. - É um nome diferente.
- É dinamarquês - explicou -, e muito aristocrático. Descendo de Cnut, mais conhecido como Canuto, um rei dinamarquês que conquistou a Inglaterra no início do século XI. Um dos meus ancestrais era filho dele, nascido do lado errado das cobertas, é claro.
- É claro - murmurei, embora não entendesse bem o que havia de evidente em tal afirmação.
- Ele recebeu o nome de Cnut em homenagem ao pai - prosseguiu George. - Quando foi apresentado ao rei, o monarca perguntou:
""Homessa, este é o meu herdeiro?"
"Não, majestade", disse o cortesão que segurava no coIo o pequeno Cnut. "Ele é um filho ilegítimo. A mãe é aquela lavadeira que Vossa Majestade..."
""Ah! Ainda bem!", exclamou o rei. Daquele dia em diante, meu ancestral passou a ser conhecido como Bemcnut. Apenas por este nome. Herdei-o por sucessão direta, mas com o tempo o sobrenome mudou para Bimnut.
Nesse momento, seus olhos azuis olharam para mim com uma espécie de ingenuidade hipnótica que me impediu de duvidar de suas palavras.
- Quer almoçar comigo? - disse para ele, fazendo um gesto na direção de um restaurante muito enfeitado, que obviamente cobrava preços extorsivos.
- Não acha que ele parece muito vulgar? - observou George. - Talvez a lanchonete do outro lado da rua seja...
- Como meu convidado - acrescentei.
George lambeu os lábios e disse:
- Agora que estou olhando para o restaurante de um ângulo melhor, ele parece ter uma atmosfera aconchegante.
- Está bem, vamos até lá.
Enquanto comíamos, George comentou:
- Meu antepassado Bimnut teve um filho de nome Sweyn. Um típico nome dinamarquês.
- Eu sei - disse eu. - O nome do pai do rei Cnut era Sweyn Forkbeard. Nos tempos modernos, o nome geralmente é escrito Sven.
George franziu a testa e protestou:
- Não há necessidade, meu velho amigo, de ficar se exibindo para mim. Aceito o fato de que você tem os rudimentos de uma educação.
- Desculpe - respondi, sentindo-me envergonhado.
Ele fez um gesto complacente, pediu outro copo de vinho e disse:
- Sweyn Bimnut era fascinado por mulheres jovens, uma característica que todos os Bimnuts herdaram, e fazia muito Sucesso com elas, também... o que parece ser um traço de família. Contam que as mulheres o viam passar e comentavam: "Oh, como ele é lindo!". Ele também era um arquimago. - Fez uma pausa e depois perguntou, muito sério: - Sabe o que é um arquimago?
- Não - menti, sem querer ofendê-lo de novo com meus conhecimentos. - Explique para mim.
- Um arquimago é um grande mago - disse George, com o que me pareceu ser um suspiro de alívio. - Sweyn havia estudado as artes ocultas. Naquela época, isso ainda era possível. As pessoas não eram céticas como hoje em dia. A intenção dele era descobrir maneiras de persuadir as jovens a se comportarem daquela forma dócil e gentil que só faz enaltecer a feminilidade e a deixarem de lado qualquer atitude in-transigente e pouco cooperativa.
- Ah.
- Para isso, precisava de demônios. Descobriu que podia conjurá-los queimando certos arbustos e pronunciando palavras místicas.
- E deu certo, Sr. Bimnut?
- Chame-me de George, por favor. Claro que deu certo. Havia um bando de demônios trabalhando para ele, porque, como costumava observar, em tom queixoso, as mulheres de sua época eram céticas e indelicadas; recusavam-se a acreditar que fosse neto de um rei e faziam observações desairosas a respeito da sua genitora. Depois que um dos demônios entrava em ação, porém, tudo se tornava diferente; elas passavam a compreender que um filho natural é uma coisa muito natural.
- Tem certeza de que o seu antepassado realmente conseguia conjurar demônios, George?
- Tenho, sim. No verão passado encontrei o livro dele de receitas para chamar demônios. Estava em um velho castelo inglês que hoje não passa de uma ruína mas já pertenceu à minha família. Havia uma lista com os nomes dos arbustos, a maneira de queimá-los, as palavras a serem lidas, tudo. Estava escrito em inglês antigo (anglo-saxão, você sabe), mas estou estudando filologia e...
Não pude esconder um certo ceticismo.
- Você deve estar brincando - observei.
George olhou para mim, ofendido.
- Por que pensa assim? Por acaso estou rindo? Era um livro autêntico. Testei as receitas pessoalmente.
E conseguiu um demônio.
- Isso mesmo - declarou, apontando para o bolso de cima do paletó.
- Está ai dentro?
George apalpou o bolso e preparava-se para fazer que sim com a cabeça quando seus dedos sentiram (ou deixaram de sentir) alguma coisa. Olhou para dentro do bolso.
- Ele sumiu - declarou, aborrecido. - Desmaterializou-se. Mas a culpa não é dele. Veio me visitar ontem à noite porque estava curioso para saber como era uma convenção, você entende. Dei-lhe um pouco de uísque com um conta-gotas e ele gostou. Talvez tenha gostado até demais, porque começou a puxar briga com uma cacatua que estava em uma gaiola, perto do bar, chamando-a de nomes horrorosos. Felizmente, adormeceu antes que o pássaro ofendido resolvesse tomar uma atitude. Esta manhã, não estava com uma cara muito boa. Deve ter ido para casa, curtir a ressaca.
Eu me sentia um pouco ofendido. Será que ele esperava que eu acreditasse naquilo?
- Está me dizendo que havia um demônio no bolso do seu paletó?
- Seu poder de dedução é impressionante - disse George.
- Qual é a altura dele?
- Dois centímetros.
- Mas isso é menos que uma polegada!
- Absolutamente certo. Uma polegada tem 2,54 centímetros.
- Quero dizer: que tipo de demônio tem dois centímetros de altura?
- Um demônio pequeno, é claro. Mas, como diz o velho ditado, é melhor um demônio pequeno do que nenhum demônio.
- Depende do tipo de demônio.
- Oh, Azazel {é o nome dele) é um demônio bonzinho. Desconfio que é desprezado pelos colegas, porque se mostra extremamente ansioso para me impressionar com seus poderes. Entretanto, recusa-se a usá-los para me tornar rico, o que não seria nada de mais, considerando que sou seu único amigo terrestre. Não, ele insiste em que seus poderes devem ser usados apenas para fazer o bem a outras pessoas.
- Ora, vamos, George. Esta certamente não é a filosofia do inferno.
George levou o dedo aos lábios.
- Não diga coisas como essa, amigo velho. Azazel fica ria muito ofendido. Ele garante que sua terra é simpática, decente e altamente civilizada, e fala com enorme respeito do governante dele, a quem se refere simplesmente como o Todo-poderoso.
- Ele faz mesmo coisas boas?
- Sempre que pode. Veja o caso da minha afilhada, Juniper Pen...
- Juniper Pen?
- Isso mesmo. Posso ver pela expressão de curiosidade no seu rosto que você está doido para conhecer a história, e , terei muito prazer em contá-la.
Juniper Pen [disse George] estava no segundo ano da faculdade quando a história que vou lhe contar começou. Era uma mocinha doce e inocente, fascinada pelos jogadores do time de basquete, todos rapazes altos e simpáticos.
Entre eles, o que mais lhe atraía a atenção era Leander Thomson, alto, esguio, com mãos grandes, capazes de segurar com facilidade uma bola de basquete ou qualquer coisa com a forma e o tamanho de uma bola de basquete, o que por alguma razão me faz pensar em Juniper. Ele era sem dúvida o objeto dos gritos dela quando se sentava na arquibancada para assistir aos jogos.
Juniper conversava comigo a respeito dos seus sonhos, porque, como todas as jovens, mesmo as que não são minhas afilhadas, sentia que eu era uma pessoa merecedora de toda confiança. Minha postura digna, mas solícita, convidava a confidências.
- Oh, tio George - costumava dizer -, certamente não é errado sonhar com um futuro para nós dois. Posso ver Lean como o maior jogador de basquete do mundo, como o mais cobiçado de todos os profissionais, como o dono do maior contrato da história do esporte. Não sou muito ambiciosa. Tudo que quero da vida é uma pequena mansão coberta de hera, um pequeno jardim na frente, estendendo-se até onde a vista puder alcançar, uma modesta criadagem, dividida em pelotões, todas as minhas roupas arrumadas em ordem alfabética para cada dia da semana e para cada mês do ano, e... Fui forçado a interrompê-la.
- Meu anjo, existe uma pequena falha no seu plano - disse para ela. - Leander não é um dos melhores jogadores do time. Acho pouco provável que seja contratado por um salário nababesco.
- Isso não é justo! - protestou minha afilhada, fazendo beicinho. - Por que ele não é um dos melhores jogadores?
- Porque é assim que o universo funciona. Por que não se apaixona pelo melhor jogador do time? Ou, melhor ainda, por um jovem corretor de ações de Wall Street que tenha acesso a informações confidenciais?
- Já pensei nisso, tio George, mas gosto mesmo é de Leander. Existem ocasiões em que penso nele e digo para mim mesma: será que o dinheiro é tão importante assim?
- Que é isso, meu anjo! - exclamei, chocado. As meninas de hoje dizem cada bobagem...
- Mas por que não posso ser rica, também! É pedir muito?
Pensando bem, seria mesmo? Afinal, eu era amigo de um demônio. Um demônio pequeno, é verdade, mas com um grande coração. Certamente estaria interessado em colaborar para a consolidação de um amor verdadeiro, em levar a felicidade a duas almas cujos corações bateriam em uníssono enquanto pensavam em beijos mútuos e fundos mútuos.
Quando o chamei, usando a palavra mágica apropriada, Azazel ouviu a história com muita atenção. (Não, não posso lhe contar qual é a palavra. Você não tem nenhum senso de ética?) Como estava dizendo, ele me ouviu com atenção, mas não com a simpatia que eu estava esperando. Admito que o trouxe para a nossa realidade no momento em que tomava alguma coisa parecida com um banho turco, pois estava enrolado em uma pequena toalha e tremia dos pés à cabeça. Sua voz parecia mais fina e esganiçada do que nunca. (Na verdade, não penso que seja realmente sua voz. Acho que ele se comunica comigo por telepatia, mas a voz que imaginei ouvir era fina e esganiçada.)
- Que é basquete? - perguntou. - Algum tipo de esporte? Como se joga?
Tentei explicar, mas, para um demônio, Azazel às vezes consegue ser incrivelmente obtuso. Ficou olhando para mim como se eu não estivesse explicando cada detalhe do jogo com clareza transparente.
Afinal, propôs:
- Será que eu não podia ver um jogo de basquete?
- Claro que pode. Por coincidência, vai haver uma partida hoje à noite. Leander me deu uma entrada. Você pode ir no meu bolso.
- Ótimo - disse Azazel. - Pode me chamar quando for sair para o jogo. Agora, preciso terminar meu zymjig (certamente estava se referindo ao banho turco) - concluiu, antes de desaparecer.
Devo admitir que fico irritado quando alguém coloca seus interesses mesquinhos acima das questões transcendentais em que estou envolvido... o que me faz lembrar, amigo velho, que O garçom parece estar tentando atrair a sua atenção. Acho que quer lhe entregar a conta. Pegue-a, por favor, e deixe-me continuar a história.
Naquela noite, fui ao jogo de basquete levando Azazel no bolso. Para poder ver a partida, ele teve de colocar a cabeça para fora, o que teria causado uma verdadeira comoção se alguém estivesse prestando atenção em nós. Sua pele é vermelha e ele tem dois pequenos chifres na cabeça. Ainda bem que só a cabeça estava de fora, porque sua grossa cauda, de mais de um centímetro de comprimento, é simplesmente repugnante.
Eu mesmo não entendo muito de basquete, de modo que deixei por conta de Azazel entender o que estava acontecendo na quadra. Sua inteligência, embora demoníaca em vez de humana, é bastante desenvolvida.
Depois do jogo, ele me disse:
- Pelo que pude deduzir do comportamento dos indivíduos corpulentos, desajeitados e totalmente desinteressantes que se movimentavam na arena, o objetivo do jogo é fazer aquela bola esquisita passar por dentro de um aro.
- Isso mesmo - concordei. - Isso se chama fazer uma cesta.
- Então seu protegido se tornaria um ás deste jogo estúpido se conseguisse fazer a bola passar por dentro do aro todas as vezes que tentasse?
- Exatamente.
Azazel balançou a cauda pensativamente.
- Isso não deve ser difícil. Preciso apenas ajustar os reflexos do rapaz para que ele possa avaliar corretamente o ângulo, a força do arremesso...
Ficou em silêncio por um momento e depois acrescentou:
- Acontece que eu aproveitei o jogo para registrar o seu complexo de coordenadas pessoais... Sim, pode ser feito... Na verdade, já está feito. Daqui em diante, seu amigo Leander não terá a menor dificuldade para fazer a bola passar por dentro do aro.
Eu estava um pouco nervoso enquanto esperava o jogo seguinte. Não disse nada para minha afilhada Juniper, porque nunca havia recorrido aos poderes demoníacos de Azazel e não estava inteiramente certo de que fosse capaz de fazer tudo que afirmava. Além do mais, queria surpreendê-la. (No final das contas, fiquei tão surpreso quanto ela.)
Afinal, chegou o dia do jogo, e que jogo! A nossa faculdade, a Escola de Engenharia de Buraco Quente, em cujo time de basquete Leander desempenhava um papel tão apagado, estaria enfrentando os brutamontes da Universidade e Reformatório Al Capone, no que prometia ser um combate épico.
Mas ninguém esperava que fosse tão épico. O quinteto da Capone assumiu a dianteira na contagem, enquanto eu observava Leander atentamente. Ele parecia não saber direito o que fazer e a princípio suas mãos deixavam escapar a bola toda vez que tentava fazer uma jogada. Era como se seus reflexos tivessem sido tão alterados que não se sentia mais em condições de controlar os próprios músculos.
De repente, porém, foi como se tivesse se acostumado com o novo corpo. Agarrou a bola e ela pareceu escorregar-lhe das mãos... mas de que forma! Descreveu uma curva no ar e entrou na cesta sem tocar o aro.
A torcida começou a comemorar, enquanto Leander olhava para a cesta, como se não estivesse entendendo nada.
A cena se repetiu uma segunda vez... e uma terceira... e uma quarta. No momento em que Leander tocava na bola, ela saltava no ar. Depois, descrevia uma curva elegante e entrava na cesta. Tudo acontecia tão depressa que não dava tempo nem para Leander fazer pontaria. Interpretando isso como uma demonstração de perícia, a torcida ficou ainda mais histérica.
Logo em seguida, porém, o inevitável aconteceu, e o jogo se transformou em um caos total. Os aplausos deram lugar às vaias; os alunos mal-encarados que torciam pelo reformatório Al Capone começaram a xingar a torcida adversária e várias brigas irromperam na arquibancada.
O que eu tinha me esquecido de explicar a Azazel, achando que era evidente, e que Azazel não percebera, era que as duas cestas de uma quadra de basquete não eram idênticas, que uma delas era a do time local e a outra dos visitantes, e que cada time tinha de acertar a bola em uma cesta diferente. A bola de basquete, como a lamentável ignorância de um objeto inanimado, se dirigia para a cesta que estivesse mais próxima do local onde Leander a segurara. O resultado era que muitas vezes Leander fazia cestas contra seu próprio time.
Ele continuou a insistir nessa prática suicida a despeito da& advertências que o técnico de Buraco Quente, Fritz Schmitt, mais conhecido como Alemão, proferia através da espuma que lhe cobria os lábios. Schmitt cerrou os dentes em sinal de tristeza por ter de tirar Leander da partida e começou a chorar quando tiraram seus dedos da garganta de Leander para que o jogador pudesse ser removido da quadra.
Meu amigo Leander nunca mais foi o mesmo. Eu havia imaginado, naturalmente, que ele procuraria refúgio na bebida, tomando-se um bêbado filosófico e respeitável. Isso seria compreensível. Entretanto, ele se degradou mais ainda. Dedicou-se aos estudos.
Diante dos olhos desdenhosos, e às vezes até pesarosos, dos colegas de faculdade, passou a freqüentar as salas de aula, enfiou a cara nos livros e mergulhou nas profundezas sombrias da erudição.
Mesmo assim, Juniper não o deixou. "Ele precisa de mim", disse-me ela, com os olhos úmidos. Em um gesto de supremo sacrifício, casou-se com Leander logo que se formaram. Continuou com ele mesmo quando desceu até o fundo do poço, adquirindo um ignominioso doutorado em física.
Hoje em dia, ele e Juniper vivem em um pequeno apartamento de subúrbio. Ele ensina física e faz pesquisas na área de cosmogonia. Ganha menos de 60.000 dólares por ano, e aqueles que o conheceram quando era um sujeito respeitável cochicham às suas costas, em tom escandalizado, que está cotado para receber o prêmio Nobel.
Juniper nunca se queixa, mas permanece fiel ao seu ídolo caído. Jamais demonstrou sua decepção, nem por pensamentos nem por atos, mas não pode enganar seu velho padrinho. Sei muito bem que, de vez em quando, pensa com tristeza na mansão coberta de hera que jamais poderá ter e no jardim a perder de vista que permanecerá para sempre fo-ra do seu alcance.
- Esta é a história - disse George, enquanto recolhia o troco que o garçom havia trazido e copiava o valor da conta (para descontar do seu imposto de renda, suponho). - Se eu fosse você - acrescentou -, deixaria uma gorjeta generosa.
Obedeci automaticamente, enquanto George sorria e se afastava. Não me incomodei por ele haver ficado com o troco. Ocorreu-me que George lucrara apenas uma refeição, enquanto eu tinha uma história que podia contar como se fosse minha e me poderia render várias vezes o preço de uma refeição.
Na verdade, decidi continuar a jantar com ele de vez em quando.
Conheci George em uma convenção literária, faz muito tempo. O que me chamou mais a atenção foi a expressão de honestidade e inocência que havia naquele rosto redondo, de meia-idade. Era o tipo de pessoa - pensei - que a gente deixa tomando conta da carteira quando vai dar um mergulho.
Ele me reconheceu pelas fotografias que saem na quarta capa dos meus livros. Cumprimentou-me jovialmente, dizendo que adorava meus contos e romances, o que, naturalmente, me convenceu de que se tratava de uma pessoa inteligente e de bom gosto.
Apertamos as mãos cordialmente e ele disse:
- Meu nome é George Bimnut.
- Bimnut - repeti, para gravá-lo melhor. - É um nome diferente.
- É dinamarquês - explicou -, e muito aristocrático. Descendo de Cnut, mais conhecido como Canuto, um rei dinamarquês que conquistou a Inglaterra no início do século XI. Um dos meus ancestrais era filho dele, nascido do lado errado das cobertas, é claro.
- É claro - murmurei, embora não entendesse bem o que havia de evidente em tal afirmação.
- Ele recebeu o nome de Cnut em homenagem ao pai - prosseguiu George. - Quando foi apresentado ao rei, o monarca perguntou:
""Homessa, este é o meu herdeiro?"
"Não, majestade", disse o cortesão que segurava no coIo o pequeno Cnut. "Ele é um filho ilegítimo. A mãe é aquela lavadeira que Vossa Majestade..."
""Ah! Ainda bem!", exclamou o rei. Daquele dia em diante, meu ancestral passou a ser conhecido como Bemcnut. Apenas por este nome. Herdei-o por sucessão direta, mas com o tempo o sobrenome mudou para Bimnut.
Nesse momento, seus olhos azuis olharam para mim com uma espécie de ingenuidade hipnótica que me impediu de duvidar de suas palavras.
- Quer almoçar comigo? - disse para ele, fazendo um gesto na direção de um restaurante muito enfeitado, que obviamente cobrava preços extorsivos.
- Não acha que ele parece muito vulgar? - observou George. - Talvez a lanchonete do outro lado da rua seja...
- Como meu convidado - acrescentei.
George lambeu os lábios e disse:
- Agora que estou olhando para o restaurante de um ângulo melhor, ele parece ter uma atmosfera aconchegante.
- Está bem, vamos até lá.
Enquanto comíamos, George comentou:
- Meu antepassado Bimnut teve um filho de nome Sweyn. Um típico nome dinamarquês.
- Eu sei - disse eu. - O nome do pai do rei Cnut era Sweyn Forkbeard. Nos tempos modernos, o nome geralmente é escrito Sven.
George franziu a testa e protestou:
- Não há necessidade, meu velho amigo, de ficar se exibindo para mim. Aceito o fato de que você tem os rudimentos de uma educação.
- Desculpe - respondi, sentindo-me envergonhado.
Ele fez um gesto complacente, pediu outro copo de vinho e disse:
- Sweyn Bimnut era fascinado por mulheres jovens, uma característica que todos os Bimnuts herdaram, e fazia muito Sucesso com elas, também... o que parece ser um traço de família. Contam que as mulheres o viam passar e comentavam: "Oh, como ele é lindo!". Ele também era um arquimago. - Fez uma pausa e depois perguntou, muito sério: - Sabe o que é um arquimago?
- Não - menti, sem querer ofendê-lo de novo com meus conhecimentos. - Explique para mim.
- Um arquimago é um grande mago - disse George, com o que me pareceu ser um suspiro de alívio. - Sweyn havia estudado as artes ocultas. Naquela época, isso ainda era possível. As pessoas não eram céticas como hoje em dia. A intenção dele era descobrir maneiras de persuadir as jovens a se comportarem daquela forma dócil e gentil que só faz enaltecer a feminilidade e a deixarem de lado qualquer atitude in-transigente e pouco cooperativa.
- Ah.
- Para isso, precisava de demônios. Descobriu que podia conjurá-los queimando certos arbustos e pronunciando palavras místicas.
- E deu certo, Sr. Bimnut?
- Chame-me de George, por favor. Claro que deu certo. Havia um bando de demônios trabalhando para ele, porque, como costumava observar, em tom queixoso, as mulheres de sua época eram céticas e indelicadas; recusavam-se a acreditar que fosse neto de um rei e faziam observações desairosas a respeito da sua genitora. Depois que um dos demônios entrava em ação, porém, tudo se tornava diferente; elas passavam a compreender que um filho natural é uma coisa muito natural.
- Tem certeza de que o seu antepassado realmente conseguia conjurar demônios, George?
- Tenho, sim. No verão passado encontrei o livro dele de receitas para chamar demônios. Estava em um velho castelo inglês que hoje não passa de uma ruína mas já pertenceu à minha família. Havia uma lista com os nomes dos arbustos, a maneira de queimá-los, as palavras a serem lidas, tudo. Estava escrito em inglês antigo (anglo-saxão, você sabe), mas estou estudando filologia e...
Não pude esconder um certo ceticismo.
- Você deve estar brincando - observei.
George olhou para mim, ofendido.
- Por que pensa assim? Por acaso estou rindo? Era um livro autêntico. Testei as receitas pessoalmente.
E conseguiu um demônio.
- Isso mesmo - declarou, apontando para o bolso de cima do paletó.
- Está ai dentro?
George apalpou o bolso e preparava-se para fazer que sim com a cabeça quando seus dedos sentiram (ou deixaram de sentir) alguma coisa. Olhou para dentro do bolso.
- Ele sumiu - declarou, aborrecido. - Desmaterializou-se. Mas a culpa não é dele. Veio me visitar ontem à noite porque estava curioso para saber como era uma convenção, você entende. Dei-lhe um pouco de uísque com um conta-gotas e ele gostou. Talvez tenha gostado até demais, porque começou a puxar briga com uma cacatua que estava em uma gaiola, perto do bar, chamando-a de nomes horrorosos. Felizmente, adormeceu antes que o pássaro ofendido resolvesse tomar uma atitude. Esta manhã, não estava com uma cara muito boa. Deve ter ido para casa, curtir a ressaca.
Eu me sentia um pouco ofendido. Será que ele esperava que eu acreditasse naquilo?
- Está me dizendo que havia um demônio no bolso do seu paletó?
- Seu poder de dedução é impressionante - disse George.
- Qual é a altura dele?
- Dois centímetros.
- Mas isso é menos que uma polegada!
- Absolutamente certo. Uma polegada tem 2,54 centímetros.
- Quero dizer: que tipo de demônio tem dois centímetros de altura?
- Um demônio pequeno, é claro. Mas, como diz o velho ditado, é melhor um demônio pequeno do que nenhum demônio.
- Depende do tipo de demônio.
- Oh, Azazel {é o nome dele) é um demônio bonzinho. Desconfio que é desprezado pelos colegas, porque se mostra extremamente ansioso para me impressionar com seus poderes. Entretanto, recusa-se a usá-los para me tornar rico, o que não seria nada de mais, considerando que sou seu único amigo terrestre. Não, ele insiste em que seus poderes devem ser usados apenas para fazer o bem a outras pessoas.
- Ora, vamos, George. Esta certamente não é a filosofia do inferno.
George levou o dedo aos lábios.
- Não diga coisas como essa, amigo velho. Azazel fica ria muito ofendido. Ele garante que sua terra é simpática, decente e altamente civilizada, e fala com enorme respeito do governante dele, a quem se refere simplesmente como o Todo-poderoso.
- Ele faz mesmo coisas boas?
- Sempre que pode. Veja o caso da minha afilhada, Juniper Pen...
- Juniper Pen?
- Isso mesmo. Posso ver pela expressão de curiosidade no seu rosto que você está doido para conhecer a história, e , terei muito prazer em contá-la.
Juniper Pen [disse George] estava no segundo ano da faculdade quando a história que vou lhe contar começou. Era uma mocinha doce e inocente, fascinada pelos jogadores do time de basquete, todos rapazes altos e simpáticos.
Entre eles, o que mais lhe atraía a atenção era Leander Thomson, alto, esguio, com mãos grandes, capazes de segurar com facilidade uma bola de basquete ou qualquer coisa com a forma e o tamanho de uma bola de basquete, o que por alguma razão me faz pensar em Juniper. Ele era sem dúvida o objeto dos gritos dela quando se sentava na arquibancada para assistir aos jogos.
Juniper conversava comigo a respeito dos seus sonhos, porque, como todas as jovens, mesmo as que não são minhas afilhadas, sentia que eu era uma pessoa merecedora de toda confiança. Minha postura digna, mas solícita, convidava a confidências.
- Oh, tio George - costumava dizer -, certamente não é errado sonhar com um futuro para nós dois. Posso ver Lean como o maior jogador de basquete do mundo, como o mais cobiçado de todos os profissionais, como o dono do maior contrato da história do esporte. Não sou muito ambiciosa. Tudo que quero da vida é uma pequena mansão coberta de hera, um pequeno jardim na frente, estendendo-se até onde a vista puder alcançar, uma modesta criadagem, dividida em pelotões, todas as minhas roupas arrumadas em ordem alfabética para cada dia da semana e para cada mês do ano, e... Fui forçado a interrompê-la.
- Meu anjo, existe uma pequena falha no seu plano - disse para ela. - Leander não é um dos melhores jogadores do time. Acho pouco provável que seja contratado por um salário nababesco.
- Isso não é justo! - protestou minha afilhada, fazendo beicinho. - Por que ele não é um dos melhores jogadores?
- Porque é assim que o universo funciona. Por que não se apaixona pelo melhor jogador do time? Ou, melhor ainda, por um jovem corretor de ações de Wall Street que tenha acesso a informações confidenciais?
- Já pensei nisso, tio George, mas gosto mesmo é de Leander. Existem ocasiões em que penso nele e digo para mim mesma: será que o dinheiro é tão importante assim?
- Que é isso, meu anjo! - exclamei, chocado. As meninas de hoje dizem cada bobagem...
- Mas por que não posso ser rica, também! É pedir muito?
Pensando bem, seria mesmo? Afinal, eu era amigo de um demônio. Um demônio pequeno, é verdade, mas com um grande coração. Certamente estaria interessado em colaborar para a consolidação de um amor verdadeiro, em levar a felicidade a duas almas cujos corações bateriam em uníssono enquanto pensavam em beijos mútuos e fundos mútuos.
Quando o chamei, usando a palavra mágica apropriada, Azazel ouviu a história com muita atenção. (Não, não posso lhe contar qual é a palavra. Você não tem nenhum senso de ética?) Como estava dizendo, ele me ouviu com atenção, mas não com a simpatia que eu estava esperando. Admito que o trouxe para a nossa realidade no momento em que tomava alguma coisa parecida com um banho turco, pois estava enrolado em uma pequena toalha e tremia dos pés à cabeça. Sua voz parecia mais fina e esganiçada do que nunca. (Na verdade, não penso que seja realmente sua voz. Acho que ele se comunica comigo por telepatia, mas a voz que imaginei ouvir era fina e esganiçada.)
- Que é basquete? - perguntou. - Algum tipo de esporte? Como se joga?
Tentei explicar, mas, para um demônio, Azazel às vezes consegue ser incrivelmente obtuso. Ficou olhando para mim como se eu não estivesse explicando cada detalhe do jogo com clareza transparente.
Afinal, propôs:
- Será que eu não podia ver um jogo de basquete?
- Claro que pode. Por coincidência, vai haver uma partida hoje à noite. Leander me deu uma entrada. Você pode ir no meu bolso.
- Ótimo - disse Azazel. - Pode me chamar quando for sair para o jogo. Agora, preciso terminar meu zymjig (certamente estava se referindo ao banho turco) - concluiu, antes de desaparecer.
Devo admitir que fico irritado quando alguém coloca seus interesses mesquinhos acima das questões transcendentais em que estou envolvido... o que me faz lembrar, amigo velho, que O garçom parece estar tentando atrair a sua atenção. Acho que quer lhe entregar a conta. Pegue-a, por favor, e deixe-me continuar a história.
Naquela noite, fui ao jogo de basquete levando Azazel no bolso. Para poder ver a partida, ele teve de colocar a cabeça para fora, o que teria causado uma verdadeira comoção se alguém estivesse prestando atenção em nós. Sua pele é vermelha e ele tem dois pequenos chifres na cabeça. Ainda bem que só a cabeça estava de fora, porque sua grossa cauda, de mais de um centímetro de comprimento, é simplesmente repugnante.
Eu mesmo não entendo muito de basquete, de modo que deixei por conta de Azazel entender o que estava acontecendo na quadra. Sua inteligência, embora demoníaca em vez de humana, é bastante desenvolvida.
Depois do jogo, ele me disse:
- Pelo que pude deduzir do comportamento dos indivíduos corpulentos, desajeitados e totalmente desinteressantes que se movimentavam na arena, o objetivo do jogo é fazer aquela bola esquisita passar por dentro de um aro.
- Isso mesmo - concordei. - Isso se chama fazer uma cesta.
- Então seu protegido se tornaria um ás deste jogo estúpido se conseguisse fazer a bola passar por dentro do aro todas as vezes que tentasse?
- Exatamente.
Azazel balançou a cauda pensativamente.
- Isso não deve ser difícil. Preciso apenas ajustar os reflexos do rapaz para que ele possa avaliar corretamente o ângulo, a força do arremesso...
Ficou em silêncio por um momento e depois acrescentou:
- Acontece que eu aproveitei o jogo para registrar o seu complexo de coordenadas pessoais... Sim, pode ser feito... Na verdade, já está feito. Daqui em diante, seu amigo Leander não terá a menor dificuldade para fazer a bola passar por dentro do aro.
Eu estava um pouco nervoso enquanto esperava o jogo seguinte. Não disse nada para minha afilhada Juniper, porque nunca havia recorrido aos poderes demoníacos de Azazel e não estava inteiramente certo de que fosse capaz de fazer tudo que afirmava. Além do mais, queria surpreendê-la. (No final das contas, fiquei tão surpreso quanto ela.)
Afinal, chegou o dia do jogo, e que jogo! A nossa faculdade, a Escola de Engenharia de Buraco Quente, em cujo time de basquete Leander desempenhava um papel tão apagado, estaria enfrentando os brutamontes da Universidade e Reformatório Al Capone, no que prometia ser um combate épico.
Mas ninguém esperava que fosse tão épico. O quinteto da Capone assumiu a dianteira na contagem, enquanto eu observava Leander atentamente. Ele parecia não saber direito o que fazer e a princípio suas mãos deixavam escapar a bola toda vez que tentava fazer uma jogada. Era como se seus reflexos tivessem sido tão alterados que não se sentia mais em condições de controlar os próprios músculos.
De repente, porém, foi como se tivesse se acostumado com o novo corpo. Agarrou a bola e ela pareceu escorregar-lhe das mãos... mas de que forma! Descreveu uma curva no ar e entrou na cesta sem tocar o aro.
A torcida começou a comemorar, enquanto Leander olhava para a cesta, como se não estivesse entendendo nada.
A cena se repetiu uma segunda vez... e uma terceira... e uma quarta. No momento em que Leander tocava na bola, ela saltava no ar. Depois, descrevia uma curva elegante e entrava na cesta. Tudo acontecia tão depressa que não dava tempo nem para Leander fazer pontaria. Interpretando isso como uma demonstração de perícia, a torcida ficou ainda mais histérica.
Logo em seguida, porém, o inevitável aconteceu, e o jogo se transformou em um caos total. Os aplausos deram lugar às vaias; os alunos mal-encarados que torciam pelo reformatório Al Capone começaram a xingar a torcida adversária e várias brigas irromperam na arquibancada.
O que eu tinha me esquecido de explicar a Azazel, achando que era evidente, e que Azazel não percebera, era que as duas cestas de uma quadra de basquete não eram idênticas, que uma delas era a do time local e a outra dos visitantes, e que cada time tinha de acertar a bola em uma cesta diferente. A bola de basquete, como a lamentável ignorância de um objeto inanimado, se dirigia para a cesta que estivesse mais próxima do local onde Leander a segurara. O resultado era que muitas vezes Leander fazia cestas contra seu próprio time.
Ele continuou a insistir nessa prática suicida a despeito da& advertências que o técnico de Buraco Quente, Fritz Schmitt, mais conhecido como Alemão, proferia através da espuma que lhe cobria os lábios. Schmitt cerrou os dentes em sinal de tristeza por ter de tirar Leander da partida e começou a chorar quando tiraram seus dedos da garganta de Leander para que o jogador pudesse ser removido da quadra.
Meu amigo Leander nunca mais foi o mesmo. Eu havia imaginado, naturalmente, que ele procuraria refúgio na bebida, tomando-se um bêbado filosófico e respeitável. Isso seria compreensível. Entretanto, ele se degradou mais ainda. Dedicou-se aos estudos.
Diante dos olhos desdenhosos, e às vezes até pesarosos, dos colegas de faculdade, passou a freqüentar as salas de aula, enfiou a cara nos livros e mergulhou nas profundezas sombrias da erudição.
Mesmo assim, Juniper não o deixou. "Ele precisa de mim", disse-me ela, com os olhos úmidos. Em um gesto de supremo sacrifício, casou-se com Leander logo que se formaram. Continuou com ele mesmo quando desceu até o fundo do poço, adquirindo um ignominioso doutorado em física.
Hoje em dia, ele e Juniper vivem em um pequeno apartamento de subúrbio. Ele ensina física e faz pesquisas na área de cosmogonia. Ganha menos de 60.000 dólares por ano, e aqueles que o conheceram quando era um sujeito respeitável cochicham às suas costas, em tom escandalizado, que está cotado para receber o prêmio Nobel.
Juniper nunca se queixa, mas permanece fiel ao seu ídolo caído. Jamais demonstrou sua decepção, nem por pensamentos nem por atos, mas não pode enganar seu velho padrinho. Sei muito bem que, de vez em quando, pensa com tristeza na mansão coberta de hera que jamais poderá ter e no jardim a perder de vista que permanecerá para sempre fo-ra do seu alcance.
- Esta é a história - disse George, enquanto recolhia o troco que o garçom havia trazido e copiava o valor da conta (para descontar do seu imposto de renda, suponho). - Se eu fosse você - acrescentou -, deixaria uma gorjeta generosa.
Obedeci automaticamente, enquanto George sorria e se afastava. Não me incomodei por ele haver ficado com o troco. Ocorreu-me que George lucrara apenas uma refeição, enquanto eu tinha uma história que podia contar como se fosse minha e me poderia render várias vezes o preço de uma refeição.
Na verdade, decidi continuar a jantar com ele de vez em quando.
sábado, 20 de julho de 2013
Robert Silverberg - Cover Gallery & Biography
Robert Silverberg é um escritor norte-americano, nasceu a 15 de Janeiro de
1935, Brooklyn, Nova York,
E.U.A.
Veja algumas de suas capas aqui: https://plus.google.com/photos/103998711237758699926/albums/5902751196765844081
Biography
Silverberg, Robert
(1935– )
Over the course of his 50 years as a writer, Robert Silverberg has proven to be one of the most prolific in the genre, publishing over a hundred science fiction books, not including more than two dozen anthologies of his work. He has also written extensively outside the field, primarily non-fiction, but also including the highly regarded Majipoor series of fantasy novels. Silverberg sold his first short story in 1954, and his first novel—for young adults—a year later. During the 1950s he produced short stories at an incredible pace, more than 40 during 1956 alone. Under a variety of pseudonyms, and often in collaboration with Randall Garrett, he turned out a steady stream of adventure stories for several magazines, most of which were quite minor works.
Biography
Silverberg, Robert
(1935– )
Over the course of his 50 years as a writer, Robert Silverberg has proven to be one of the most prolific in the genre, publishing over a hundred science fiction books, not including more than two dozen anthologies of his work. He has also written extensively outside the field, primarily non-fiction, but also including the highly regarded Majipoor series of fantasy novels. Silverberg sold his first short story in 1954, and his first novel—for young adults—a year later. During the 1950s he produced short stories at an incredible pace, more than 40 during 1956 alone. Under a variety of pseudonyms, and often in collaboration with Randall Garrett, he turned out a steady stream of adventure stories for several magazines, most of which were quite minor works.
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Robert Silverberg
Robert Silverberg - O Homem que Jamais Esquecia (Conto)
Conto com o tema da memória.
Trata-se da história de um homem que se lembra de tudo, de cada detalhe, de cada conversa que ouviu, de tudo o que leu, desde o seu nascimento.Mas esse poder cerebral prova-se muito mais trágico que
benéfico.
Publicado originalmente em Parsecs and Parables, 1970.
Leia o PDF aqui:
Robert Silverberg - O Homem que Jamais Esquecia.
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Robert Silverberg
quarta-feira, 17 de julho de 2013
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Magazine de Ficção Científica - Alguns downloads
O Magazine de Ficção Científica foi uma publicação da editora Revista
do Globo S. A., sob a direção de José Bertazzo, e o editor responsável
foi o já veterano autor e fã, Jerônymo Monteiro.
Essa revista foi uma das pioneiras na divulgação de contos de FC no Brasil, sempre com autores significativos, além de incluir sempre um conto de autor nacional a cada edição.
Foi lançada em maio de 1970 e durou apenas 20 números, encerrando em novembro de 1971 com a morte de Jeronymo Monteiro.
Publicação lendária, que dificilmente se encontra em papel, e que vale a pena guardar na lembrança com, ao menos, um PDF das mesmas.
Alguns blogs de FC já publicaram esses magazines, mas como os links estão quebrados devido à "quebra" do Megaupload onde estavam hospedados, republico agora em novo endereço, na minha estante no 4shared.
Se souberem dos outros PDFs podem me enviar que eu publico posteriormente.
***
Essa revista foi uma das pioneiras na divulgação de contos de FC no Brasil, sempre com autores significativos, além de incluir sempre um conto de autor nacional a cada edição.
Foi lançada em maio de 1970 e durou apenas 20 números, encerrando em novembro de 1971 com a morte de Jeronymo Monteiro.
Publicação lendária, que dificilmente se encontra em papel, e que vale a pena guardar na lembrança com, ao menos, um PDF das mesmas.
Alguns blogs de FC já publicaram esses magazines, mas como os links estão quebrados devido à "quebra" do Megaupload onde estavam hospedados, republico agora em novo endereço, na minha estante no 4shared.
Se souberem dos outros PDFs podem me enviar que eu publico posteriormente.
Espero que desfrutem.
***
Magazine de Ficção Científica Nº2 — Maio 1970
Link para Download: http://www.4shared.com/office/k45kwmoo/magazine_de_fico_cientfica_02.html
Magazine de Ficção Científica Nº3 — Junho 1970
Link para Download: http://www.4shared.com/office/FIhAGdIa/magazine_de_fico_cientfica_03.html
Magazine de Ficção Científica Nº5 — Agosto 1970
Link para Download: http://www.4shared.com/office/PgqdDv8F/magazine_de_fico_cientfica_05.html
Magazine de Ficção Científica Nº9 — Dezembro 1970
Link para Download: http://www.4shared.com/office/mH7E-pdi/magazine_de_fico_cientfica_09.html
Magazine de Ficção Científica Nº10 — Janeiro 1971
Link para Download: http://www.4shared.com/office/3ZcPDX1F/magazine_de_fico_cientfica_10.html
Até a próxima transmissão...
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segunda-feira, 1 de julho de 2013
V de Vingança (Alan Moore) - Art Book (70 fotos)
V de Vingança (versão em português para V for Vendetta) é uma série de romances gráficos escrita por Alan Moore e em grande parte desenhada por David Lloyd. A história se passa em um distópico futuro de 1997 no Reino Unido, em que um misterioso Revolucionário tenta destruir o Estado, através de ações diretas.
V de Vingança foi publicado originalmente entre 1982 e 1983 em preto e branco pela editora britânica Warrior, mas não chegou a ser finalizado. Em 1988, incentivados pela DC Comics, Allan Moore e David Lloyd retomaram a série e a concluíram com uma edição colorida. A série completa foi republicada nos EUA pelo selo Vertigo da DC e no Reino Unido pela Titan Books. No Brasil, foi publicada em 1989 em cinco edições em cores pela editora Globo e mais tarde pela Via Lettera, em dois volumes em preto e branco; em 2006 teve uma edição especial pela Panini, em volume único, colorido e com material extra. Atendendo a pedidos, em 2012 a Panini relançou esta edição especial.
Confira na galeria de fotos aqui: https://plus.google.com/photos/103998711237758699926/albums/5895497138320364657
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